Machismo E Consumo De Animais: Naturalização E Dificuldades De Romper Com Os Códigos Sociais

“Ecofeminismo: Mulheres e Natureza” é um série de artigos que busca discutir a importância da conexão das mulheres com os seres não-humanos e o meio-ambiente. A série tem como objetivo abordar as questões éticas e morais, além das questões culturais, sociais e econômicas relacionadas ao feminismo, veganismo e ecologia.

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Como já falamos por aqui, a distorção histórica do feminismo-vegetariano e seu silenciamento são, desde o século XVIII, barreiras difíceis de transpor. O discurso e as ações de importantes vozes ecofeministas animalistas em busca de um mundo igual para todos são constantemente desfocadas, resultando em uma maior dificuldade de questionar (e abolir) a exploração do meio-ambiente e dos seres não-humanos.

Mas não para por ai. Como sociedade e como feministas, enfrentamos ainda a dificuldade de romper com os padrões culturais impostos e naturalizados que transformam animais em pedaços de carne. Discussões sobre como mulheres são tratadas como ‘pedaços de carne’ em uma sociedade machista geralmente acontecem em uma mesa cheia de ‘pedaços de carne’, ou pedaços de corpos, de outras fêmeas.

Parece não importar nossa descendência (seja ela divina ou evolucionista) herbívora, ou a epidemia do câncer ocasionada pela alimentação baseada em proteína animal, quanto mais a devastação ambiental, ou o desbalanço na distribuição de alimento entre classes ricas e pobres, menos ainda o sofrimento animal embutidos no nosso hábito de comer carne. Tudo nos é vendido como “natural”. Não há questionamentos, há apenas “natureza”. Oprimir mulheres e pessoas não-brancas, diferente de como era anos atrás, não é mais considerado ‘natural’, mas oprimir seres não-humanos ainda é considerado, por muitos, algo como “inerente à vida”.

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Por todos as coisas que a comida representa – amor, cuidado, nutrição, carinho, poder, etc – nós viramos uma civilização dependente psicológica dela (prova disso é a epidemia da obesidade) incapaz de ponderar e até mesmo nos interessar sobre a procedência dos nossos alimentos. Não à toa, a palavra feminista é mais bem aceita do que a palavra feminista-vegetariana. A palavra feminista, de certa maneira, coloca as mulheres em uma zona de conforto, enquanto a palavra feminista-vegetariana é responsável por colocar as mulheres em uma zona de conforto e ao mesmo tempo tirá-las de outra.

Machismo é o conceito que baseia-se na supervalorização das características físicas e culturais associadas com o sexo masculino, em detrimento daquelas associadas ao sexo feminino, pela crença de que homens são superiores às mulheres. Especismo é o ponto de vista de que uma espécie, no caso a humana, tem todo o direito de explorar, escravizar e matar as demais espécies por considerá-las inferiores. É a atribuição de valores ou direitos diferentes a seres dependendo da sua afiliação a determinada espécie.

Entretanto, é necessário “desnaturalizar” comportamentos para entender o que, de fato, eles são: construções culturais que variam de acordo com cada sociedade [1]. A compreensão do movimento feminista (ou de pelo menos parte dele) para com as construções sociais para além de gênero (como raça e classe social) é, sem dúvidas, uma evolução do feminismo [2]. Mas a naturalização das construções sociais envolvidas na nossa alimentação é problemática, pois acaba indo contra à própria teoria de gênero, que busca exatamente a desnaturalização das nossas atitudes e hábitos na sociedade moderna.

Em “Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”, Judith Butler, a teórica feminista e professora, explica sobre as práticas regulatórias responsáveis por produzir os corpos que governam e rapidamente é possível entender como essa prática regulatória se aplica para além do ser humano:

“Toda força regulatória manifesta-se como uma espécie de poder produtivo, o poder de produzir – demarcar, fazer, circular, diferenciar – os corpos que ela controla”.

A teoria desconstrucionista de Butler sobre materialização do discurso também questiona o “natural” e o conceito de “natureza”, e relembra que “estudiosas feministas têm argumentado que o próprio conceito de natureza precisa ser repensado” e que “o repensar da natureza como um conjunto de inter-relações dinâmicas é apropriado tanto para objetivos feministas quanto para objetivos ecológicos […] Esse repensar também coloca em questão o modelo de construção pelo qual o social atua unilateralmente sobre o natural e o investe com seus parâmetros e significados”.

Com uma leitura mais atenta de estudos antropológicos ou históricos sobre alimentação, hábitos à mesa e nutrição, conseguimos perceber também como não nos alimentamos apenas para obtenção de nutrientes e que “comida” é um campo de estudo tão complexo quanto “sexo”. Ao olhar de perto esses estudos, notamos que pouco, ou quase nada, é ‘natural’.

Um exemplo claro é questionar por que no ocidente amamos cachorros e comemos vacas, mas na China e na Coreia cachorros são uma fonte de proteína animal igual a vacas ou porcos? Ao ser colocada dessa maneira, fica claro como a alimentação é uma construção cultural, porém naturalizada, assim como feminilidades e masculinidades.

Não parece coerente para o movimento feminista aceitar o consumo de animais como algo natural quando o próprio movimento e suas grandes vozes vêm destacando a ausência de uma natureza ‘pura’, onde tudo que conhecemos como natureza já está impregnado pela cultura, reconhecendo o poder da sociedade em intervir no que é, de fato, natural. Basta agora estarmos dispostas a questionar tudo o que é nos dado como natural, principalmente quando essa “natureza” é opressiva e tira vidas, mesmo que esses questionamentos nos desloquem da zona de conforto.

Não existe natureza alguma, apenas efeitos de natureza: desnaturalização ou naturalização.

 

Jacques Derrida

Notas de rodapé:

[1] Diferenças e Igualdades (2009), Sexualidade: da natureza às representações, pág 152 – Júlio Assis Simões.
[2] Diferenças e desigualdades sociais negociadas: raça, sexualidade e gênero em produções acadêmicas (2014). Cadernos Pagu 42 – Laura Moutinho.

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