4 Problemas Escondidos Por Trás Do Discurso “Ame Seu Corpo”

Texto originalmente publicado em Everyday Feminism. Traduzido e publicado com autorização para o Modefica.

Eu sou uma ativista gorda e luto pela aceitação de corpos gordos – e eu não amo meu corpo.

Passei os últimos anos pensando e falando um pouco sobre ser gorda. Eu escrevi sobre isso publicamente e academicamente, participei em conferências, e co-escrevi e atuei em uma peça sobre o tema. Eu visto intencionalmente e estrategicamente para mostrar meu corpo e desafiar presunções sobre corpos gordos naqueles ao meu entorno.

E eu tenho certeza que, para muitas pessoas, essas coisas os levam a acreditar que, de fato, eu amo meu corpo.

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Embora eu tenha uma enorme quantidade de amor próprio, esse amor está mais ligado a quem eu sou do que ao corpo no qual eu existo. Então eu faço essas coisas não porque cheguei a qualquer plano iluminado de existência onde eu, com sucesso e por completo, tenha trabalhado o trauma em curso de viver em um corpo gordo, ou porque viver em meu corpo não é mais difícil, ou porque eu tenho quaisquer respostas. Eu faço isso porque são tentativas de redução de danos e táticas de sobrevivência para passar pelo campo minado que é viver em tantos cruzamentos que me deixam triste e solitária e me sentindo desamparada e sem esperança.

Eu faço essas coisas em tentativas egoístas de ajudar aqueles ao meu redor a passar por todas as questões em torno de ser gordo juntos, para, espero, tornar minha vida mais fácil e, finalmente, mais habitável. Nem sempre é algo bem sucedido, mas é praticamente tudo que eu posso pensar em fazer para passar por este mundo.

Embora eu tenha uma enorme quantidade de amor próprio, esse amor está mais ligado a quem eu sou do que ao corpo no qual eu existo

Mas porque eu sou tão visível e vocal sobre as lutas específicas que vêm junto com o fato de existir em um corpo gordo, às vezes sinto que há uma suposição daqueles em torno de mim que isso significa que eu realmente cheguei lá. Que eu vivo em uma utopia onde eu já trabalhei a vergonha e internalizações das questões sobre meu corpo gordo e que tenho todas as respostas.

E, em alguns aspectos, isso é verdade.

Eu estou em um lugar muito diferente em relação ao meu corpo do que eu estava anos atrás, e provavelmente diferente de onde muitos outros estão, especialmente os que estão no início de sua jornada.

Há coisas sobre o meu corpo das quais eu sentia vergonha e hoje não sinto mais. Há coisas sobre meu corpo das quais eu sentia vergonha e ainda sinto, mas descobri maneiras de abrir mão de minimiza-las ou esconde-las. E há coisas sobre o meu corpo que ainda me fazem sentir não apenas com vergonha, mas com raiva, frustração e traição, e com todos os sentimentos que esperamos não sentir sobre nossos corpos para sermos boas feministas, ativistas ou pessoas gordas.

O tamanho e forma particulares do meu corpo tornam certos movimentos, que são fáceis para outras pessoas, desafiadores ou impossíveis para mim. Pode ser difícil encontrar a infra-estrutura que preciso, e eu tenho que estar constantemente consciente da durabilidade das cadeiras, ou do tamanho dos corredores e portas. Além disso, cirurgias quando eu ainda era criança me deixaram com frequentes dores e palpitações.

Estas são experiências reais que consistentemente complicam minha relação com o meu corpo e tornam amar o meu corpo um desafio. Mas às vezes esses sentimentos são aumentados pelo medo de desapontar as pessoas que podem me ver como uma espécie de modelo.

Isso se sente como o resíduo do movimento “ame seu corpo”, capaz de colocar uma pressão desnecessária sobre nós para chegarmos a um destino de aceitação do corpo sincero e descomplicado.

Pode ser esmagador e exaustivo tentar avançar em nossos relacionamentos com nossos corpos e ter sucesso nessa caminhada, mas ainda sinto como se não estivéssemos fazendo o suficiente porque ainda não estamos naquele destino imaginado como um lugar concreto, mas cuja jornada é muito mais abstrata.

É aqui que essa retórica pode nos falhar e nos fazer ignorar os sucessos que já realizamos.

Isso se sente como o resíduo do movimento 'ame seu corpo', capaz de colocar uma pressão desnecessária sobre nós para chegarmos a um destino de aceitação do corpo sincero e descomplicado.

E porque há tantas maneiras de ter um corpo, muitas destas são lições que aprendi sobre ter um corpo gordo – o que é muito diferente de passar por esse processo enquanto vivenciando disforia de gênero ou deficiência, e especialmente todas essas três questões ao mesmo tempo.

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Embora eu não pretenda ter todas as respostas (ou mesmo nenhuma resposta), aqui estão algumas coisas que aprendi sobre as maneiras que a retórica do “ame seu corpo” falharam na minha própria jornada de simplesmente não odiar meu corpo.

1. Ela ignora que estamos inseridos na questão

Em um evento do qual participei no mês passado com a ativista gorda Virgie Tovar, ela articulou tão pungentemente algo que eu estava tentando expressar. Em resposta a uma pergunta sobre como lidar com a discriminação, ela lembrou a um membro da audiência que geralmente quando as pessoas estão trabalhando e curando dos traumas, elas são removidas da situação de trauma. Mas, como pessoas gordas, estamos constantemente re-expostos ao trauma nas interações diárias.

Era uma reminiscência de algo que outro amigo havia me lembrado anos atrás: que esperam que possamos desfazer anos, se não décadas, de trauma tão rapidamente, enquanto ainda estamos sendo expostos a ele.

Comecei minha jornada de positividade quase uma década atrás, o que é bastante tempo – e ainda, desde que eu tinha 20 anos, é menos da metade do tempo que eu já havia experimentado a interiorização do ódio gordo que me ronda até hoje.

A suposta facilidade da mentalidade do “ame seu corpo” esquece que estamos em constante processo e interação com o mundo. Enfrentamos interações diárias que podem ter mais poder sobre nós do que desejamos, e ter reações viscerais a elas não nos torna fracos ou fracassos.

Como pessoas gordas, estamos constantemente re-expostos ao trauma nas interações diárias.

É compreensível que infrações aparentemente pequenas nos faça voltar para trás. É simplesmente irracional e injusto esperar que sejamos maiores e mais fortes do que sistemas que existiram muito antes de nós. O que podemos fazer, em vez disso, é deixar de lado a pressão para amar nosso corpo. Podemos tentar encontrar nossos corpos no meio do caminho e fazer as pazes com eles.

Deixar de lado como eu queria que meu corpo se parecesse ou desejasse que ele fosse (indubitavelmente informado por racismo, capacitismo, ódio aos gordos, e noções cissexistas de masculinidade) me permitiram ver meu corpo pelo que ele é e começar a jornada.

Abra espaço para perdoar a si mesmo por ser implacável em relação ao seu corpo – e lembre-se de como e por que você foi ensinado a se sentir assim.

2. Obscurece a raiz do nosso ódio

Como eu disse antes, ainda há momentos onde eu sinto frustração ou tristeza em relação ao meu corpo. Às vezes é um minuto, uma hora, um dia – e às vezes são dias, semanas e meses.

No ano passado, quando me formei na faculdade e recebi as provas da minha cerimônia, fiquei tão impressionada ao ver meu corpo. Ele parecia muito diferente do que eu tinha imaginado na minha cabeça, e eu estava triste e horrorizada. Além disso, sentia-me envergonhada por sentir-me triste e horrorizada.

Enquanto trabalhava esses sentimentos, eu comecei a me perguntar: o que há de tão triste e horroroso sobre esse corpo? E comecei a perceber: Não era realmente nada sobre meu corpo. Era sobre a bagagem que vem junto de viver nesse corpo. Era sobre a discriminação, os olhares, a falta de acesso a empregos, amor, e sexo que acontecem não por causa do meu corpo, mas pelas experiências de outras pessoas em relação ao meu corpo.

Foi uma grande mudança de perspectiva entender que essas dolorosas e materiais consequências não eram inerentes ao meu corpo ou uma experiência relacionada a gordura, mas o resultado de como aqueles ao meu entorno – incluindo, até certo ponto, eu mesma – internalizaram compreensões negativas sobre meu corpo.

Enquanto trabalhava esses sentimentos, eu comecei a me perguntar: o que há de tão triste e horroroso sobre esse corpo?

Embora essas compreensões continuam impactar a qualidade da minha vida, elas não são inerentes a uma experiência gorda. Isso significa duas coisas. A primeira: que elas podem ser desafiadas, interrompidas e mudadas. A segunda, que elas não são culpa do meu corpo.

Isso me ajuda tanto identificar as questões que ficam entre mim e o amor incondicional pelo meu corpo, como distanciar a dor de viver no meu corpo de seu valor inerente, lembrando que nem meu corpo nem eu somos responsáveis por isso.

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3. Esquece que isso não é sempre trabalho que podemos fazer sozinhos

Essa talvez seja a lição mais assustadora de aceitar, por várias razões.

Reconhecer que a cura é um experiência cooperativa é muito importante, mas também pode nos fazer sentir como abrindo mão do poder. Lembra que nós não estamos sempre no controle, que às vezes as coisas estão fora das nossas mãos e, consequentemente, podem nunca tornar-se a ser. E isso é tão difícil. E tão triste.

Um grande fator que contribui para o meu relacionamento contencioso com o meu corpo é sentir uma falta de atratividade sexual. Cheguei ao meu despertar sexual no meio de comunidades muito comuns e tradicionais de homens gays magros que eram exclusivamente atraídos por outros homens magros. Eu tinha poucas perspectivas sexuais – e oportunidades ainda mais raras para o sexo.

Levei muito tempo para encontrar um espaço onde as pessoas me achassem atraente e para acessar a vida sexual que, aparentemente, as outras pessoas estavam vivendo o tempo todo. E esse acesso continua parecendo muito mais laborioso e infrequente quando comparado às experiências das pessoas magras ao me entorno.

Ainda assim, as experiências de me permitir ser vulnerável e de deixar outras pessoas serem íntimas com meu corpo têm sido incrivelmente importantes para ver o meu corpo de novas e diferentes maneiras, e com menos desprezo. Encontrar a minha própria beleza através dos outros tem sido uma parte instrumental do meu amor próprio.

Reconhecer que a cura é um experiência cooperativa é muito importante, mas também pode nos fazer sentir como abrindo mão do poder.

E eu reconheço que este pode ser um método insustentável e, finalmente, insuficiente. Embora haja pessoas que dizem amar e apreciar e que querem dormir com meu corpo, ainda não houve alguém que tenha tratado o meu corpo de uma forma que me levou a acreditar que ele é digno de ser amado, ou mesmo possível de ser amado.

Ainda assim este processo abriu essa possibilidade para mim de maneiras que eu era anteriormente incapaz de ver, e me permitiu me conectar com o meu corpo não só como um corpo desejável, como também desejado de maneiras que eu nunca tinha sido capaz de fazer.

Eu não acredito que este é um trabalho que necessariamente tem que vir através do sexo – e nem sempre funcionou com sucesso para mim. Mas eu acredito que o trabalho de amar a nós mesmos e nossos corpos também requer o trabalho de outras pessoas nos mostrando que isso é possível ao nos amar e amar nossos corpos.

Não é sempre um trabalho que podemos fazer sozinhos, à maneira como a retórica “ame seu corpo” sugere.

4. Ele apaga o fato das pessoas estarem lucrando com a nossa dor

Algo que é útil para mim é lembrar que odiar meu corpo está a serviço da supremacia branca e do patriarcado. Cada única maneira pela qual eu não amo meu corpo é porque eu sou condicionada a compará-lo a ideias racistas, de ódio aos gordos, capacitistas, misóginas e cissexistas de como os corpos devem parecer.

Esses sistemas trabalham em conjunto com o capitalismo para criar uma indústria de bilhões de dólares de produtos de perda de peso, incluindo clubes de ginástica, vestuário, livros de dieta e suplementos dietéticos que não vão funcionar.

Sob o capitalismo, somos preparados para ser infelizes com o nosso eu – e especialmente nossos corpos – para fomentar ansiedades de inadequação e falta de realização, produzindo ciclos de tentativas de preencher vazios socialmente construídos com produtos. Produtos que ajudam pessoas ricas a ficarem mais ricas.

E, simplesmente, eu me recuso. Eu me recuso a reiterar, promover, participar e apoiar os mesmos sistemas que estão me matando e matando tantos outros como eu. Me recuso a tornar mais fácil para eles.

Sob o capitalismo, somos preparados para ser infelizes com o nosso eu - e especialmente nossos corpos - para fomentar ansiedades de inadequação e falta de realização.

Amar nossos corpos é, sem dúvidas, a maior resistência a esse assassinato predatório e direcionado ao nosso valor inerente e autoconfiança, e seria maravilhoso alcançar o tipo de autoamor acrítico que a retórica “ame seu corpo” nos pede.

Enquanto, para muitos, esta informação por si só pode ser suficiente para levá-los a verdadeiramente amar seu corpo (e isso é ótimo!), nem sempre o é para mim.

Mas isso me encoraja a parar de odiar meu corpo, que às vezes é tudo o que posso fazer. E uma recusa em assumir a responsabilidade pelos efeitos de sistemas – que não só são muito, muito maiores do que eu, como também são direcionados a mim e muitos como eu – é um começo.

Um binarismo que implica que não amar nossos corpos significa que os odiamos é um binarismo falso.

Embora existam momentos em que eu amo meu corpo, há também momentos em que eu odeio meu corpo, e os momentos em que me sinto de forma neutra em relação ao meu corpo superam em muito qualquer um destes.

Eu há trabalhei muito para fazer as pazes e aceitar meu corpo, e o trabalho para manter essa paz é constante. Esses são alguns passos que me ajudam no processo. Eles ficam mais fáceis com a prática. Eu prometo.

Notas da Editora:

A autora do texto se identifica como “nós”. Para não deixar a tradução confusa, escolhemos usar apenas o artigo feminino quando este se fez necessário.

Imagem Capa: Instagram @glitterandlazers

Caleb Luna é escritora contribuinte do Everyday Feminism. Caleb Luna é da classe trabalhadora, gorda, marrom, queer, vivendo, escrevendo, atuando e dançando em Oakland, Califórnia. Estudante de primeiro ano de doutorado na Universidade da Califórnia, Berkeley, e seu trabalho explora as interseções corpos gordos, desejo, fetichismo, supremacia branca e colonialismo através das lentes de uma pessoa queer não-branca. Você pode encontrar mais de sua escrita em Black Girl Dangerous e no Facebook e Tumblr sob queerandpresentdanger.

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