Leslie Jamison Sobre A Grandiosa Teoria Unificada Da Dor Feminina

Por Leslie Jamison

Eu costumava me cortar. Agora sinto vergonha de admitir esse ato, porque parece menos a demonstração de alguma dor que sofri, e mais a admissão de que desejei me machucar. Mas sinto também irritação com essa minha vergonha. Não havia nada falso nos meus cortes. Eram o que eram, nem horripilantes nem produtivos. Eu sentia vontade de cortar minha pele, e o corte era a expressão desse desejo. Não há nenhuma mentira nisso, apenas uma tautologia e uma pergunta: o que me levava a querer me cortar afinal? Cortar-se era ao mesmo tempo pergunta e resposta. Eu me cortava porque minha infelicidade parecia nebulosa e elusiva, e eu achava que ela talvez pudesse possuir a forma de uma linha no meu tornozelo. Eu me cortava porque tinha curiosidade de saber qual seria a sensação de me cortar. Eu me cortava porque precisava desesperadamente ratificar um sentido instável do eu, e a infelicidade encarnada me parecia um plano arquitetônico.

Gostaria de viver num mundo em que ninguém quisesse se cortar. Mas também gostaria que, em vez de desdenhar os cortes e as pessoas que se cortam — ou dar de ombros, apenas angústia juvenil —, pudéssemos dirigir nossa atenção para as necessidades não satisfeitas por baixo do apelo desses atos. Cortar-se é uma tentativa de falar e uma tentativa de aprender. As maneiras como provocamos o sangramento ou a dor psíquica — machucando-nos com navalhas, fome ou sexo — são também seduções do conhecimento. O sangue vem antes da cicatriz; a fome antes da maçã. Eu me machuco para sentir é o clichê do quem se corta, mas é também verdade. Sangrar é experimento e demonstração, escavação, o interior revelado — e a cicatriz permanece como resíduo, a dor transformada em prova. Não acho que se cortar seja algo romântico ou articulado, mas acho realmente que manifesta um desejo, e isso me leva a conjecturar se poderíamos chegar a um lugar onde a prova já não fosse necessária.

 

livro-exames-empatia
Exames de Empatia: Os famosos ensaios de Leslie Jamison reunidos no best-seller do New York Times ganha versão brasileira. Compre aqui.

Publicidade

FERIDA Nº 3

Recontando um momento ruim no desenrolar de sua anorexia, Carolyn Knapp descreve que estava na cozinha e tirou a camisa, sob o pretexto de mudar de roupa, para que sua mãe pudesse ver seus ossos com mais nitidez:

“Queria que ela visse como os ossos de meu peito e ombros estavam salientes, e meus braços tão esqueléticos, e eu queria que ela tivesse essa visão para lhe dizer algo que não poderia ter começado a comunicar nem a mim mesma: algo sobre a dor… um amálgama de desejos enterrados e medos calados.”

Sempre que leio relatos do corpo anoréxico como um sistema semiótico (conforme Knapp, “descrevendo na carne uma dor que eu não conseguia comunicar em palavras”) ou uma criação estética (“a vida interior […] como uma escultura de ossos”), sinto uma cautela familiar. Não é apenas pela familiaridade dessas metáforas — osso como hieróglifo, clavícula como grito — mas pelo modo como elas correm o risco de realizar a mesma valorização que afirmam refutar: atribuindo eloquência ao corpo faminto, uma espécie de graça lírica. Tenho a impressão de já ter escutado isso antes: a autora ainda sente nostalgia da crença de que passar fome poderia tornar articulada a angústia. Eu costumava escrever liricamente sobre meu próprio distúrbio alimentar, recorrendo a osso-como-linguagem, documentando o gradual espetáculo silencioso de minhas partes emergentes — nó dos dedos, esporões e costelas. É o que uma amiga chama de “rituais de inspeção”; ela descreve a sensação de gostar de “ver as veias e os tendões tornando-se visíveis.”

Mas por baixo dessa cautela — devemos estilizar? — lembro que passar fome é dor, além e debaixo de qualquer expressão estilizada: há uma dor na sua raiz e uma obsessão presente em cada momento de sua realização. O desejo de falar sobre essa obsessão pode ser tanto sintoma como cura; tudo torna a apontar em última análise para a dor — até mesmo e especialmente essas tentativas de se agarrar à nostalgia ou à abstração.

O que aprecio nesse espetáculo dos ossos de Knapp na cozinha é que, ao fim e ao cabo, não funciona. Sua mãe não repara no esqueleto dentro da camisola. O assunto surge apenas mais tarde, à mesa de jantar, quando Knapp bebe vinho demais e diz aos pais que tem um problema. O comovente grito silenciosos dos ossos à luz do sol na cozinha—essa anorexia elegíaca, levemente mítica — é superado pelo Merlot e a confissão desmazelada.

Se substituir as palavras pelo corpo revela uma relação atormentada com a dor — fazer mal a si mesmo mas também calar sobre o dano, sugerindo-o sem dizê-lo —, então conseguir que essa estratégia “funcione” (a mãe acabando por notar os ossos) confirmaria de certo modo a lógica: deixe que seu corpo fale por você. Mas aqui ele não fala. Queremos que nossas feridas falem por si mesmas, Knapp parece estar dizendo, mas em geral acabamos tendo de falar por elas: Olhe aqui. Cada um de nós deve viver com uma boca cheia de pedidos, e cheia de dor. Como era mesmo a frase? Boca cheia de amor.*

INTERLÚDIO: NO EXTERIOR

Tipos diferentes de dor invocam termos diferentes de arte: mágoa, sofrimento, agonia, trauma, angústia, feridas, dano. Dor é um termo geral e mantém os outros debaixo de suas asas; machucado conota algo ameno e frequentemente emocional; angústia é o termo mais difuso e o mais propenso a ser descartado como algo nebuloso, sem origem, auto-indulgente, afetado. Sofrimento é épico e sério; trauma implica um evento devastador específico e liga-se frequentemente a dano, seu resíduo. Enquanto as feridas se abrem para a superfície, o dano acontece na infraestrutura — de forma muitas vezes invisível, muitas vezes irreversível — e o dano também carrega a implicação de valor diminuído. Ferida implica in media res:** a causa do ferimento é passado, mas a cura não foi realizada; vemos essa situação no tempo presente de sua consequência imediata. As feridas sugerem sexo e abertura: uma ferida marca o limiar entre o interior e o exterior; marca o ponto em que o corpo foi penetrado. As feridas sugerem que a pele foi aberta — que a privacidade foi violada na formação da ferida, uma brecha na pele, e pelo ato de espiar para dentro dela.

* Referência a “Mouthful of Love”, canção da banda de rock norte-americana Young Heart Attack. (N.T.)
** Expressão latina que significa “no meio das coisas”. Essa expressão chegou até nós pela Ars Poetica, de Horácio. Nessa obra, ela se refere a uma técnica literária em que a narrativa começa no meio da história, em vez de no início. (N. T.)

Colagem Capa: Luiza Fabsm

Trecho do Livro EXAMES DE EMPATIA por Leslie Jamison. Copyright © 2014 por Leslie Jamison e Copyright da tradução © 2016 Editora Globo S.A. Trecho publicado com permissão da Editora Globo.

Publicidade

Gostou dessa matéria? Compartilhe.
Tags