Espiritualidade Ecofeminista: Empoderamento e Não-Violência

Como vimos ao longo da série, precisamos pensar os ecofeminismos em sua pluralidade de expressões pois, da mesma forma como não existe uma única corrente feminista, não há tampouco um único ecofeminismo. Tendo isso em vista, a filósofa Karen J. Warren identifica na literatura ecofeminista várias interconexões entre mulheres e natureza, sendo uma delas a espiritual, para a qual as espiritualidades e os símbolos feministas são essenciais para o ecofeminismo.[1] Por esse motivo, essa corrente é entendida como essencialista e, embora lhe sejam dirigidas críticas, Warren defende que a espiritualidade ocupa um lugar importante no ecofeminismo.

A crítica geralmente se direciona ao fato de que a espiritualidade é algo relacionado com a religião ou a teologia, portanto algo pessoal e da esfera privada, isto é, fora do âmbito da política.[2] Ainda que concorde parcialmente com essa crítica ao essencialismo, Waren defende que as espiritualidades ecofeministas devem ser levadas em consideração por alguns motivos. Primeiro, porque historicamente as espiritualidades desempenharam um papel importante no desenvolvimento político ecofeminista. O movimento Chipko na Índia, por exemplo, fundamentava-se em concepções tradicionais baseadas na espiritualidade mas teve impactos políticos, socioeconômicos e ambientais na preservação das florestas. Do ponto de vista ético, as espiritualidades ecofeministas consideram questões importantes sobre a relevância de sistemas simbólicos e valores e, conceitualmente, levantam questões importantes sobre a conexão e as experiências concretas entre as mulheres e a natureza.[3]

Além disso, para Warren, a perspectiva espiritualista requer que teóricas ecofeministas que não pertencem a grupos oprimidos se comprometam com cuidado e humildade metodológica ao criticar as praticantes espirituais que são integrantes de grupo oprimidos.[4] Ou seja, novamente percebemos a necessidade de pensar as mulheres não como um sujeito abstrato e “desinteressado”, quando na verdade os feminismos criticam justamente isso: somos seres relacionais e contextualizados. Ignorar que muitas mulheres incorporam visões espiritualistas de mundo poderia incorrer no erro que criticamos. A ética sensível ao cuidado pode nos dar pistas de como lidar com essas diferenças.

Warren entende que os mitos, rituais, símbolos, linguagem e sistemas de valor das espiritualidades ecofeministas têm um compromisso com a eliminação do privilégio e poder dos “de cima” sobre os “de baixo” (homem/mulher, por exemplo) e, portanto, devem ser reconhecidos também como feministas, na medida em que se comprometem com a abolição do sexismo. São também práticas ecofeministas, a partir do momento no qual expressam compromisso em desafiar as conexões preconceituosas entre mulheres e natureza, em favor de práticas sensíveis ao cuidado. Nesse sentido, suas práticas são contrárias à manutenção dos “ismos” de dominação, ou seja, além de a prática da espiritualidade ecofeminista não ser simplesmente uma prática individual ou privada, ela tem um contexto público e político.[5]

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A partir daí, Warren caminha para um concepção de espiritualidade não transcendental, que se remete ao poder, ao empoderamento e à não violência, tendo em vista que, para ela, o poder não é intrinsecamente positivo ou negativo, mas em contextos de opressão, como no machismo, o poder é usado ilegitimamente.[6] Novamente exemplificando a partir do movimento Chipko, a espiritualidade aparece como alternativa à violência.[7]

Cuidar de si ou dos outros “envolve ousar ver nossos pontos em comum com ‘o outro’ que é diferente de nós”

A ética sensível ao cuidado, que traz para o campo da ética a necessidade de considerar moralmente valores como o cuidado e a empatia, para além da razão e das decisões imparciais, abarca um certo componente espiritual na capacidade para o cuidado, para além do componente cognitivo. Nesse sentido, cuidar de si ou dos outros “envolve ousar ver nossos pontos em comum com ‘o outro’ que é diferente de nós”.[8]

Essa noção de espiritualidade pode agir em contextos de opressão machista, entendido como um sistema social insalubre, pois é um sistema de dominação e subordinação no qual os “de baixo” têm dificuldade de ter suas necessidades básicas supridas.[9] Para romper com um sistema insalubre, Warren sugere que, além de uma intervenção política, econômica e social, as espiritualidades ecofeministas têm o poder de ajudar a curar as feridas do machismo. Isso ocorre por meio de estratégias de sobrevivência e empoderamento no presente machista, pré-feminista. Essa cura envolve um movimento espiritual que esteja distante de comunidades baseadas em sistemas de dominação.[10]

Afinal, talvez seja possível compreender as espiritualidades ecofeministas para além da espiritualidade transcendental, relacionada a alguma religião ou a uma concepção essencialista mas à questões históricas, políticas e éticas, na qual o empoderamento das mulheres e a não violência são fundamentais. Assim, esse cuidado ao qual Warren se refere pode ser visto em uma acepção política, de cuidado com a “saúde” das instituições, que, “adoecidas”, oprimem. O cuidado têm o potencial de desnaturalizar a opressão e sair da esfera do cuidado somente de si, para o cuidado do outro e das instituições, isto é, o cuidado político com as práticas institucionalizadas.

Notas de rodapé:

[1] WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy: A Western Perspective on What It Is and Why It Matters. Rowman & Littlefield Publishers, 2000, p. 31.
[2] WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy, p. 193-194.
[3] WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy, p. 194.
[4] WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy, p. 194.
[5] WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy, p. 198.
[6] WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy, p. 199.
[7] WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy, p. 201.
[8] WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy, p. 203.
[9] WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy, p. 206.
[10] WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy, p. 211-212.

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