Tem Muita Inovação e Tecnologia Na Ação Afroempreendedora

Pessoas negras são maioria entre os empreendedores no Brasil. O mesmo não podemos dizer sobre o espaço de destaque que elas ocupam no universo hype do empreendedorismo e inovação. É muito comum, quase regra, que a maioria dos eventos sobre empreendedorismo e inovação seja majoritariamente com participação de pessoas brancas e pouco diverso. O ColaborAmerica de 2017 foi um pouco diferente. Apesar de ainda não chegarmos a uma satisfatória soma 50/50 (o que poderia ser considerado um equilíbrio se levarmos em consideração que homens e mulheres negras representam 54% da população brasileira), pudemos ouvir pessoas de realidades muito diversas contando os casos de seus negócios. Houve espaço para histórias de quem vem empreendendo por pura necessidade e desde muito antes deste termo virar moda.

Na mesa Empreendedorismo Negro e Empoderamento Econômico, Priscila Gama, ativista e empreendedora social, consultora jurídica especialista em Direito Público e Direitos Humanos; Suzana Mattos, antropóloga, mestre em Sociologia e Antropologia pela UFRJ e Analista Técnico do Sebrae/RJ; e Clariza Rosa, sócia e diretora de comunicação da Jacaré Moda, formada em comunicação pela PUC-Rio e pesquisa de tendências no IED Rio compartilharam suas histórias e desafios nessa trajetória. O principal deles: cavar seu espaço no universo auto-intitulado como “da inovação” em uma sociedade onde o racismo estrutural implantado dificulta o acesso do negro de periferia a praticamente todos os lugares.

Para Suzana, a inclusão começa a partir do entendimento de que a própria forma de fazer um negócio dar certo em situações adversas, sem seguir um plano muito bem elaborado, sem planilhas, e sem as ferramentas da administração acadêmica já é uma inovação. “Quem sou eu pra dizer que não tem inovação num negócio de uma senhora que está há 20 anos gerindo a sua lanchonete, cuidando da família? Tem que ir lá aprender como que ela faz […]. Isso é ferramenta de negócio”, ressalta ela.

Lançar o empreendedorismo dessas pessoas dentro da caixinha do “empreendedorismo negro” delimita seu alcance e reforça os limites de até onde o empreendedor e a empreendedora negra podem avançar - nos negócios e na sociedade.

Outra barreira a ser quebrada é o entendimento de que inovação têm necessariamente a ver com tecnologia, e que tecnologia é apenas sobre softwares, internet das coisas, realidade virtual ou automação. “Quando se fala sobre inovação as pessoas pensam sempre em tecnologia. Mas tecnologia é trazer pra sua contemporaneidade um conhecimento ancestral. Criativizar é trazer pra correria o que você aprendeu de família”, exemplifica Priscila. A diferença é que esta inovação não acontece por meio de um processo demorado de desenvolvimento e pesquisa, ela floresce exatamente a partir da necessidade do dia a dia.

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Produtos Afrocentrados: feitos para pessoas negras e não-negras.

A empreendedora também pontua a dificuldade de mudar a ótica social, responsável por limitar o alcance do empreendedorismo de pessoas negras, principalmente dentro da chamada economia criativa ou economia da cultura. “O que é fabricado por estes empresários negros são produtos que podem ser pensados sob uma ótica afrocentrista, para a comunidade negra. Mas uma boneca preta, por exemplo, pode ser consumida por qualquer pessoa. Estamos falando de diversidade. Por quê uma mãe branca não poderia comprar para sua filha uma boneca preta?”.

Isso significa que a valorização das origens como ponto principal para criação de um produto não significa que ele é feito para ser vendido exclusivamente para a comunidade negra. E isso precisa ser entendido pela própria sociedade. Segundo Priscila, se o produto não chega aos não-negros, essa também é uma forma de colocá-los à parte da sociedade. Lançar o empreendedorismo dessas pessoas dentro da caixinha do “empreendedorismo negro” delimita seu alcance e reforça os limites de até onde o empreendedor e a empreendedora negra podem avançar – nos negócios e na sociedade.

A periferia é um espaço extremamente rico, mas ele é aproveitado como mão de obra, como a ponta e nunca como a potência de liderança que aquele lugar realmente é.

Aliás, se somos nós, os não-negros, os maiores responsáveis pelo racismo estrutural, é fundamental que exista o entendimento que estes produtos devem também fazer parte do nosso dia a dia. Por exemplo, a boneca negra dentro de uma casa de negros tem o papel de criar uma referência positiva de si para a criança. Numa casa de não-negros, o papel é de incentivar a aceitação e verdadeiramente incluir essa parcela da população em suas vidas. ‎Um produto como este traz consigo uma enorme relevância de inovação e solução: não é só um objeto para comprar e guardar, tem uma função social e educativa essencial.

 

A importância de circularizar e valorizar o conhecimento.

Escolher consumir produtos produzidos pelos empreendedores negros é uma forma de valorizar o seu trabalho, mas não é a única. Incentivar a troca de saberes entre os empreendedores é uma das principais missões do trabalho que Priscila desenvolve como pesquisadora e movimentadora da economia criativa afrocentrada. Seu desafio é o de fazer com que o conhecimento circule por entre a comunidade negra e que os mais diversos tipos de conhecimento sejam trocados. Para ela essa é uma maneira de trazer a economia criativa para um lugar comum entre a comunidade, e fazer com que os empreendedores se sintam valorizados e parte atuante da mesma.

Suzana, que atua no cotidiano prestando suporte aos afroempreendedores encontra dificuldades que interferem na auto estima neste processo de se reconhecer como empresário. Isso porque a figura do empreendedor negro ainda está muito associada ao artesanato, ao pequeno negócio. A falta de reconhecimento da comunidade negra, somado ao racismo estrutural do universo da inovação, apenas corroboram para a ideia de que estes negócios não são estabelecidos ou que são inferiores. Ignorando assim os processos, criações, vivências e organização de uma empresa comandada por uma pessoa negra.

Clariza complementou a fala da colega, trazendo seu ponto como empreendedora de um negócio social voltado para pessoas da periferia do Rio de Janeiro. A fundadora do projeto Jacaré Moda explicou que é por meio de workshops, cursos de produção de moda e de expansão criativa das pessoas que atua com empoderamento da comunidade: “a periferia é um espaço extremamente rico, mas ele é aproveitado como mão de obra, como a ponta e nunca como a potência de liderança que aquele lugar realmente é.” É preciso reconhecer a periferia como local de produção de criatividade, como fonte de conhecimento e com quem a sociedade tem muito a aprender e não somente explorar.

 

Não negros e o afroempreendedorismo.

Suzana também também pontuou a necessidade de mudança de postura e atitude dos não negros: “como é que você pode usar seus privilégios a favor dessa nova relação, dessa reconstrução [social]. Chegar com superioridade em um espaço como não negro, pode ser só mais uma forma de racismo, só que amenizada. A gente não quer ser aquário, não quer ser Safari. Não queremos que os não negros vão para nossa comunidade nos assistir.”

E como os não negros e pessoas em seus lugares de privilégio podem contribuir para apoiar empreendedores negros e de periferias? Priscila Mattos ilustrou formas ativas de promover a mudança com um exemplo de escolhas dentro do universo da moda. Ela enfatiza que pessoas em lugar de privilégio podem fazer escolhas que são voltadas ao público negro. Como por exemplo na hora de contratações nas empresas ou até criação de novos produtos – como maquiagem para a pele negra. Não é só sobre colocar modelos negros estampando campanhas publicitárias porque este é um assunto que está em alta. É promover a inclusão em todas as etapas do processo, numa relação de igualdade genuína e sistêmica.

Indicar locais para encontrar empreendimentos de negros para valorizar como o Afrocriadores e o Das Pretas.  Colocar nas prioridades de indicação para empregos pessoas negras; Entreviste um negro, consulte o banco de dados público e colaborativo que conecta mulheres e homens negros, experts nas mais diversas áreas, a jornalistas e produtores de conteúdo que procuram fontes especializadas. Também é importante consumir conteúdo audiovisual protagonizado ou feito por pessoas negras. No AFROFLIX você encontra filmes, séries, webséries, programas diversos, vlogs e clipes que são produzidos OU escritos OU dirigidos OU protagonizados por pessoas negras; além de ficar de olho no conteúdo cultural de projetos como o circuito rolezinho.

Consumir os produtos feitos por empresários negros que podem para você, cuidando sempre de refletir sobre a apropriação cultural, é outro caminho importante quando falamos de distribuição de privilégios, no caso aqui, renda. Apoiar financeiramente projetos como o da Universidade da Correria, conhecer as iniciativas de afrobetização da Adeola e assistir ao Afrotranscendence.  

Os pontos levantados aqui são apenas a ponta de uma discussão vasta que ainda precisa ser debatida não só em ambientes de empreendedores negros, mas nos mais variados recortes sociais. A representatividade ilustrativa não é o suficiente, é preciso buscar equidade e, como disseram as participantes da mesa encontrar as diferenças históricas e estruturais entre negros e não negros. Buscando chegar num ponto em que possamos viver em uma sociedade de respeito mútuo. Enquanto isso, há muito por fazer, debater e promover a acessibilização de espaços. Afinal, em um cenário aonde pessoas negras são consideradas minoria quando elas fazem parte de uma maioria da população, é preciso virar este jogo.

 

Esse texto faz parte de uma série de três artigos pautados no ColaborAmerica sobre tecnologias regenerativas, sistemas de conhecimento e produção que visam otimizar a capacidade de regeneração do ambiente em que vivemos e as interações sociais que experienciamos. Soluções que buscam fazer com que a nossa atividade no mundo gere regeneração e não mais esgotamento.

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Uma visão de tecnologia e inovação que não se limita em ser uma versão computadorizada do presente como sinal de evolução, mas que enxerga nas mais diversas atividades tecnologias sociais viáveis e tão inovadoras quanto o último sistema de processamento. O primeito texto foi Agrofloresta É a Tecnologia Regenerativa Capaz de Proteger (e Recuperar) a Amazônia e o próximo tema será sobre a Descentralização como Tecnologia de Colaboração.

Cobertura realizada por Mari Pelli e Bruna Neto, articuladoras do Roupa Livre. Elas estiveram no ColaborAmerica promovendo um novo olhar para as roupas e aproveitaram para trazer as novidades que encontraram por lá para quem acompanha o Modefica.

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