Ecofeminismo, Novas Perspectivas e Desafios Para o Feminismo Animalista

“Ecofeminismo: Mulheres e Natureza” é um série de artigos que busca discutir a importância da conexão das mulheres com os seres não-humanos e o meio-ambiente. A série tem como objetivo abordar as questões éticas e morais, além das questões culturais, sociais e econômicas relacionadas ao feminismo, veganismo e ecologia.

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Nos últimos textos compartilhamos, nós falamos um pouco sobre as conexões empíricas e filosóficas das mulheres, animais e natureza. Trouxemos a atenção para a análise de Carol J. Adams sobre a dificuldade de avanço do feminismo-vegetariano (que vamos substitur aqui pelo termo contemporâneo feminismo animalista) e aqui vamos falar sobre como esse movimento pode ganhar força através do ecofeminismo. Talvez por esse último não ir diretamente contra uma cultura alimentar instalada e altamente emocional, tem tido relativamente mais sucesso em ser ouvido ao levantar críticas e propor soluções para as diversas maneiras de opressão patriarcal e generificada sobre a natureza e o meio-ambiente desde 1970.

Antes de qualquer coisa, é importante relembrar o significado de ecofeminismo. O conceito mais amplamente difundido é “a posição de que há importantes conexões entre como se tratam mulheres, pessoas não-brancas e a subclasse, de um lado, e como se trata o ambiente natural não humano, de outro” [1]. Ecofeministas contemporâneas, como Kathy Gibson e Julie Grahan, fazem uso do desconstrucionismo de Judith Butler para sublinhar uma nova ética econômica feminista na qual gênero é inexoravelmente parte da mudança ambiental.

A importância do gênero no movimento ambiental pode ser não só analisada na teoria como também vista na prática. Como as autoras enfatizam, “as ciências sociais quantitativas produziram evidências de que as emissões de gases de efeito estufa por habitante são menores em nações onde as mulheres têm um status político mais alto” e “nações com maiores proporções de mulheres no Parlamento têm mais chances de ratificar tratados ambientais do que outras nações”. [2] Do outro lado, são as mulheres que mais sofrem com a devastação ambiental e com as mudanças climáticas.

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Quando falamos de mulheres, animais e natureza, porém, é preciso cautela e atenção para não acusar o ativismo ambiental e animalista de “emocional”. Quando Rachel Carson, bióloga e uma das percursoras do ecofeminismo, argumentou contra os pesticidas sintéticos DDT em 1962, fazendo o então atual presidente americano John Kennedy investigar os riscos dos pesticidas, ela foi falaciosamente acusada de “escrever em tom emocional em vez de aderir aos métodos científicos”. Colocar o trabalho das mulheres em uma caixa e taxá-lo de não profissional o suficiente, chamando-o de emocional, tem como única intenção descredibilizar, ou atrasar, seus resultados. [3] Em 1972 e 10 anos depois, o DDT foi banido nos EUA.

Isso prova não só que é preciso paciência, claro, mas que acima de tudo precisamos de mais mulheres nos campos da medicina, ciência e biologia para debater (e lutar contra) com mais eficácia e conhecimento o domínio masculino que nos entrega apenas conhecimentos e soluções precárias e generificadas.

Atividades ecofeministas e feministas animalistas são, muitas vezes, não só julgadas como “emocionais” como também excludentes por quem julga ambos os movimentos como movimentos elitistas, quando não oposto aos movimentos de igualdade de raça ou classe. Sem dúvidas, além do gênero, recortes de classe e raça precisam ser feitos com especial atenção às questões de justiça ambiental, que devem ser consideradas em qualquer discurso ecofeminista animalista, o que já tem sido feito por diversas feministas. [4]

Uma sociedade sustentável igualitária precisaria ser não generificada

Porém, ao considerarmos que os impactos de um meio-ambiente (dominado pela figura masculina branca) em desequilíbrio atingem primeiro as classes mais pobres, representadas no Brasil majoritariamente pelos negros, mulheres e indígenas, e ao mesmo tempo olharmos para os grandes causadores das mudanças climáticas, além da devastação de florestas e contaminação de águas, fica claro a impossibilidade de desvencilhar o ecofeminismo animalista das lutas por justiça social.

Nós, feministas, devemos questionar e problematizar todos os sistema de diferença responsáveis pelas diversas formas de opressão atuais. Uma análise mais profunda do movimento feminista se faz necessária quando desejamos quebrar paradigmas e romper com as estruturas atuais de poder, e precisamos fazer isso com um olhar aberto, curioso e intersecional. Num mundo em total desequilíbrio onde presenciamos desastres ameaçadores à nossa existência, o ecofeminismo é um desafio necessário à lógica moderna do movimento.

Em paralelo, para promover igualdade de seres e acabar com o especismo, partindo do princípio que enquanto a dominação atingir um ela atingirá a todos, a teoria feminista animalista moderna precisa se desenvolver de maneira mais articulada e abrangente, entendendo e fazendo bom uso dos escritos que existem há mais de um século antes dos primeiros passos do ecofeminismo. Nós precisamos entender a base da nossa cultura alimentar, e como ela impacta no meio ambiente e nas minorias sociais, para poder acender uma nova luz dentro e fora do movimento feminista.

Notas de rodapé:

[1] Raewyn Connel e Rebecca Pearse – “Gênero: Uma Perspectiva Global”, pág 224.
[2] Raewyn Connel e Rebecca Pearse – “Gênero: Uma Perspectiva Global”, pág 225.
[3] Raewyn Connel e Rebecca Pearse – “Gênero: Uma Perspectiva Global”, pág 246.
[4] Indicação de autoras internacionais: https://aphro-ism.com/, http://www.sistahvegan.com/ e nacionais: Daniela Ronsendo.

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