Arte E Gênero: O Papel Dos Têxteis Para As Mulheres Das Artes

As diferenças nas relações de gênero nos campos das artes plásticas e do design são conflituosas e viveram, durante muitos anos, à margem do discurso – tanto na prática quanto na academia. Paralelo a isso, acrescenta-se o fato de que originalmente a arte “das mulheres” era geralmente a chamada “arte têxtil”, feita em 4 paredes e considerada ofícios domésticos. Por esse atraso no debate, a posição das mulheres nas artes, além da relação atribulada dos têxteis com a arte, permanece até hoje.

A relação entre gênero e História da Arte começou a ser investigada no inicio dos anos 70. Neste período, diversos agentes do mundo da arte que se denominavam feministas começaram a questionar o sistema da principal corrente das artes visuais e a exclusão das mulheres do mesmo. Para entender a posição das mulheres no sistema das artes, estes historiadores têm como guia uma série de questões; e como a dicotomia entre arte e artesanato afeta as mulheres é a mais relevante delas quando se tem como foco o (não) lugar dos têxteis na História da Arte.

O surgimento das Belas Artes e da mecanização do trabalho

A disposição de segregação entre as categorias artísticas teve início no Renascimento, esta elevava algumas artes às atividades então denominadas liberais. As artes aplicadas eram consideradas inferiores, e associadas negativamente ao artesanato. A criação do conceito de Belas Artes tinha como principal objetivo a elevação do status social do artista em relação ao artesão.

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Apesar das idéias serem concebidas na transição da Idade Media para o Renascimento, a diferenciação foi agravada durante o século XVIII, com o desenvolvimento das Academias de Arte. Não por acaso, a reaproximação entre Belas Artes e Artes Aplicadas ocorre no século seguinte e, em parte, como resistência a este agravamento.

Essa nova disposição não foi implantada de maneira pacífica. Ela foi fruto de séculos de brigas entre as guildas e as academias de arte. As academias de arte, consideradas embrionárias até o século XVI, são um dos principais palcos destas disputas. Retirar os pintores, e posteriormente os escultores, do domínio das guildas e, portanto, do modelo de educação medieval do artesão era fundamental para quem tinha como objetivo elevar as artes (posteriormente denominadas como Belas Artes) e distingui-las das atividades que eram vistas como exercício manual.

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Famoso papel de parede de Willian Morris // Reprodução

Entre o final do século XVIII e o início do século XIX as guildas, que regulamentavam as profissões das artes aplicadas, foram abolidas em toda a Europa. Em conseqüência disto não há mais quem fiscalize este tipo de trabalho, e assim os primórdios da mecanização matam o artesanato.

O escritor inglês Jonh Ruskin foi um dos primeiros a criticar a desumanidade da condição dos artesãos. Sua pretensão era melhorar esta situação através de reformas sociais e rejeição do trabalho mecanizado. Para ele, o modo de produção medieval era o ideal. As ideias de Ruskin são transferidas para a prática por Willian Morris por meio do Arts and Crafts Movement. Neste movimento há tentativa de equiparação social entre Belas Artes e Artes Aplicadas.

Basicamente, a ideia do movimento era confeccionar itens para serem utilizados na vida cotidiana. Objetos do uso cotidiano que fossem concebidos com preocupações estéticas deveriam ser considerados arte. E de acordo com essa perspectiva isso só seria possível pelo trabalho artesanal. O movimento nasceu na Grã Bretanha, depois floresceu nos Estados Unidos, Europa e, mais tarde, no Japão.

Nos ofícios têxteis, as mulheres muitas vezes estavam presentes. No caso do Arts and Crafts Movement a função delas era executar o trabalho propriamente dito, ou seja, eram a mão de obra, função considerada hierarquicamente inferior.

Ao longo do século XIX um ciclo torna-se vicioso: as mulheres eram vistas como inferiores e consideradas apenas capazes de realizar arte feminina, e algumas técnicas eram consideradas inferiores e, portanto arte feminina.

Têxtil e gênero na arte do século XX

No início do século XX, a escola de design Bauhaus tem a proposta de revitalização das artes aplicadas. Mas as modalidades dentro da escola tinham prestígios diferentes. Os ateliês de tecelagem e de cerâmica ocupavam uma posição de prestígio marginalizada dentro da escola. Eles eram considerados mais manuais e tradicionais, enquanto os ateliês de vidro e metal, por exemplo, tinham uma posição mais nobre por serem considerados mais industriais e fabricarem produtos modernos.

Os ateliês de cerâmica e tecelagem estavam entre os acessíveis às mulheres. Assim os ateliês marginalizados por serem considerados mais manuais e tradicionais eram os mesmos considerados adequado às mulheres. No caso do ateliê de tecelagem, além de ser um dos poucos acessíveis para as mulheres era quase que exclusivamente feminino, sendo algumas vezes chamado de “classe das mulheres”.

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Gunta Stölzl foi responsável por influenciar todo o design têxtil do século XX // Reprodução (Gunta Stölzl 1927)

Apesar desta dupla marginalização (têxteis são considerados inferiorizados por serem “trabalho de mulher”, mulheres são consideradas inferiorizadas e por isso os têxteis são adequados para elas), a produção do ateliê de tecelagem de Bauhaus, cujos os nomes mais importantes foram Gunta Stölzl, Anni Albers e TrudeGuermonprez, influenciou todo o design têxtil do século XX.

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Depois da Bauhaus, outro momento importante para a história dos têxteis na arte e o seu não lugar são as décadas de 1960, 1970, e 1980. Já na década de 1960, mas principalmente a partir da década seguinte numerosos artistas trabalham explorando e questionando as hierarquias entre arte e artesanato. Dentre os mais importantes estão Magdalena Abakanowicz, Jagoda Buic, Sheila Hicks e Lenore Tawney.

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Obra em exposição de Sheila Hicks // Reprodução

Os questionamentos feministas sobre a relação entre arte e artesanato têm como emblema o movimento de arte feminista norte-americano liderado poe Judy Chicago e Miriam Shapiro. Este movimento problematiza a maneira como artistas mulheres, e suas práticas artesanais eram tratadas no mundo da arte.

Neste contexto podemos destacar a obra “Anonymous Was a Women” de Miriam Shapiro, que se trata de uma série de trabalhos propositalmente feitos a partir de modalidades consideradas “femininas” e “domésticas”, como toalhas de mesa, guardanapos e bordados e os exibiu como objetos artísticos.

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Destaque de “Anonymous Was a Women” de Miriam Shapiro (1977) // Reprodução

O título da obra faz referência a um aspecto político no campo das artes: a autoria, materializada pela assinatura de um sujeito reconhecido enquanto artista. Este elemento pode ser decisivo na definição de uma obra enquanto artística, e Shapiro chama a atenção para relação entre o anonimato e os trabalhos artesanais femininos.

A partir da década de 1990, a arte feminista passa a usar as tradições femininas, como os têxteis, para subverter os ideias de feminilidade. Um exemplo é a obra Eight Women in Black and White de Ghama Amer. A artista egípcia que vive em Nova York costura telas de pintura representado imagens de mulheres em posições sexuais.

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A obra Eight Women In Black And White (2004) de Ghada Amer // Reprodução

A escolha de Amer por imagens pornográficas está exatamente na violação de convenções de feminilidade tanto ocidentais quanto orientais, mais especificamente islâmicas. Assim, a artista dialoga com a arte feminista, mas não com o feminismo de Chicago e Shapiro, pois ela usa os têxteis com o foco na subversão da feminidade e não na revalorização das práticas femininas.

Bibliografia:

1. CALLEN, Anthea. Sexual Division of Labor in Ar tand Craft Movement. IN: Woman’s Art Journal. Vol. 5 No 2 1984/1985 p. 1-6
2. CHADWICK, Witney. Women, Art and Society. London. Thames& Hudson, 2007.
3. DROSTE, Magdalena. Bauhaus: 1919-1933. Tradução de Magdalena Droste. London: Taschen, 2001
4. PEVSNER, Nikolaus. Academias de Arte: passado e presente. São Paulo. Companhia das Letras. 2005.
5. SIMIONI, A. P. C. Bordado e transgressão: questões de gênero na arte de Rosana Paulino e Rosana Palazyan. IN: Proa – Revista de Antropologia e Arte. Ano 02, vol.01, n. 02, nov. 2010.

Imagem Capa: Lenore Tawney // Reprodução

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  • Aline

    Excelente texto, muito obrigada por isso! Sou artista plástica e sobre minhas pinturas faço um trabalho de bordado manual e retalhos. Muitas galerias rejeitam meu trabalho com o pretexto de ser ¨decorativo¨… Esse texto me ajudou muito a entender o porquê e também me fez pensar que se um homem apresentasse um trabalho igual, nao seria visto de forma diferente, ate mesmo irreverente!?
    Deixo aqui minha pagina para voce conhecer meu trabalho
    http://www.facebook.com/alinetercete
    @alinet.oficial (instagram)

    • Isabel Gradim

      Oi Aline!
      Tão bom perceber que outras pessoas também tem interesse nestas questões. Vou olhar seu trabalho com muito carinho.

  • Samira Deodato

    Achei excelente a discussão. Estou no mestrado trabalhando com o debate atte x artesanato dentro dos espaços de feiras. Seu texto me ofereceu muito para pensar.

    • Isabel Gradim

      Oi Samira, que bom gostou do texto. Seu mestrado também parece bem interessante gostaria de saber mais.

  • Pingback: Mulheres Nas Artes: O Machismo Da Bauhaus E A Revolução Têxtil de Gunta Stölz • modefica()