3 Maneiras De Manter Uma Comunicação Saudável No Seu Relacionamento

Ser escritora-na-internet significa ter várias amigas também escritoras-na-internet, dessas que, como eu, de vez em quando despejam tudo que estão pensando e questionando num texto público com timing acidentalmente impecável. Nos últimos meses, no entanto, um fenômeno curioso aconteceu: três das amigas em questão (e amigas entre si) pareciam estar em total sintonia, com questionamentos parecidos e complementares, e eram todos sobre medo, sobre relacionamentos, sobre joguinhos e sobre não se abrir para o outro.

Li todos os textos, e os questionamentos começaram a bater em mim também: por que não gostamos de admitir que queremos alguém? Por que escondemos o que sentimos? Por que pensamos por cinco horas sobre o emoji e a pontuação de uma mensagem de texto para “não passar a ideia errada”? Por que nos preocupamos tanto com passar a ideia certa? Que ideia certa é essa, afinal? Por que seguimos regras imaginárias do que dizer, quando dizer, como dizer, quando nos relacionamos com alguém? De onde tiramos essas regras todas, de comédias românticas demais? (Do mesmo lugar que eu tirei essa mania de questionamentos no começo dos textos – Sex and the city demais?)

Essa dificuldade na comunicação, na abertura, costuma começar logo que nos interessamos por alguém. Queremos sempre ser as garotas legais, que são independentes na medida certa (mas nunca demais), que são fofas na medida certa (mas nunca demais), que são sexuais na medida certa (mas nunca demais), que só dão bola na medida certa (nunca, nunca demais). As garotas que não cobram nada, que não exigem nada, que não falam o que pensam (só quando o que pensam é o que a outra pessoa no relacionamento pensa), que seguem, passo a passo, essas tais regras imaginárias: não ligue primeiro para a outra pessoa, você vai parecer desesperada; não transe no primeiro encontro, você não vai parecer respeitável; compreenda tudo que a outra pessoa faz e não peça nada, senão você vai parecer chata.

Conselho de amiga: relacionamentos que começam assim não demoram muito para começarem a dar errado. Ou a outra pessoa vai se tocar que você não é como parecia ser, e vai se decepcionar por você ser humana (pois é, tem gente com expectativas irreais por aí), ou você vai cansar desse trabalho todo de se policiar para ser perfeita (mais um conselho de amiga: perfeição não existe), ou você vai se tocar que a outra pessoa não é como parecia ser, porque todo mundo faz esse joguinho. Às vezes, esse momento de exaustão e decepção passa, vocês aprendem a aceitar um ao outro bem do jeito que vocês são, e o relacionamento se desenvolve a partir daí – mas, mesmo quando esse é o caso, não seria bem mais fácil se todo mundo fosse honesto desde o começo?

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Esses problemas de comunicação e abertura também aparecem em outros momentos de um relacionamento: quando você fica chateada com algo, reage de forma passivo-agressiva, não explica o que houve, e espera que a outra pessoa se desculpe mesmo assim; quando a outra pessoa faz algo com boas intenções mas que você já falou que não quer nem gosta (por exemplo: uma festa surpresa no seu aniversário, mesmo que você tenha insistido que não queria comemorar); quando vocês não se falam nem se ouvem, e continuam agindo do jeito que acham melhor, sem combinar um com o outro.

Então vamos lá: como fazer isso? Como se comunicar claramente com alguém com quem você se relaciona, sem cair na tentação dos joguinhos (que, apesar de darem um tremendo trabalho emocional, acabam parecendo tão mais fáceis quando são tudo que você conheceu a vida inteira)? Pode parecer difícil, mas os elementos envolvidos são na verdade muito simples:

1. Entender que você e a pessoa com quem você está se relacionando são diferentes.

Sim, é óbvio. Mas mesmo assim, muitas vezes, esperamos que a outra pessoa seja igual a nós inclusive nesse aspecto da comunicação. Porém, pessoas se expressam de formas diferentes, com frequências diferentes e métodos diferentes, e você não pode esperar que o outro demonstre o que está sentindo ou pensando da mesma forma que você o faria – você precisa aprender a entender a linguagem do outro, não só tentar interpretá-la através da sua própria.

Isso significa, inclusive, que você precisa ouvir a outra pessoa – não adianta criar coragem para falar e se abrir se você não está pronta para ouvir a pessoa concordar, discordar, puxar outro ponto que precisa ser discutido entre vocês. Se você estiver a fim de alguém, fale, mas saiba que é preciso respeitar a rejeição; se você estiver irritada com algo que a pessoa que você namora fez, fale, mas saiba que a pessoa pode estar igualmente irritada com uma atitude sua em outro momento. A comunicação num relacionamento precisa ser uma via de mão dupla, com investimento e sinceridade de todas as partes envolvidas, para ser eficiente.

2. Aprender a pedir.

Ao invés de só falar o que te incomoda, é necessário pedir mudanças, propor soluções, dizer o que você quer. Que eu saiba, nem você nem a outra pessoa são telepatas, então ninguém vai só adivinhar o que o outro deseja, seja sexualmente, afetivamente ou numa situação prática. Se você quer que o relacionamento ainda casual se torne monogâmico, fale. Se você quer mais espaço para ficar sozinha, fale. Se você quer companhia num momento difícil, fale.

Em seu livro, apropriadamente intitulado “A arte de pedir”, a artista Amanda Palmer conta que, em um momento de doença física, queria abraços e carinhos, mas seu marido, o escritor Neil Gaiman, ficava distante; tempos depois, ela o confrontou, e ele explicou que ele tinha aprendido que a forma certa de lidar com alguém doente era dar espaço, e que ele não sabia que ela preferiria outro tipo de cuidado, afinal, ela não tinha pedido.

3. Saber que uma conversa não é uma briga ou uma competição.

O objetivo de se comunicar é construir um relacionamento mais positivo e confortável para todos os envolvidos, não ganhar o que você quer ou provar que você está certa. Da mesma forma, uma conversa deve tratar de um assunto específico, ou de uma gama de assuntos relacionados, e não ser um espaço para jogar na cara da outra pessoa coisas que não têm nada a ver com o que vocês estão tentando resolver.

Isso tudo retoma o primeiro ponto: a outra pessoa não é você, não pensa ou sente ou fala como você; a outra pessoa não vai sempre concordar com você. Claro que você não precisa acatar tudo que a outra pessoa diz (da mesma forma que ela não precisa acatar tudo que você diz), mas, dentro dos limites do respeito, vocês têm igual direito de discordar – e igual direito de decidir que alguma das discordâncias é um limite pessoal, e que o relacionamento não pode continuar.

Num relacionamento, comunicação é necessária. Mas, para que a comunicação aconteça, é preciso ter sinceridade, vulnerabilidade, respeito e reciprocidade. Neste dia dos namorados, quer você esteja solteira ou num relacionamento, se lembre disso: comunique seus desejos, ouça os desejos do outro, e vamos aprender a criar relações construtivas e sinceras. Mais amor, menos joguinhos, por favor.

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Foto Capa: Time Modefica