Ativismo na Moda Só Será Possível Quando um Outro Conceito de Moda For Concebido

Não é possível transformar a moda sem questionar a imagem de moda. É por isso que tenho me dedicado a trazer esse tema à tona e com certa insistência. Quando falo de imagem de moda é importante lembrar que não falo apenas das modelos nas campanhas ou nas páginas de revista. Imagem de moda tem a ver também com questões mais subjetivas como, por exemplo, sobre como devemos ser, falarnos portar ou nos apresentar para nos sentirmos parte da moda. Os lugares  e eventos que devemos frequentar, estar, conhecer também passam por essa construção imagética do mundo da moda.

Em um momento anterior, abordei o imaginário coletivo sobre a profissional da área, com exemplos que vão do clássico filme O Diabo Veste Prada ao relativamente recente seriado Girlboss, numa análise esmiuçada de uma moda imaginária responsável por reforçar padrões e comportamentos. Na sequência, foi preciso analisar o espetáculo onde essa moda imaginária, com seus personagens, acontece: as passarelas com os desfiles e as semanas de moda. Em cada uma das análises é possível encontrar paradigmas de comportamento dificílimos de reconhecer, aceitar e transformar. Agora, acrescento a estas discussões a dificuldade que temos de conceber, de fato, outra moda.

Isso porque a moda é um sistema complexo criado sobre a imagem – e a imagem é a forma pela qual o nosso cérebro elabora nossa experiência humana. O neurocientista António Damásio, em A Estranha Ordem das Coisas, explica como nosso cérebro elabora as experiências que temos em vida. Basicamente o autor elucida que nossos órgãos responsáveis pelos sentidos – olhos, ouvidos, pele, boca – recebem estímulos frequentes. Estes estímulos são registrados e relacionados com outros, previamente armazenados em nosso repertório, num processo de construção e concessão de significados às imagens.

O tempo todo fazemos edições mentais de experiências que vivemos para contar nossas histórias. Esse processo de edição e o processo de pensamento em si não são em texto ou qualquer outra forma, são em imagens. A imaginação, como o próprio nome sugere, junto com as realidades que desejamos e projetamos, também é construída a partir de imagens. Segundo Damásio, “toda mente é feita de imagens, desde a representação de objetos e eventos até seus conceitos e traduções verbais correspondentes. Imagens são o símbolo universal da mente”.

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É por isso que as imagens de moda já estão fixadas em nossa mente. São aos formatos tradicionais que nos referenciamos e são eles que, mesmo inconscientemente, replicamos. Apesar de ser possível fazer essa transformação, não é algo simples. Para poupar energia o cérebro busca padrões, até onde não existe. No livro O Poder do Hábito, Charles Duhigg nos mostra como se formam os hábitos e o que temos que fazer para mudá-los quando desejamos, num processo que precisa ser consciente e frequente.

Nosso cérebro aprende o que é necessário para viver. Neste processo de aprendizagem, produz conexões, que uma vez formadas, já não exigem tanta energia para decifrar os códigos. Ou seja, é uma rota confortável para o cérebro, pois este revisita seu “arquivo padrão”. Quando vemos ou experimentamos algo novo, algo que não se conecta com este nosso arquivo padrão, é necessário decifrar e aprender essa nova experiência e formar novas conexões. Como o processo exige energia, e o cérebro busca economizá-la, a saída encontrada é relacionar o diferente com algo que já conhecemos e dominamos. Cria-se, então, uma falsa conexão, uma relação com algo que não existe de fato, um falso padrão.

Para entender melhor esse encadeamento cerebral, podemos recorrer a uma citação do autor e teórico da economia comportamental Daniel Kahneman. A primeira fala exatamente sobre novas conexões com o “arquivo padrão”. O autor ressalta: “o que aprendemos com o passado é maximizar as qualidades de nossas futuras lembranças, não necessariamente de nossa futura experiência. Essa é a tirania do eu recordativo”.

 

Ser da moda

Desvendar os processos cerebrais não parece coisa para ser dita em um texto sobre moda. Mas para uma transformação real é preciso trazer à luz os signos e fazer alguns questionamentos. Alguns deles, que tenho feito a mim mesma, são: por que a branquitude continua imperando nas marcas ditas sustentáveis? Por que a competição continua sendo a regra do jogo dos criadores e organizadores de eventos – sejam eles quais forem? Por que o comportamento blasé para o que não é igual a você continua excluindo e calando mesmo nos espaços ditos “revolucionários”? Por que o glamour continua com poder de sugar as energias de quem começou com propósito, mas se rendeu ao baile da Vogue? Por que a moda continua a não tolerar quem é diferente?

Essa dificuldade de quebrar com os padrões mentais pode ser vista em todos os lugares da indústria. As semanas de moda, por exemplo, seguem diminuídas, mas seguem. O desfile ainda se mostra como desejável e desejado, sobrevivendo mesmo que com uma imagem já bastante desgastada e questionada. Ao mesmo tempo, temos eventos paralelos e fora do calendário que hoje são bastante importantes na moda nacional. Mas nem estes, que se propõe ao novo e à transformação, têm conseguido fugir dos padrões mais enraizados, que seguem sorrateiros e infiltrados. São os padrões de comportamento, de como devemos nos portar, como devemos nos vestir ou o que devemos fazer para integrar e se sentir aceito na moda.

O que aprendemos com o passado é maximizar as qualidades de nossas futuras lembranças, não necessariamente de nossa futura experiência. Essa é a tirania do eu recordativo

Há também uma inegável repercussão da imagem construída de como um profissional em determinada função na moda deve ser e, consequentemente, a reprodução dos comportamentos desse imaginário, mesmo quando estes são tóxicos e nocivos. O mesmo podemos falar sobre os eventos da área  – repercutirmos a ideia de como um evento de moda deve ser, quais atrações ele deve ter e quem deve frequentá-lo para ocupar a categoria com louvor. Nós ainda nos apoiamos nestas imagens mesmo quando estas já estão esmaecidas e convencem cada vez menos pessoas. Vivemos cercadas por paredes que direcionam nossos caminhos. Transgredir, transformar ou romper formatos diz respeito a fazer escolhas e tomar decisões conscientes destes padrões. 

 

O poder do capital

Além dos padrões cerebrais já explicados anteriormente, a resposta para estas perguntas também está na organização capitalista da vida. O sistema padroniza não só relações comerciais, mas comportamentos humanos. Por mais que nossa causa seja legítima, imersa nesse mar de signos, são reproduzidos padrões competitivos, excludentes e preconceituosos responsáveis por perpetuar o que está posto. Mudam-se os produtos e até mesmo a narrativa. Mantém-se a lógica.

Como a construção do nosso arquivo padrão mental não acontece no vácuo, mas sim numa sociedade formatada pelo capital, há duas ferramentas importantes de manutenção destas estruturas e dos padrões comportamentais em sintonia com o funcionamento do nosso cérebro: status e dinheiro. Por isso não é possível falar sobre padrões mentais sem falar sobre capitalismo e sobre como os comportamentos são ditados pela quantidade de dinheiro e status envolvidos. Quando ambos entram em jogo, as coisas a vida fica um pouco mais fácil, como se tivéssemos, finalmente, tudo resolvido, e reproduzimos o padrão do contentamento, do poder, da justificativa para a ação. Está tudo respondido com as contas pagas. Buscamos uma referência na mente para amparar nossa decisão em sucumbir e encontramos milhares. Aceitamos em uma pseudo paz.

Mas o que foi que ficou para trás? O que ficou no caminho? Além de autoconsciência e comprometimento, o processo de quebra dos comportamentos induzidos pelos padrões mentais também exige maturidade emocional para lidar com quem não pensa e não age como o seu grupo. Mas não só, é preciso aprender a lidar com a crítica e fazer autocrítica – a única capaz de libertar. Coisa que a moda nunca soube fazer. Basta lembrarmos como esta acabou com todos os críticos e substitui-os por meros bajuladores, algo que indica que este não será um processo fácil. Mas ativismo na moda só será possível quando um outro conceito de moda – e novos conceitos sobre o que significa ser da moda – for concebido.

Ativismo na moda só será possível quando um outro conceito de moda - e novos conceitos sobre o que significa ser da moda - for concebido.

Quero acreditar que estamos no processo. Afinal, moda não é mais mera reprodução de padrões em forma de produtos vestíveis. Se trata de algo mais amplo que se mistura às ciências humanas e sociais. A moda agora reivindica lugar nestas ciências, neste caso sendo ela a excluída. E que ironia! Logo tu, que nasceu para excluir, agora busca um lugar para ser. Neste sentido, não podemos dizer que a moda está em crise, mas sim que ela criou a crise numa experiência antropofágica. Para superar a crise, a moda precisa superar a si mesma.

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Esse artigo é parte de uma série de textos que convidam as leitoras e leitores a entenderem e repensarem os pré-conceitos estéticos e imagéticos da moda. O primeiro texto, Para Mudar a Moda, Precisamos Transcender o Sistema Predominante, falou sobre a necessidade de questionar o modelo mental responsável por retratar o status quo de representações da moda. Veja mais textos da série clicando aqui.

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