Deborah Babilônia, Vocalista do Deb and The Mentals, Fala Sobre Ser Mulher no Rock

Com novo álbum, Deborah Babilônia segue conquistando seu espaço numa cena completamente masculina // Reprodução
 

As vozes de mulheres cansadas de machismo e patriarcalismo começaram a ser ouvidas com mais destaque no fim da década de 80, nos Estados Unidos, quando o movimento Riot Grrrl trouxe a tona vocais femininos e sons pesados de bandas de hardcore, punk rock e grunge. Bandas compostas somente por mulheres, como Bikini Kill, Bratmobile, L7, Dickless e figuras importantes como Courtney Love, alçaram discussões de causas feministas, minorias injustiçadas e liberdade utilizando suas vozes junto a instrumentos até então entendidos como pouco femininos como baixo, guitarra e bateria em um ambiente totalmente ocupado por homens.

A cena Riot Grrrl também se propagou no Brasil, no final da década de 90, com bandas importantes do cenário underground como Bulimia, Dominatrix, Menstruação Anárquika, Anti-corpos e Suffragettes – estas duas últimas também abordam o vegetarianismo, dando espaço para discussão sobre exploração animal e preservação ambiental. O movimento Riot Grrrl foi se apagando, mas as mulheres no rock continuam resistindo. Diversos festivais de rock independente são realizados no Brasil e no mundo, como o LadyFest, que teve sua 4ª edição em 2013. Mas ainda ouvimos falar pouco sobre bandas de mulheres no rock e, com exceção da Pitty, é difícil encontrar um nome feminino que seja bastante conhecido no rock brasileiro hoje. O que impediu e impede as vozes de diversas mulheres chegarem à mídia e se manterem ali?

Para entender melhor sobre o cenário atual do rock feminino independente no Brasil, conversamos com Deborah Babilônia, vocalista da Deb and The Mentals, banda formada em 2014, composta também pelo guitarrista Guilherme Hypolito, o baterista Giuliano Di Martino e o baixista Stanislaw Tchaick. Com músicas em inglês, a banda mescla sons do punk rock e new wave e recentemente lançou Mess, primeiro álbum da banda. Deborah começou a cantar aos 15 anos, com uma banda cover de Courtney Love, e aos 17 já escrevia canções próprias. De Brasília, ela chegou a se apresentar em eventos lá antes de se mudar para São Paulo, começar do zero e viver da música. De lá pra cá, ela se apresentou com outras bandas, até conhecer o produtor Capilé, amigo e “quinto integrante” do Deb and The Mentals. Em 2015, a banda lançou seu primeiro EP, Feel the Mantra.

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A MULHER NO ROCK INDEPENDENTE

Nesse tempo de estrada, Deb já conseguiu sentir na pele como a cena brasileira de rock ainda é muito masculina, apesar do crescente número de bandas com vocal feminino ou bandas totalmente compostas por mulheres. “Eu conheço muitas meninas que tocam, acho que a gente não tem muito espaço mesmo. No meio que eu estou, eu lido muito com os meninos, né? Eu sinto que eles não sabem muito como lidar comigo, o espaço sempre foi muito deles”, explica Deborah. Não foram poucas as vezes que o machismo se fez presente. Quando veio para São Paulo, a cantora lembra particularmente quando um músico questionou se sua voz era forte o suficiente para cantar em uma banda de rock. Quem já andou nesse meio antes sabe não ser raro ver as mulheres músicas sendo colocadas em outra categoria, a categoria ‘feminina’ que está sempre um degrau abaixo do topo ocupado por homens.

Para essas mulheres que sobem ao palco há também toda a questão da exposição e da sexualização de seus corpos. “Estava no meio de um show quando um dos caras gritou para mim: ‘o que você tá fazendo aí? Tira a roupa, fica só de sutiã!’. Ele gritou achando que não ia ser identificado, mas quando eu vi, fiquei encarando, desci do palco, fui até ele e fiquei cantando na frente dele. Ele ficou sem reação, não soube o que fazer”, relembra Deb. A figura da mulher sendo mais comentada do que a música que ela canta é uma constante e muitas vezes é mais comum ouvir comentários sobre o corpo, a roupa e a aparência da mulher no palco do que sobre seu talento ou sobre a música que ela faz.
 


Deborah em apresentação com o Deb and The Mentals // Reprodução
 

Essa sexualização vem acompanhada de uma cobrança para que a mulher seja mais sexy. “Eu vejo uma cobrança das pessoas acharem que, por você ser mulher, ou ser artista, cantando, você tenha que estar mais sensual”, relata. Em uma apresentação recente no Sim São Paulo, Deborah lembra que optou por uma blusa preta grande, coturno, calça preta e maquiagem mais pesada, “mas teve um amigo meu que falou ‘poxa, Deborah, logo hoje você vai tocar toda fechadona?’ E eu falei ‘como assim fechadona?’ e ele ‘pô, porque você não coloca uma roupa mais massa, uma saia?’”.

VAI TER MULHER SIM

Para uma mulher sair dos moldes de comportamento social esperados pela sociedade patriarcal e cavar o seu lugar em um meio tão masculino é preciso de uma dose de coragem. Deborah reflete que inicialmente não pensava nisso: “Nem me veio à cabeça, não imaginava o que eu ia passar, isso eu fui aprendendo no caminho, né? Mas eu acho que coragem, […] não desistir por medo de alguma crítica ou por você ser mulher, ou por você estar no meio de muitos homens, não se deixe intimidar”. Atualmente, ela vê uma presença maior de mulheres em festivais, tanto integrantes de banda, como aquelas que ficam nas primeiras filas do seu show. Deborah acredita que a abertura para mulheres no meio do rock está crescendo, mesmo que ainda seja em passos de formiga. Graças a discussões feministas, tem se falado mais da mulher em ambientes não-tradicionais, aumentando também o interesse e procura por festivais do gênero. “Acho que as mulheres também estão perdendo o medo de ocupar esse lugar”, conta ela.

Independente ou mainstream, quando olhamos para um line-up de festival de música, as mulheres aparecem em drástica minoria, mas esse debate está acontecendo também nos bastidores. Deborah comenta que recentemente participou de um festival que houve briga por mulheres no line-up. Mesmo que muito ainda precise mudar, ela conta que não via esse tipo de coisa acontecendo há uns anos. “Eu acho legal porque as pessoas estão o tempo todo cobrando: ‘como assim, não vai ter atração feminina? Cadê?’. Então, a gente está conquistando espaço, eu tô bem positiva em relação a isso”, afirma. Com novas ferramentas para deslanchar, um público mais aberto e consciente e a voz feminina cada vez mais encorajada a falar o que pensa, segurar essas mulheres não será possível.

 
Clipe da faixa Mess, do álbum com o mesmo título // Reprodução
 

Quanto a Deb and the Mentals, o foco atualmente da banda é divulgar seu novo CD Mess em shows pelo Brasil. Deborah afirma que algumas músicas estão sendo criadas no meio dos ensaios e que a previsão é que um single saia por aí. Deb and the Mentals toca no Festival Oxigênio, em São Paulo, dia 27 de agosto.

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