Mulheres Inspirando (e Apoiando) Mulheres: Esse é o Objetivo do Ladies, Wine and Design

Não tem palavra melhor para descrever a atmosfera de um encontro do Ladies, Wine & a bit of Design do que empoderamento feminino. A iniciativa para promover a criatividade das mulheres e mostrar o poder que elas têm quando o assunto é trabalho bem feito chegou a Belo Horizonte com muita energia. Na edição em terras mineiras estavam presentes MULHERES – assim, não só com M maiúsculo, mas com tudo em caixa alta, como a voz que todas elas querem ter. E têm. No design, na publicidade, na tecnologia. Na profissão. Na vida.

Tudo começou com uma mulher desejando ver as próprias mulheres servindo de inspiração para outras mulheres alcançarem a liderança dentro do mercado de criatividade, nos negócios ou em qualquer outro lugar que quisessem. Foi assim que a designer e ilustradora americana Jessica Walsh teve a ideia de criar o Ladies, Wine & a bit of Design em Nova York em 2016. O resultado desse projeto incrível? Em menos de um ano, a força do LW&D se espalhou por mais de 130 cidades em todo o mundo, em noites regadas a tópicos inovadores, experiências e, claro, um bom vinho. 

A pergunta-chave responsável por fazer Walsh dar início ao movimento foi “por que existem tão poucas mulheres líderes na indústria criativa?”. Pensando que uma mulher é capaz de inspirar as outras com seu talento e determinação, ela concluiu que conectar todas elas era a melhor estratégia para promover e potencializar o poder feminino, equilibrando esse cenário desfavorável para elas. Nos encontros do Ladies, Wine & a bit of Design tudo pode ser pauta, mas conversas criativas, mentoria profissional e orientação sobre portfólios são os principais tópicos das reuniões. 

 


 

Persistência e curiosidade: armas poderosas para o desafio de ser mulher

O lema de Jessica é trabalhar, ser persistente, estar sempre curiosa e se desafiar, sem deixar de lado a diversão de aproveitar ao máximo o que se faz com paixão, contagiando todos ao redor. Por acreditar que tem nas mãos o poder de transformar, a designer se vê em uma realidade no seu dia a dia profissional não condizente com o cenário no qual as mulheres merecem estar. Como conta em um de seus relatos para outro de seus projetos experimentais feitos para abrir corações, olhos e mentes – o “12 Kinds of Kindness” (“12 Tipos de Gentilezas”) – o mercado de design ainda é assustadoramente sexista, com homens e mulheres que julgam por gênero e aparência, ao invés de valorizar o talento.

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Cabe aqui destacar o que ela mesma ressalta: apenas 3% das mulheres na indústria criativa são diretoras ou ocupam cargos de liderança, sendo que 80% do público responsável pelo consumo é feminino e no restante das indústrias apenas 5% dos CEOs são mulheres. No Brasil, apenas 20% da criação das agências são mulheres, com menos de 6% ocupando cargos de liderança. Isso só reafirma a resistência de um mercado dito “aberto e moderno” às mudanças sociais contemporâneas e à diversidade, o que leva, naturalmente, à reprodução de estereótipos arcaicos e machistas. Semelhanças com a indústria da moda não são mera coicidência. 

Desde a Revolução Industrial, o design tem sido um belo exemplo de clube do bolinha, ofuscando as poucas mulheres bem-sucedidas do meio, com algumas exceções que merecem destaque, como Muriel Cooper. Ela foi uma das pioneiras do design digital nos anos 70, conhecida como revolucionária por inventar seu próprio método de trabalho. Não só por isso foi chamada pelo The New York Times como “a heroína que talvez você nunca tenha ouvido falar”, porque além de quebrar barreiras profissionais num ambiente dominado por homens, inspirou dezenas de designers, deixando a nossa vida digital hoje muito mais fácil, com imagens mais nítidas nas telas dos computadores e maior interatividade. Ou seja, a mulher que “botou o pé na mesa” para mostrar a que veio.

Para Jessica Walsh, esse tipo de mentalidade está sendo responsável por fortalecer as mulheres até hoje, que não devem mais se deixar intimidar por críticas preconceituosas e misóginas. Muito menos ignorá-las. Aí que reside a força da inspiração, da luta, do sucesso.

 

Mulheres e tecnologia de mãos dadas: caminhando na mesma direção

 
Com seu talento e suas ideias inovadoras, Walsh segue inspirando muitas mulheres pelos quatro cantos do planeta a se unirem a favor da própria desconstrução, do empoderamento, da incrível capacidade de compartilhar e de se ajudar. De se conectarem pelo sentimento de sororidade, passando a se enxergar como parceiras, não como combatentes. E esse foi um dos tópicos da 9ª edição do encontro do Ladies, Wine & a bit of Design Belo Horizonte liderado por Jéssica Gomes, Gabriela Santos e Nathalia Leandro.

 

 

Falando de como essa história de encontros únicos, que ao mesmo tempo são tão plurais e diversos, começou a ser escrita em BH, Jéssica conta que conheceu o projeto na internet e logo se organizou para participar de uma edição do Ladies, Wine & a bit of Design São Paulo. Desembarcando na cidade, conversou com Thais Fabris, criadora da agência 65/10 e organizadora do capítulo escrito em terras paulistanas. O papo com Thais a impulsionou a levar o #lwd pra BH.

O primeiro encontro aconteceu em fevereiro deste ano e foi o primento momento para compartilhamento das histórias, alegrias e dores de profissionais de diversas áreas criativas de Belo Horizonte. A partir daí, elas falaram sobre trabalhos em andamento, negócios, tipografia, social media, mentoria de portfólio e finanças, até chegar na presença das mulheres na tecnologia, e nos temas dos próximos encontros que serão design autoral e processo criativo.

Na 9ª edição do ano, que aconteceu dia 17 de outubro, Paula Albino, mineira, designer na Work & Co, uma das empresas mais inovadoras em design e desenvolvimento digital para marcas no mundo, e criadora do projeto Num Pulo, foi a convidada responsável por compartilhar sua trajetória na área da tecnologia. Uma área hostil ainda povoada por poucas mulheres, mas em mutação. Mesmo sendo intimidadora e liderada em sua maioria por homens, um reflexo do nosso patriarcado social, as mulheres aos poucos vão conquistando seu espaço nessa área.

Mas como confrontar essa realidade inimiga? Não só, mas também, mudando a forma como as próprias mulheres se enxergam e se posicionam, olhando para a outra como uma aliada, não como inimiga. Afinal a competição profissional está enraizada na nossa cultura, porém, no caso das mulheres, é mais interessante e vantajoso que ela ceda lugar à sororidade.

Em meio a casos e vivências, as mulheres presentes no encontro concordaram que uma maneira válida e interessante é encarar o machismo de frente, com leveza e naturalidade, mostrando que sim, as mulheres podem (em 2017, pasmem!) estar em minoria, mas têm o poder de se fazerem ver, de serem reconhecidas, de conquistar seu lugar, de se igualar. E a tecnologia é uma ferramenta que está auxiliando muito nessa mudança de percepção e quebra de paradigmas.

 

 

O objetivo de Jessica Walsh parece, aos poucos, estar sendo alcançado. Criar uma comunidade feminina, onde a criatividade é um denominador comum, para possibilitar que, apoiadas umas às outras, essas mulheres desconstruam comportamentos prejudicias a elas mesmas, enxerguem seu valor, reparem em seus momentos de sabotagem para perceber o quão capazes elas são (pessoal e profissionalmente), se projetem (pra dentro e pra fora), se ajudem e enfretem o ambiente machista, sexista, racista seja na tecnologia, no design, na publicidade ou em qualquer outra profissão.

Além de BH, o #lwd está presente no Brasil nas cidades de São Paulo, Brasília, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Fique de olho nas datas dos encontros, junte-se a essas mulheres incríveis e mostre você também seu poder. E se quiser iniciar o Ladies, Wine & a bit of Design em sua cidade, bata um papo com a Jessica Walsh, afinal o primeiro passo (ou pulo!) depende de nós. 

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