Como o Blockchain Pode Deixar a Moda Mais Transparente e Sustentável

A tecnologia blockchain não é algo fácil de ser entendido por quem não está familiarizado com ela. É como explicar a Internet para alguém nos anos 80. É intangível e novo – apesar de simples, é disruptivo e desafior num primeiro momento. Na moda e a curto prazo, o blockchain é uma ferramenta poderosa para deixar essa indústria mais transparente, minimizar o greenwashing e aproximar os consumidores da (longa) história por trás das suas roupas.

Neliana Fuenmay, fundadora da A Transparent Company e pioneira em integrar o blockchain na cadeia de suprimentos de moda, veio de Londres para falar exatamente sobre isso durante o painel sobre blockchain dentro da programação da arena Good Fashion, promovida pelo Instituto C&A, no Sustainable Brands São Paulo. Ela contou um pouco sobre o estudo de caso do qual fez parte para rastrear a primeira peça de moda da fibra à loja via blockchain. Antes de roupas, ela trabalhou na implementação de blockchain na cadeia de suprimentos de cocos e atuns, rastreando seus passos da Ásia à Europa.

A história da Neliana com a moda começou há algum tempo. Com 31 anos e formada no London College of Fashion, ela chegou num momento de crise de valores. Poluição, condições precárias de trabalho e uma cadeia de suprimentos tão opaca quanto fragmentada versus sua paixão inerente pela moda. “Quando você fica consciente sobre essas coisas, você tem duas opções: ou simplesmente ignorar ou fazer algo a respeito”, contou ela que topou encontrar conosco para uma entrevista antes de voltar para Londres. Ela encontrou no blockchain a possibilidade de fazer algo a respeito.

Mas o que é blockchain afinal? Nas palavras de Neliana é um layer de informação que permite qualquer um, nesse caso da cadeia de suprimentos, provar uma afirmação. Seja em relação à sustentabilidade, qualidade e até mesmo autenticidade. Seu nome resume seu funcionamento: blocos [de informação/transações] em cadeia.

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Para controle de cadeias de produção, o blockchain se tangibiliza em um número de identidade em cada produto, algo como um passaporte, onde todas as informações da sua tragetória são abertas, compartilhadas e incorruptíveis. “As pessoas já fazem isso com papel e caneta. O blockchain é digitalizar toda essa informação de maneira descentralizada”, explica ela.

Hoje, quando um lote de algodão sai da fazenda, por exemplo, o controle é feito por meio de sistemas fechados (ou até mesmo papel e caneta), normalmente é emitida uma nota fiscal de saída e transporte, e as informações sobre esse lote ficam guardadas com os produtores. Quando esse algodão é entregue pela transportadora na fiação, quem recebe assina um papel e precisa fazer a nota fiscal de entrada, e assim por diante. Esses processos acompanham a matéria-prima até o produto final em cada passo da cadeia. Ao colocar todas essas informações num sistema de blockchain, ao invés de sistemas internos ou analógicos, os blocos de informação se acumulam e se autovalidam. Uma vez que a informação está lá, ela fica lá para sempre – e acessível para qualquer um que tiver um leitor de QR Code ou NFC no celular.

O primeiro produto de moda a ser rastreado via blockchain foi o jumper da estilista dinamarquesa Martine Jarlgaard. Uma parceria entre Provenance, A Transparent Company e a agência de inovação da London College of Fashion permitiu que cada etapa do processo fosse registrada e rastreada via blockchain através do aplicativo da Provenance. Da tosa das alpacas na fazenda britânica Alpaca Fashion, para a fiação Two Rivers Mill, até a tecelagem Knitster LDN e, finalmente, para Martine Jarlgaard, em seu ateliê em Londres. A peça vem com um código que, quando lido, mostra todo seu histórico em detalhes. Nesse caso nós sabemos até de quais alpacas veio a matéria-prima: James Bond, Skyfall e Othelo.

 

Da fazenda à loja: tricot de Martine Jarlgaard é a primeira peça de roupa rastreada via blockchain.

 

 

Ao passar o leitor na etiqueta ou digitar o número de identidade do produto, toda a trajetótia, da fibra à peça pronta, é exibida para o consumidor.

 

Quando o que a marca tem para mostrar não é bonito.

Este exemplo é bastante direto e simplificado. São poucos fornecedores e tudo aconteceu dentro da Inglaterra. Fora isso, ser transparente é mais fácil, e bom para o marketing, se a empresa se orgulha dos seus processos. O que pode não ser o caso quando sua cadeia de suprimentos é global e sua empresa tem pouco controle sobre ela, com possibilidade de mão de obra infantil, químicos sendo jogados em rios de comunidades e a confecção quinterizada para residências. É por isso que o blockchain talvez seja implementado de maneira privada num primeiro momento, como fez o Wallmart com a IBM, ou em empresas que tenham mais controle sobre seus processos. Porém, esconder as informações vai ficar cada vez mais difícil para as marcas. “A Louis Vuitton pagou para sua fábrica na Romênia não ser achada. Quer dizer, sério? Não há mais como esconder as coisas. As empresas vão ter que se render”, pondera Neliana.

Para ela, as empresas sentem que precisam estar 100% para serem transparentes, mas transparência é transparência e os processos deveriam ser compartilhados independente de como eles sejam feitos. O lado bom é que estamos entrando na era da transparência radical e tudo é sobre reputação de marca. Quando algumas marcas começam adotar determinadas condutadas, outras sentem que precisam alcança-las. Ninguém quer ser o “cara mau” ou o mentiroso, por isso as empresas vão cada vez mais limpar seus atos. “Transparência provavelmente não será uma tendência passageira e as marcas preocupadas com sua reputação irão se aproximar do consumidor por meio dela”, aposta ela. O blockchain está aqui (também) para isso.

É nesse momento que o blockchain se torna não só uma ferramenta de rastreabilidade, mas também um impulsionador para a sustentabilidade. Transparência per se não significa muita coisa – não basta sabermos em qual confecção o produto foi feito, precisamos saber em quais condições e quais são as políticas da empresa confeccionista. A partir do momento que as empresas têm suas cadeias rastreadas – e escancaradas -, implementar as condições de trabalho, políticas de meio ambiente e compartilhar cada vez mais detalhes sobre os fornecedores deve ser um passo natural. Transparência é sobre construir uma boa reputação, afinal.

 

Os principais desafios para o blockchain na moda hoje.

“Eu sinto que há duas histórias aqui: como blockchain é implementado nas cadeias de produção, antes do produto chegar à loja. Depois como isso será entregue para o consumidor é uma outra estratégia, incluindo como esse produto será rastreado de volta para a marca ou produtor”, explica Neliana. Em se tratando do primeiro ponto, principalmente em cadeias globais, há muitas marcas que não sabem a procedência de seus produtos e mão de obra, com uma visão muito limitada da sua própria cadeia de suprimentos. Soma-se a isso o fato de que a moda não é muito pró-tecnologia, ela vive ainda na era 2.0.

Podemos pressupor que marcas de sportswear como Nike e Adidas devem ser as primeiras a mergulhar na rastreabilidade e transparência via blockchain. Em fábricas onde os processos são totalmente automatizados, não é ir longe demais pensar que as informações podem ser inseridas direto da máquina de costura no sistema de blockchain sem intermediários. Além disso, essas duas empresas chegam a produzir elas mesmas algumas de suas matérias-primas – como o Flyleather da Nike e o Bionic Yarn para Adidas, o que torna o processo de rastreabilidade ainda mais viável.

Comunicar o blockchain com o público final, pouco ou nada familiarizado com o sistema é uma segunda questão. Neliana aponta o fato da população ocidental, diferente da asiática, não utilizar QR Codes e NCFs com frequência. “Foi uma tecnologia que ainda não pegou por aqui. Você vai à China, eles usam QR Codes pra tudo”, conta ela. Como fazer as pessoas sacarem seus celulares e lerem os códigos? Usabilidade é uma questão aqui e é um campo que precisa de muita atenção e pesquisa para garantir funcionalidade à tecnologia.

 

O futuro vai muito além da rastreabilidade.

A rastreabilidade da cadeia de suprimentos é o blockchain para um futuro próximo, mas o blockchain pode oferer muito mais. Para Neliana, o futuro dessa tecnologia na moda vem por meio do avanço nas próprias fibras e fios. Sensores no tecido podem permitir que a peça seja escaneda e voilá, todas as informações sobre ela aparecem na tela – e muito além da cadeia de suprimentos. “Essa tecnologia pode ajudar a logística reversa, encaminhando a peça que seria descartada de volta para o produtor. Com esse tipo de tecnologia podemos até saber quantas vezes a roupa foi lavada, questões de durablidade e por ai vai”, adianta ela.

E se você pensa que isso é muito futurista, pense de novo. Já existe uma start up americana unindo tecidos com um tipo de inteligência artifical para coletar dados das roupas – que são controlados pelos usuários das peças e podem ser vendidos por eles mesmos para marcas ou serviços de pesquisa. Com maior desenvolvimento do blockchain para além da cadeia de suprimentos, esse tipo de tecnologia pode ser também uma das ferramentas para o funcionamento de uma economia circular. Blockchain como rastreabilidade da cadeia é só o começo.

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  • Renata Freitas

    Que tecnologia incrível, eu tô simplesmente apaixoada e já esperando essa novidade chegar! Embora tenha ciência de que aqui no Brasil ainda deve demorar um pouco. Acredito que, assim como você disse, para as marcas que já tem um histórico de transparência com o consumidor vai ser uma mão na roda, mas para as fast fashions e as que produzem em maior escala e não jogam limpo com o consumidor haverá uma certa resistência.

    http://www.vestidinhojeans.com