Livro Resgata Protagonismo das Mulheres na História Brasileira

Madalena Caramuru, Dandara, Bárbara de Alencar, Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, Maria Quitéria, Maria Felipa de Oliveira, Nísia Floresta, Ana Néri, Anita Garibaldi, Maria Firmina dos Reis, Princesa Isabel, Chiquinha Gonzaga, Georgina de Albuquerque, Nair de Teffé, Anita Malfatti, Bertha Lutz, Antonieta de Barros, Carmen Portinho, Laudelina de Campos Melo, Nise da Silveira, Pagu, Ada Rogato, Graziela Maciel Barroso, Carolina Maria de Jesus, Maria Lenk, Dorina Nowill, Cacilda Becker, Dona Ivone Lara, Zuzu Angel, Josefa Paulino da Silva, Niède Guidon, Zilda Arns, Margarida Maria Alves, Leila Diniz, Dinalva Oliveira Teixeira, Maria da Penha, Marinalva Dantas, Indianara Siqueira, Sônia Guajajara, e as “abrasileiradas” que escolheram o país como casa: Marta Vieira, Felipa de Souza, Carmen Miranda, Lina Bo Bardi e Dorothy Stang.

A história dessas mulheres foi marcada pela luta. Luta pela igualdade, justiça e reconhecimento. Luta por  uma vida digna e por um mundo muito melhor. Infelizmente, muitos desses nomes foram esquecidos, apagados pela história, tão comumente contada por homens sobre homens. Relembrá-los foi uma das maiores motivações das autoras Duda Porto de Souza e Aryane Cararo, responsáveis pelo livro “Extraordinárias: Mulheres Que Revolucionaram o Brasil”, lançado pela editora Seguinte, selo da Companhia das Letras, no ano passado, em parceria com o Instituto Alana e o projeto Believe.Earth

Uma conquista que, com certeza, seria celebrada pelas que já se foram e está sendo festejada pelas tantas ainda vivendo a transformação diária e constante tão desejada por elas. De Dandara, uma guerreira negra que aprendeu a fabricar espadas para lutar com elas; Maria da Penha, que ficou paraplégica e quase perdeu a vida antes de sua luta resultar na principal lei contra a violência doméstica; a Bertha Lutz, que representou fortemente o movimento sufragista. Só para começar.

 

 O início dessa narrativa.

Jornalistas por formação, Aryane é especialista em literatura infantojuvenil com experiência em importantes veículos de comunicação, além de ser pós-graduada em Jornalismo Literário pela ABJL e mestre em Estética e História da Arte pelo MAC-USP; Duda, que também já colaborou para veículos de destaque e atua como professora-convidada do curso de Artes Visuais do Centro Universitário Belas Artes/SP, é a criadora da primeira Biblioteca Multilíngue Infantil pública do Brasil, localizada em São Paulo, um sonho que se tornou real em agosto de 2013 e é o primeiro espaço da América Latina com livros em diversas línguas para crianças e adolescentes.

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Elas se conheceram quando Duda estava coletando livros para sua biblioteca e Aryane era editora do suplemento infantil Estadinho, do jornal O Estado de São Paulo. A partir desse encontro, a dupla começou a pensar em vários projetos voltados para o público infantil onde os temas como questões de gênero e diversidade fossem premissas. Duda e Aryane começaram a se questionar sobre quais heroínas brasileiras poderiam inspirar as crianças. Porém, segundo elas, essa era uma pergunta sem muitas respostas. Fora do Brasil, iniciativas com esse propósito já estavam conquistando espaço, como o livro “Rad American Women A-Z”, uma coletânea escrita por Kate Schatz e ilustrada por Miriam Klein Stahl de mulheres incríveis que transformaram o mundo, seja o antigo ou o contemporâneo, de forma profunda e significativa. Por que, então, não fazer algo parecido aqui, no país que abrigou (e abriga) tantas mulheres memoráveis?

 

“Extraordinárias: Mulheres Que Revolucionaram o Brasil” e as narrativas de mulheres importantes para o país e responsáveis por mudar o curso da história.

 

Começa a nascer aí, em meio a inspirações diversas, o livro que seria “uma tentativa de resgatar o heroísmo que tiveram essas mulheres”, conta Duda. Muitas brasileiras que fizeram a diferença em suas áreas de atuação, na verdade, acabam ocupando um papel de coadjuvante na história. “Contar as histórias das mulheres que foram importantes para o país, que mudaram o curso da história, devolvendo a elas o protagonismo que tiveram em nosso processo histórico, ajudando a tornar a narrativa do nosso país mais justa e igualitária”, explica Aryane sobre o principal objetivo da publicação.

 

44 mulheres, diferentes etnias e uma só missão: transformar.

Para construir um futuro mais igualitário e mostrar que as mulheres foram fundamentais em variados segmentos (muitos deles, tradicionalmente masculinos) – desde a ciência e a aviação até a cultura, saúde e educação, Duda e Aryane construíram uma linha do tempo da história do Brasil, contada, vivida e ilustrada por mulheres. Elas contam que, no começo, a lista de nomes era pequena com muitos personagens conhecidos. Mas quem procura, acha: a cada nome redescoberto, surgiam outros vários capazes de revelar ainda mais alguns. Quando se deram conta, tinham passado por cerca de 300 nomes durante o processo, o que foi uma grata surpresa por verem que o país tem tantas mulheres fundamentais em sua construção, ao mesmo tempo em que foi triste perceber que muitas delas estavam desaparecendo, se perdendo ou virando lenda.

A etapa de pesquisa para o livro teve início há pouco mais de dois anos. As escolhas das histórias que entrariam na publicação foram baseadas em perguntas norteadoras como “essa mulher foi um divisor de águas na sua área?” ou “foi um marco para a história do país?”. Nessa etapa, as autoras começaram a diversificar os campos de atuação para reunir representantes do maior número de áreas possível, sempre equilibrando a busca dentro da diversidade de regiões que temos no Brasil. A parte final da pesquisa teve como critério os períodos históricos, o que mostraria que muitas de nossas heroínas ainda estão vivas.

Nossas revolucionárias estavam virando lenda ou desaparecendo pela falta de registros

Duda e Aryane consultaram livros, bibliotecas, o acervo do jornal O Estado de S. Paulo (que abriga o arquivo de outros jornais), falaram com historiadores que estudaram sobre as personagens ou sobre o período em que viveram, e ainda fizeram entrevistas com familiares e com as mulheres contemporâneas, tudo isso para ter a maior precisão de detalhes possível. Esse cuidado garantiu um material completo, diverso e representativo.

A ideia começou a se materializar a partir de uma iniciativa no Catarse, plataforma que, segundo Aryane, é ideal para fomentar diálogos, e Duda completa destacando que essa foi uma forma escolhida para espalhar realmente a ideia, convidando mais gente a participar e se envolver. A experiência com o Catarse provou o quanto elas acreditavam no projeto e, mais do que isso e tão importante quanto, o quanto as pessoas estavam dispostas a se envolver, contribuir, incentivar e fazer parte de alguma forma. A porcentagem obtida foi baixa, mas ajudou a pagar as contas relativas à pesquisa e produção do livro. O restante foi conseguido através da parceria com a editora e com outros atores no processo editorial. Para ambas, o processo amadureceu e enriqueceu o projeto no qual desistir por falta de recursos nunca foi uma opção.

 

Dar voz à pluralidade para envolver e conquistar.

Um livro sobre mulheres, feito por mulheres, para ser lido e vivido por todo mundo. Aí reside a maior diversidade: qualquer pessoa, de qualquer idade, tem agora a oportunidade de ler a história de cada uma das 44 mulheres memoráveis e ver o rosto delas ilustrado em representações artísticas. Para as autoras, a máxima do ‘juntas somos mais fortes’ pode ser vista nesse trabalho, que soma talentos e diversidade de técnicas, ajudando a mostrar o quanto somos plurais e o quanto a união dos diferentes pode criar uma obra linda e relevante, com artistas talentosas e plurais, com traços distintos, assim como a nossa cultura. Dentre as ilustradoras estão Veridiana Scarpelli, Yara Kono, Bárbara Malagoli, Joana Lira e Laura Athayde.

À direita, Dorina Nowill, educadora e filantropa, ilustrada por Yara Kono. À esquerda, Bárbara de Alencar, comerciante e ativista política, por Veridiana Scaperlli // Cortesia

 

À direita, Dandara, guerreira negra do período colonial do Brasil, ilustrada por Lole. À esquerda, Laudelina de Campos Melo, fundadora do primeiro sindicato de trabalhadoras domésticas do Brasil, por Laura Athayde // Cortesia

 

“Há senhoras felizes em conhecer a força e a coragem dessas brasileiras, há crianças utilizando como material para consulta de trabalhos escolares, há jovens e adolescentes orgulhosas de ver o poder feminino”, conta Duda que segue esperando que todos os exemplos possam servir de inspiração para meninas e mulheres acreditarem no poder transformador que carregam consigo, confiando na própria força que emanam. Afinal, “cada mulher tem sua parte heroína. Não há idade para realizar coisas fantásticas, como Ana Néri, que só foi para a guerra aos 50 anos. Ao devolver o protagonismo dessas mulheres, há tanto tempo relegadas ao papel de coadjuvantes, acabamos recontando a história do próprio Brasil”, ressalta.

 

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Extraordinárias: Laudelina de Campos Melo

Precisamos falar sobre elas, porque lhes devemos muito. "Extraordinárias" foi criado para ser lido por mulheres e homens, jovens, adultos e idosos, e contado para crianças. Porque transmitindo histórias como as dessas mulheres e seus espíritos incansáveis, podemos fazer deste um mundo mais igualitário, justo e melhor. Para todas e todos. E este trabalho está apenas começando. Grave seu vídeo lendo o trecho de “Extraordinárias: Mulheres que Revolucionaram o Brasil” que mais te inspirou e ajude a recontar a história do nosso país. Juntxs somos fortes! Não esqueça de marcar seu post com as hashtags abaixo!#extraordinarias #mariafarinhafilmes #institutoalana #believeearth

Posted by Editora Seguinte on Wednesday, December 27, 2017

 

Duda e Aryane, ao serem questionadas sobre a importância dessa mudança mundial de percepção do papel da mulher, ressaltam que a luta está longe de terminar: a taxa de feminicídios no Brasil é a quinta maior do mundo, com 4,8 assassinatos para cada 100 mil mulheres, sendo as negras as mais violentadas, e os parceiros/ex-parceiros os que mais cometem os crimes, como divulgou a OMS – Organização Mundial da Saúde. Elas lembram que o panorama é desanimador também no universo corporativo, como revelou uma pesquisa da Grant Thorton – International Business Report/Women in Business, apontando que, no mercado brasileiro de trabalho, apenas 16% dos cargos de CEO’s e diretorias são ocupados por mulheres, que recebem salários menores em qualquer que seja o cargo – a Catho divulgou que essa diferença chega a ser de 60% em alguns casos, tendo avaliado 8 funções diferentes, de estágio a gerência – o que só confirma a herança machista na qual estamos inseridos.

As autoras falam também sobre os buracos na legislação brasileira, como, por exemplo, a licença maternidade, que deveria abranger os pais, iguais responsáveis pelos filhos. “Na política, só temos presença feminina porque a lei exige um percentual mínimo de 30% de candidatas. E estamos falando de um pequena ponta do problema. Precisamos ter voz, cada vez mais voz para sermos ouvidas, para termos nossos direitos respeitados”, lembra Aryane.

Ao devolver o protagonismo dessas mulheres, há tanto tempo relegadas ao papel de coadjuvantes, acabamos recontando a história do próprio Brasil.

Para Duda e Aryane, o trabalho não tem data para acabar; esse livro é uma pecinha dentro de um imenso mar de iniciativas, projetos e trabalhos que podem ajudar a reconstruir a história das mulheres e o protagonismo de cada uma. Elas adorariam “que o livro pudesse ter continuidade, pois muitas mulheres ficaram de fora. Daria para fazer uma coleção inteira de títulos, não apenas um volume 2. Também gostaríamos de ver esse trabalho espalhado por aí, em diversas plataformas, porque o nosso interesse é que as histórias cheguem ao máximo possível de pessoas. Nós também pretendemos levar essa mensagem ao maior número de locais que conseguirmos e, por isso, estamos tentando promover uma série de eventos e visitas, inclusive a escolas”.

Além do livro escrito por elas, a dupla recomenda leituras igualmente capazes de educar e inspirar: “Coisa de Menina”, de Pri Ferrari; “Para educar crianças feministas” e “Sejamos todos feministas”, ambos de Chimamanda Ngozi Adichie; “Capitolina”, uma seleção interessante de textos juvenis; qualquer exemplar de Angela Davis; “Malala, a menina que queria ir para a escola”, de Adriana Carranca; “Nova História das Mulheres no Brasil”, organizado por Carla Bassanezi Pinsky e Joana Maria Pedro; e “História das Mulheres no Brasil”, organizado por Mary del Priore.