Agrofloresta É a Tecnologia Regenerativa Capaz de Proteger (e Recuperar) a Amazônia

Se a Amazônia fosse um país, seria o 6º maior do mundo. Uma área rica responsável por concentrar 25% da biodiversidade e 20% da água doce do mundo. Os números exatos podem ser novidade, mas todos nós sabemos o quanto a Amazônia é importante para o planeta e para as pessoas – ouvimos nas escolas, passamos o olho em revistas e vemos de vez em quando falar sobre ela na tv. Quando um decreto para extinguir uma reserva amazônica é cogitado e consegue entrar no debate público, rapidamente nos mobilizamos para tentar impedi-lo.

Por outro lado, nós sabemos também que a Amazônia está sendo desmatada a passos largos; a parte da Amazônia brasileira já perdeu 20% da cobertura florestal. Porém, não entendemos bem o porquê ou por quem, muito menos temos noção de como impedir a devastação. Em um texto daqueles tem-que-ler, Eliane Brum fala sobre o estado de abandono da Amazônia pela opinião pública nacional e como isso prejudica a proteção da floresta e de quem está lutando para defendê-la. “O que acontece na Amazônia tem efeitos no clima do país e do planeta, mas a Amazônia segue longe demais. Como tão poucos se importam, os violentos se sentem à vontade para agir violentamente, quem discorda é repelido ou mesmo ameaçado e a tensão tornou-se um estado permanente na região”.

O problema é que além da Amazônia estar muito distantante, devastação e crescimento econômico sempre nos foram apresentados como intrinsecamente conectados – um trade off do qual não podemos escapar, principalmente quando o assunto é floresta. Destruir para desenvolver é recorrente no vocabulário daqueles que vão ganhar muito com a destruição.

Pensar numa economia capaz de regenerar floresta e gerar renda, com tecnologias regenerativas nos modelos de agrofloresta, não só faz muito sentido como é urgente agora.

Aos poucos, estamos chegando cada vez mais perto de entender que há outras maneiras de gerar valor, inclusive econômico, para a sociedade sem necessariamente destruir o meio-ambiente. Talvez por uma questão mais de necessidade do que um simples despertar da consciência: tente contar seu dinheiro prendendo a respiração. Não importa o quanto se tenha, não é possível ir muito longe. O desafio é levar isso lá pra cima, onde o desmatamento está avançando em ritmo estrondoso e só em Senador José Porfírio, município brasileiro do estado do Pará, pertencente à mesorregião do Sudeste Paraense e microrregião de Altamira (o lugar mais afetado por Belo Monte), aumentou 500% em 4 anos. Pensar numa economia capaz de regenerar floresta e gerar renda, com tecnologias regenerativas nos modelos de agrofloresta, não só faz muito sentido como é urgente agora.

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O assunto foi bastante pautado na última edição do CalaborAmerica, que aconteceu no fim de novembro no Rio de Janeiro. Mariano Cemano, Engenheiro Florestal especialista em desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas; Luiz Claudio Santos, coordenador do projeto Florestas de Comida; Ana Toni, Diretora Executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS); e Roberto Wickert, da Mercur, uma das poucas indústrias do Brasil que atua com o comércio de borracha extraída de seringueiras nativas, expuseram de que forma estão buscando esta regeneração através de suas atividades numa palestra dedicada ao tema.

Para todos eles, o primeiro passo estratégico é tangibilizar a realidade da Amazônia para quem vive nos centros urbanos. “Um dos grandes desafios para nós, ativistas socioambientais, é conectar um pouco mais os brasileiros à Amazônia”, falou Mariano. “É uma terra de desigualdades muito grandes e que infelizmente quem está perdendo é o meio-ambiente. O ritmo de derrubada da floresta ainda é muito forte e a nossa saída é encontrar modelos mais sustentáveis de produção de alimentos e conservação da floresta.”

É uma terra de desigualdades muito grandes e que infelizmente quem está perdendo é o meio-ambiente. O ritmo de derrubada da floresta ainda é muito forte.

Podemos estar fisicamente distantes da floresta, mas a nossa qualidade de vida está bastante relacionada à ela. Por exemplo, as chuvas ao redor do país, incluindo secas e enchentes, estão diretamente ligadas ao desmatamento da região. Por isso, Mariano enfatiza a necessidade de um entendimento pleno da Amazônia como um patrimônio muito valioso e que presta serviços ambientais extremamente relevantes para o planeta, mas principalmente para nós brasileiros.

Também é preciso enxergar a capacidade de geração de valor econômico ao mantermos a floresta de pé. Hoje, somente 8% do PIB brasileiro vem da Amazônia, o que, como dado isolado, se torna um dos principais motivos pelo qual muitas iniciativas privadas e governamentais enxerguem somente o potencial de desenvolvimento econômico por meio da devastação, desconsiderando o real potencial desse ecossistema e sua importância sistêmica.

 

Mas o que é uma agrofloresta?

Uma das alternativas apresentadas foi o crescimento das agroflorestas, que pode ser considerada uma tecnologia regenerativa, pois otimiza o processo de gerar mais vida ao invés de promover o esgotamento dos ecossistemas, desde o plantio até a comercialização.

Basicamente, Agrofloresta ou Sistema Agroflorestal (SAF) é um sistema de agricultura que otimiza a produção, aumentando o potencial de uma área em até 400% e ao mesmo tempo proporcionando a regeneração da região em questão. Isto porque, ao contrário da monocultura, os SAFs se inspiram nos próprios processos naturais de auto regulação do solo para conduzir suas práticas de manejo. É um sistema que vem sendo desenvolvido para substituir o monocultivo, mas também para regenerar áreas degradadas e florestas.

Um exemplo palpável é o da região de Apuí, na Amazônia, onde o plantio do café no sistema agroflorestal já é realidade para as comunidades. A agrofloresta atua como um ecossistema propício para a produção do cultivo escolhido; no caso dos cafezais, o sistema auxilia as plantas arbóreas a deixarem o clima e o solo mais propício para que a plantação de café tenha mais possibilidade de crescimento.

 

A agrofloresta regenera o solo, recupera a fauna e propicia até mesmo a aparição de nascentes // Reprodução

 

Antes da implementação da SAF, foram realizadas muitas reuniões com produtores locais, que contribuem não só na lavoura, mas na demarcação da área, análise do solo e adubação verde com outras espécies “A gente está plantando mato do bem, que vai fixar nitrogênio”, vimos João Aristides Ramos, produtor da região, explicar no vídeo institucional da iniciativa de agroflorestas em Apuí apresentado durante a mesa. “Também estamos fazendo biofertilizantes, que é um fertilizante natural que fazemos através de esterco bovino com várias outras plantas que passamos na folha do café e dá muito resultado”.

Mariano explica que o trabalho de mudança de perspectiva é gradual e tem um tempo diferente das demandas do mercado que vivemos hoje. “Tem algumas iniciativas que estão mudando a chave, promovendo este empreendedorismo florestal, amigo da floresta com as comunidades ribeirinhas, povos indígenas. Só que o ritmo disso é diferente, o tempo que este tipo de negócio leva para chegar em um nível de maturidade é outro”. Está posto então mais um desafio às SAFs.

 

Confiança como forma de regenerar as relações.

Um outro ponto de atenção ao falarmos sobre processos de regeneração junto às comunidades e à floresta foi trazido por Roberto Wickert, representante da Mercur. A empresa, que conta com o projeto Borracha Natural, tem vivenciado a importância de estabelecer relações de confiança com os envolvidos e desenvolver tecnologias sociais para escalar suas iniciativas.

“Nosso primeiro movimento foi o de restaurar o relacionamento que tínhamos com a cadeia produtiva nacional. Hoje compramos borracha natural produzida diretamente pelos extrativistas. Mas foram 2 anos entre a intenção de compra e recebimento do lote”, lembrou Wickert. Para ele, a falta de confiança foi o principal empecilho por conta das instituições que impõe o seu modo de produção e não deixam nada como legado para a comunidade.

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“Na realidade do cerrado, são elas que produzem as comidas e cuidam da saúde da família, por isso elas têm um conhecimento agroecológico intrínseco.”

Entre os diversos resultados obtidos com este processo de restabelecimento da confiança e o fornecimento da borracha pelos extrativistas está uma renovação da forma como os trabalhadores enxergam a atividade, agora mais valorizada. “Observamos até os indígenas voltando a se interessar pela atividade e passar mais tempo imersos na floresta, retomando costumes ancestrais como a caça e a pesca”, explicou o representante. A valorização do ofício faz também com que eles queiram ficar e preservar a floresta. Um desafio menos mercadológico e muito mais humano.

Logística, pessoas, tempo de processos, distância e concorrência desleal são apenas alguns dos desafios nesta jornada de aprender a desfrutar do que a floresta amazônica oferece sem causar destruição. Para Luiz Claudio Santos, que hoje coordena o projeto Florestas de Comida, além destes percalços, a valorização do conhecimento das pessoas que trabalham diretamente na agricultura familiar ainda é pouca. “Essa agricultura é a base de 90% dos municípios com até 20 mil habitantes e movimenta 35% do PIB. Ela sustenta o Brasil, produz nossa comida, mas está completamente invisibilizada, fragilizada em todos os aspectos”, lembra ele.

Ele ressalta ainda que dar luz à importância da agricultura familiar é também destacar o protagonismo feminino. “Na realidade do cerrado, são elas que produzem as comidas e cuidam da saúde da família, por isso elas têm um conhecimento agroecológico intrínseco. (…) Nossa atuação é para valorizar o trabalho destas pessoas, que acabaram ficando invisíveis.”

 

O papel de cada um de nós diante deste cenário.

Está claro haver ainda muito chão pela frente para implementação em escala das SAFs, do desenvolvimento de relações de mais confiança e o resgate dos saberes do povo das florestas. Mas os exemplos destas iniciativas responsáveis por apostar nestas soluções nos mostram caminhos possíveis e ressaltam a necessidade de investimentos dos mais diversos atores da sociedade.

As grandes indústrias têm um papel fundamental e muito desafiador como gigantes catalisadoras econômicas. Como disse Wickert, “É o mínimo que podemos fazer. Não utilizamos este tipo de projeto como argumento de venda, pois temos o entendimento de que esta é nossa obrigação: criar mais vida. Seria maravilhoso ter outras indústrias atuando desta forma”.

Na esfera pessoal, o desafio é sempre buscar entender as consequências das nossas escolhas e ações da forma mais ampla possível e em cadeia. Hoje já existe um nível de consciência maior, mas muitas pessoas ainda não associam o fato de comer carne ao desmatamento. É preciso que mais pessoas se conscientizem sobre como, por exemplo, as florestas estão sendo substituídas por grandes plantações de soja que, por sua vez, servem para alimentar rebanhos criados para produção de alimentos e produtos de origem animal.

 

Uma vez que você se sente parte real de toda a natureza, fica mais fácil ligar-se com os trabalhos que têm a ver com a floresta.

 

Ana Toni incrementou a discussão trazendo a reflexão sobre qual o papel de cada pessoa em relação a Amazônia. “Fazemos escolhas todos os dias, vamos olhar para elas e prestar atenção no papel que nos cabe e cobrar nossos direitos. Hoje somos o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Vamos cobrar nossos direitos e atuar para podermos ter acesso a produtos que regenerem a vida.”

Mas como? Entenda mais a fundo o que é uma agrofloresta e porque ela é uma solução viável para o desmatamento, para combater as mudanças climáticas e para gerar renda. Leia notícias sobre as questões políticas e ambientais da região divulgadas por um veículo local, como o Amazônia Real. Siga pressionando para impedir a aprovação de decretos como o relacionado ao Renca, que abre brechas para a ampliação da área de desmatamento. Conecte-se com os saberes e curas indígenas através de livros como o Una Isi Kayawa – Livro da Cura do Povo Huni Kut ou Fulkaxó ser e viver Kariri-Xocó. Apoie organizações sem fins lucrativos, como a Conservação Internacional que age pela preservação. Procure consumir produtos produzidos através de práticas regenerativas, como os que têm o selo Origens Brasil, responsável por mais transparência para os produtos agroextrativistas e as relações comerciais praticadas com as populações tradicionais e povos indígenas da Amazônia.

“Uma vez que você se sente parte real de toda a natureza, fica mais fácil ligar-se com os trabalhos que têm a ver com a floresta”, finaliza Ana. Afinal de contas, não importa a forma como você escolher agir, se o ponto de partida for o desenvolvimento de um olhar sistêmico, os benefícios serão sempre mais efetivos.

 

Esse texto faz parte de uma série de três artigos pautados no ColaborAmerica sobre tecnologias regenerativas, sistemas de conhecimento e produção que visam otimizar a capacidade de regeneração do ambiente em que vivemos e as interações sociais que experienciamos. Soluções que buscam fazer com que a nossa atividade no mundo gere regeneração e não mais esgotamento.

Uma visão de tecnologia e inovação que não se limita em ser uma versão computadorizada do presente como sinal de evolução, mas que enxerga nas mais diversas atividades tecnologias sociais viáveis e tão inovadoras quanto o último sistema de processamento. Os próximos temas serão sobre Afroempreendedorismo e Autonomia Financeira do Empresário Negro e Descentralização como Tecnologia de Colaboração.

Cobertura realizada por Mari Pelli e Bruna Neto, articuladoras do Roupa Livre. Elas estiveram no ColaborAmerica promovendo um novo olhar para as roupas e aproveitaram para trazer as novidades que encontraram por lá para quem acompanha o Modefica.

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