Couro de Laboratório é Exposto no MoMa e Deve Chegar às Passarelas em 2018

Material é criado em laboratório sem ingredientes de origem animal de maneira ecoeficiente, unido às necessidades do design e livre de crueldade.

 

Couro nunca será sustentável. Ponto. Por mais que a indústria esteja tentando limpar sua imagem, transformar algo de rápida putrefação em um artigo durável sempre foi e ainda é um negócio sujo. Pense em cromo, arsênico e metais que não podem ser totalmente neutralizados. Eles fazem parte do processo de curtimento e, quando o processo é menos impactante sem o uso de metais no processo, o custo final do produto sobe de 20% a 25%. O grupo de luxo Kering é o mais conhecido por ter adotado esse processo e assumido os custos, porém não é uma prática amplamente difundida.

Soma-se aos impactos do curtimento os impactos da criação de animais para abate: uso de terra para pasto e cultivo de cereais para ração (olá, desmatamento), poluição pelos desejetos, uso intensivo de água, emissão de gás metano, entre outros impactos ambientais insustentáveis. A equação faz o custo ambiental do couro ir às alturas. Não à toa, ele é considerado a matéria-prima mais impactante de todas as matérias-primas amplamente utilizadas na moda. [1] E esqueça toda aquela história de que “couro é subproduto da indústria alimentícia”. Gelatina é um subproduto da indústira alimentícia. Couro é um negócio global com valores estimados em mais de 100 bilhões de dólares ao ano. O couro vale tanto que marcas de luxo estão investindo em suas próprias fazendas para garantir sua grossa fatia de leather goods num mundo onde a criação de animais para abate está cada vez mais complicada.

A relação do ser humano com outros animais também está mudando. Ética e moral estão começando a pesar nessa balança e cada vez mais pessoas sentem que usar peles de animais nos seus corpos é totalmente incoerente com o século XXI. Ainda temos um longo caminho para percorrer nessa questão, mas quem está atento ao futuro já está se preparando para ele. Como Vikram Kansara destaca em seu artigo sobre o tema para o Business of Fashion, “o couro é único por sua força e elasticidade, sem contar sua ligação com arquetipos culturais poderosos de cowboys e aviadores a motoqueiros e roqueiros. Ainda assim, criar e matar bilhões de animais que alimentam a indústria do couro anualmente é ineficiente, cruel e vem acompanhado de um imenso impacto ambiental”.

Publicidade

 

O couro do futuro é sustentável de verdade. E livre de crueldade.

Nós já temos sintéticos. Muito dos produtos alternativos ao couro, e que se parecem com couro, são feitos a partir de um polímero plástico chamado poliuretano ou PU. Apesar de ser plástico, o PU tem uma vantagem que poucos sabem: ele é mais sustentável por consumir menos químicos, água e energia no seu processo de produção. O material sintético representa apenas 1/3 do impacto ambiental do material de origem animal. [2] Mas é claro, a não ser que o PU entre em um ciclo fechado de produção, sem necessidade de extração de matéria-prima virgem, a partir de PU reciclado ou PET reciclado, ou seja produzido a partir de biomassa (duas alternativas já existente no mercado internacional e que devem chegar aqui nos próximos anos), ele está longe de ser ideal. Petróleo também é um negócio sujo.

Por isso, há espaço para a tecnologia fazer sua parte quando o assunto é moda, ética, inovação e sustentabilidade. A indústria têxtil não experimenta nenhuma revolução considerável em tecidos talvez desde o lançamento do elastano. Nos últimos anos, porém, cientistas, times de design e profissionais voltados para biotecnologia estão dentro de laboratórios pensando em soluções para o futuro, inclusive, dos têxteis. A seda de aranha sintética já é uma realidade cada vez mais perto de chegar ao mercado em grande escala. A partir de um processo semelhante de fermentação e livre de colágeno, o “couro” de laboratório está chegando ao mercado.

 

A peça que faz parte da exposição “Items: Is Fashion Modern?” no MoMa é construída com couro de laboratório, de uma maneira que o couro de animais jamais possibilitou fazer antes.

 

Modern Meadow é a start-up americana de biotecnologia por trás da inovação. Desde 2011 eles estão trabalhando em “produtos animais sem os animais”; majoritariamente comida e tecidos. Pelo potencial da indústria do couro, eles deixaram a alimentação de lado para focar em criar um concorrente à altura. Depois de 6 anos e mais de 50 milhões de dólares recebidos em investimentos, a empresa tem dois contratos de colaborações (ainda secretos) já assinados, um grupo de luxo como parceiro de inovação e uma lista de interessados no produto, principalmente marcas high end e sportswear. “Eu comecei a receber diversas ligações de grandes compradores de couro dizendo sobre suas dificuldades com a cadeia de suprimentos, com as falhas no material, com os preços voláteis”, disse Andras Forgacs, co-fundador e chefe executivo da Modern Meadow, ao Business of Fashion.

Essa tecnologia possibilita criar materiais de uma forma completamente nova. Textura, peso, força, maleabilidade, respirabilidade – tudo isso são possibilidades criativas que não tínhamos antes. Seja relacionado com performance ou estética, essas coisas são super estimulantes porque trazem versatilidade ao design.

A cadeia de suprimentos do couro é uma das mais complicadas de rastrear. Pergunte a qualquer pessoa honesta trabalhando na indústria e ela te dirá sobre a impossibilidade de saber ao certo a origem do material antes do curtume, um problema para as marcas preocupadas com rastreabilidade e transparência, ou seja, todas que querem se manter relevantes num futuro próximo. Nas fazendas, além de maus tratos aos animais, a violação de direitos humanos também é recorrente. Além disso, a forma irregular da pele e marcas de picadas de insetos como carrapatos, fazem com que cerca de 20% a 30% do material seja descartado, um problema de sustentabilidade e economia. Segundo Forgacs, com o “couro” de laboratório, a forma do material é precisa, a qualidade controlada e os preços regulares.

Outra vantagem competitiva é a possibilidade de fazer “couros” exclusivos. Assim como casas de luxo têm seus couros característicos, junto com a Modern Meadow elas podem desenvolver algo totalmente diferente e seu. Para Forgacs, são marcas que estão preocupadas com design, performance, diferenciação e inovação – o que torna o “couro” da Meadow um aliado perfeito. “Essa tecnologia possibilita criar materiais de uma forma completamente nova. Textura, peso, força, maleabilidade, respirabilidade – tudo isso são possibilidades criativas que não tínhamos antes. Seja relacionado com performance ou estética, essas coisas são super estimulantes porque trazem versatilidade ao design”, disse Suzane Lee, chefe de criação da start-up com 15 anos de experiência na moda. De coturnos pesadas a plissados leves, o “couro” de laboratório pode fazer qualquer coisa.

 

Um olho no microscópio, outro no mercado.

Os produtos da Modern Meadow chegarão ao mercado com o custo do couro de luxo, o que os torna competitivos, mas incapazes de, pelo preço, competir com o produto de massa. Pelo menos no começo. É por isso também que a empresa está focada em suas relações com designers e grandes estilistas no momento.

Apresentando ao público pela primeira vez como parte da exposição “Items: Is Fashion Modern?” no Museum of Modern Art em Nova York, o item escolhido para exibição foi uma reinterpretação da tradicional camiseta branca. Ao aplicar o “couro” biofabricado de uma forma que não era anteriormente possível com o couro tradicional, como criar uma costura-sem-costura por meio do “couro” líquido, a empresa quer provocar novos pensamentos sobre o potencial do design oferecido com essas novas técnicas de fabricação. “Avançamos nossa tecnologia ao ponto em que estamos criando materiais adaptados a aplicações específicas. Com este anúncio, estamos entusiasmados em trazer a produção de biofabricação para os consumidores em escala”, disse Forgacs em um comunicado à imprensa.

 

Amostras do Zoa, o primeiro couro de laboratório do mercado.

 

Junto com a exposição, a empresa também lança sua marca de couros biofabricados, Zoa. Em uma loja pop-up no Soho, em Nova York, interessados poderão ver de perto o produto e trocar sobre seus desejos e interesses com a empresa. A Modern Meadow deve abrir outras linhas de comunicação com clientes, mas adianta que o foco é manter um formato B2B2C.

Diante de tamanha tecnologia unida à funcionalidade, múltiplas possibilidades e sustentabilidade, o couro de origem animal parece coisa da idade média.

Gostou dessa matéria? Compartilhe.
Tags

. . .