Frida Kahlo Para Além Da Fridomanía: Entre A Artista E O Mito

Entre 03 de setembro e 20 de novembro deste ano, o Museu da Imagem e do Som (MIS) traz ao Brasil a exposição Frida Kahlo – Sua Fotos e Frida Kahlo – Suas Fotos | Olhares Sobre O México. É com este pretexto que vamos falar um pouco sobre a artista e os mitos que se cristalizaram em volta dela, usando como principal referência o livro de Patrícia Mayayo, Frida Kahlo Contra El Mito, com ênfase no primeiro capítulo.

Frida Kalho é uma artista bem conhecida do grande público, ou pelo menos é o que parece. Sua fama, entretanto, não significa necessariamente um profundo conhecimento de sua produção. Este paradoxo é comum quando pensamos nos mitos confeccionados pela história da arte como Van Gogh, Picasso, Rembrandt, Leonardo da Vinci e tantos outros. Por outro lado, é incomum um mito tal como os citados acima ser protagonizado por uma mulher visto que a relação das mulheres com a arte, e principalmente com história da arte, é muito conflituosa [1].

O auge da valorização de Frida Kahlo ocorreu no início da década de 1990 com destaque para a exposição Latin American Artists of the Twentieth Century, no MOMA ocorrida em 1993, na qual a artista teve uma sala inteira dedica à sua produção. Além do filme de Julie Taymor, Frida, sobre a vida da artista, lançado em 2002. Frida também inspirou (e continua inspirando) coleções de moda, páginas de fãs na internet e sua “marca” é vendida como souvenir. Este fenômeno é nomeado por Mayayo como “Fridomanía”.

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Cartaz do filme Frida de Julie Taymor

Se de um lado essa valorização é positiva, de outro ela pode ser prejudicial para o total entendimento do trabalho da artista, pois a obra sai de foco e passamos a enxergar só a vida. Frequentemente a produção de Frida é vista como um mero reflexo de sua existência, resultando em uma interpretação limitada e despolitizada do seu legado. Não se trata de negar a faceta autobiográfica de sua produção, mas sim perceber que este é um dentre vários aspectos de sua obra. É preciso inserir a artista nos debates de seu tempo.

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A vida de Frida (1907-1954) foi repleta de acontecimentos que potencializam este tipo de interpretação acrítica. Aos 18 anos ela sofreu um grave acidente de ônibus que resultou em sequelas, cirurgias, a amputação de uma perna e sua morte prematura, aos 47 anos. Outro aspecto de sua vida sempre lembrado é o seu conturbado relacionamento com o também pintor Diego Rivera. Esta conjuntura de dor e paixão reforça uma interpretação não só autobiográfica como terapêutica da produção de Kahlo. Em última análise, de acordo com esta interpretação, o objetivo final da artista não era o reconhecimento artístico, mas lidar com sofrimento físico e psíquico.

Uma interpretação focada na vida, especificamente de uma artista mulher, tem repercussões de gênero. O termo “arte feminina”, cunhado já no século XIX, é usado para olhar a produção de mulheres como um caso à parte, mantendo-as fora da Arte com ‘a’ maiúsculo. Este termo inclui características como temas íntimos e o amadorismo. Desta maneira, apesar dos estudos de gênero, como de Linda Nochlin, terem possibilitado a valorização de Frida, a leitura superficial acaba por reforçar aspectos que esta mesma literatura vem, com muito esforço, tentando desnaturalizar.

Para fazer um contraponto utilizaremos o próprio objeto da exposição do MIS, as imagens fotográficas. A fotografia tem um papel essencial na construção da lenda de um artista. Frida era filha de fotógrafo e tinha consciência do potencial fotográfico para a construção de uma imagem pública. As fotografias de Frida são posadas. E não para quaisquer fotógrafos, mas para fotógrafos proeminentes. Em algumas destas fotografias, Frida aparece em dobro, pois é fotografada junto com um de seus autorretratos e vestida de maneira semelhante ao da imagem pintada. Este caráter programático demostra que ela não pintava de forma alheia, apenas como meio de suportar o sofrimento, mas tinha claras intenções em suas ações.

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Luciene Bloch, Frida Kahlo, 1933, Nova York e Frida Kalho, Autorretrato com colar, 1933

Outra faceta de seus mitos é sua singularidade exótica, onde podemos perceber um alinhamento com as práticas surrealistas. Um exemplo da conexão de Frida com o surrealismo foi a exposição organizada em 1939 por Andre Breton (um dos principais artistas do movimento surrealista) intitulada “Mexique”. A princípio, seria uma mostra individual de Kahlo, entretanto converte-se em uma homenagem à criatividade mexicana. As pinturas da artista são expostas ao lado de pinturas do período colonial, e de objetos de arte popular. Esta fusão entre a produção da artista e diversos outros elementos da cultura mexicana demostra a ambiguidade da relação entre as mulheres e o movimento surrealista, da qual Frida não é exceção.

O Surrealismo conta com a participação de muitas mulheres, e valoriza uma certa noção de feminilidade. Entretanto, a recuperação delas enquanto artistas é muito recente. Antes elas eram conhecidas apenas como musas e companheiras de artistas homens. A valorização da feminilidade também é paradoxal na medida que reforça noções tradicionais como a aproximação da mulher com a natureza.

É exatamente este paradoxo que está em jogo na exposição de Breton. Frida dialoga com um importante movimento artístico de seu tempo, ao mesmo tempo em que é vista por este como um objeto, e não um agente da mexicanidade. A valorização da mexicanidade, tanto dentro do México, quanto dentro das vanguardas europeias faz parte de um conceito mais amplo da arte moderna intitulado de primitivismo.

O primitivismo tem como princípio a valorização do “outro” (não-europeu) que se inicia como uma reação de artistas europeus contra a sociedade burguesa na qual eles estão incluídos. Dentro desta lógica a mulher estaria mais próxima da natureza e, portanto, do primitivo. Assim Frida, enquanto mulher mexicana é duplamente o “outro” para os surrealistas, e por isso valorizada como fonte, mas não entendida como sujeito.

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Frida Kahlo, Autorretrato com Macacos, 1943 e Frida Kahlo en una Banca (1939), Nickolas Murray

Com esses exemplos bastante emblemáticos, fica claro o quanto é essencial pensarmos em Frida para além da sua vida. Fica claro que o exotismo de Frida é proposital, pensado e alinhado com certas ideias de seu tempo. Ao se vestir, posar para fotografias, e se autorretratar com trajes tehuanos (vestimenta inspirada na cultura ameríndia, criada durante o período da revolução mexicana com a intenção de ser um símbolo da mexicanidade) ela está se posicionando politicamente. Algo muito distinto do que viver, e pintar apenas em função de suas dores e amores.

Notas de rodapé:

[1] Esta relação conflituosa começou a ser pensada na década de 1970 principalmente por autoras norte-americanas. Em Why Have There Been No Great Women Artists?, de Linda Nochlin publicado originalmente de 1971, a autora problematiza entre outras questões, os motivos que levaram ao desconhecimento, obscurecimento, esquecimento e apagamento de mulheres artistas ao longo do tempo na história da arte. Ao longo das quatro décadas seguintes muitas pesquisas caminharam nesta direção. É importante então frisar que antes dessa discussão entre gênero e arte, a singularidade de um mito protagonizado por uma mulher, como Frida, é improvável.

Bibliografia:

• Nochlin, Linda. “Why have there been no great women artists?.” The feminism and visual culture reader (1971): 229-233.
• Mayayo, Patricia. Frida Kahlo: contra el mito. Catedra Ediciones, 2008.
• Parker, Rozsika, and Griselda Pollock. Old mistresses: Women, art and ideology. IB Tauris, 2013.

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Imagens: Reprodução

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