Estreia: A Igualdade de Gênero É Questão Urgente Para o Cinema

“Por que falar sobre a mulher no cinema?” Ouvi esta pergunta muitas vezes desde que escrevi minha primeira reportagem sobre o tema, há quatro anos, e principalmente a partir de 2015, quando criei um site exclusivamente dedicado a filmes feitos por mulheres ou centrados em mulheres. É possível que o mesmo questionamento passe pela cabeça de alguns leitores do Modefica, que agora dedica espaço regular à discussão sobre feminismo e audiovisual.

Não se trata de uma pergunta necessariamente maldosa ou machista (embora também possa ser). Para muitos espectadores de cinema, sobretudo os que não dedicam grande atenção aos profissionais que trabalham por trás das câmeras, a impressão é a de que homens e mulheres têm espaço igual: afinal, há tantas atrizes famosas quanto atores famosos, certo?

Talvez. Mas para se ter uma dimensão de como a desigualdade de gênero é uma realidade no audiovisual, eis um teste rápido e simples, que todo mundo pode fazer em casa: consulte a programação das salas de cinema da sua cidade; acesse a Netflix para relembrar o que você andou assistindo; vá à estante onde guarda DVDs e Blu-rays, se ainda tiver uma; ou, se for um fã de listas como eu, relacione todos os longas-metragens que você viu durante todo o ano.

Agora responda à pergunta: quantos destes filmes foram dirigidos por mulheres?

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É bem provável que sua resposta varie entre “poucos”, “a minoria” e até mesmo “nenhum”. As discussões sobre a mulher no cinema estão em alta, mas prestigiar o trabalho das diretoras ainda é uma espécie de missão – algo que você precisa buscar ativamente, pois os filmes delas não caem no seu colo. Não se trata de um problema que pode ser isolado a Hollywood ou a qualquer outro mercado, pois a baixa participação feminina por trás das câmeras, sobretudo na direção, atinge cinematografias de todo o mundo.

E se o teste proposto não pareceu científico o suficiente, eis alguns dados reunidos por estudos e levantamentos nacionais e estrangeiros que escancaram a necessidade de falarmos sobre mulheres e cinema:

Segundo relatório da Ancine, em 2016, mulheres dirigiram 20,4% de todos os longas-metragens lançados no Brasil.

No mesmo período, mulheres representaram 7% dos diretores dos 250 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos.

Entre filmes lançados de 2006 a 2013 em sete países europeus (Alemanha, Áustria, Croácia, França, Itália, Reino Unido e Suécia), só 21% foram dirigidos por mulheres.

Mulheres que trabalham como diretoras na França recebem, em média, 42,3% menos do que os homens na mesma profissão.

Apenas uma mulher ganhou o Oscar de direção, e apenas outras três foram indicadas em todos os anos da premiação.

Só um filme dirigido por mulher, no caso Jane Campion com “O Piano”, venceu a Palma de Ouro, principal prêmio do Festival de Cannes.

 

Mulheres Negras: Onde os dados ficam ainda pior.

A direção é apenas um recorte: mulheres são minoria em muitas outras funções da indústria cinematográfica, principalmente as técnicas (até hoje, por exemplo, nenhuma diretora de fotografia foi indicada ao Oscar). Mas mesmo em relação a atrizes e atores, a impressão de igualdade é falsa. Estudos apontam que personagens femininas em geral têm menos falas e mais cenas de nudez, e mulheres representaram apenas 29% dos protagonistas nos 100 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos em 2016 – um percentual que, apesar de muito baixo, representa recorde histórico desde que a pesquisa começou a ser feita, em 2002.

Coloque seu foco especificamente nas mulheres negras e os números passarão de alarmantes para absurdos. Entre todas as personagens femininas dos mesmos 100 filmes campeões de bilheteria, apenas 14% eram negras. Halle Berry continua sendo a única mulher negra a ganhar o Oscar de melhor atriz; Viola Davis, a única premiada com o Emmy de atriz de série dramática.

Da mesma forma, mulheres negras formam o grupo com pior representação no cinema brasileiro, atrás não apenas dos homens brancos, mas também dos homens negros e das mulheres brancas. Pesquisas do Grupo de Estudo Multidisciplinar de Ação Afirmativa (GEMAA), ligado à Universidade do Rio de Janeiro (UERJ), têm mostrado que, apesar de todas as mudanças ocorridas no Brasil nos últimos 50 anos, tanto no audiovisual quanto na economia e na política, a indústria cinematográfica continua sendo branca e masculina.

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Os dados do estudo mais recente, publicado este ano, que analisou gênero e raça de profissionais que trabalharam em todos os filmes brasileiros lançados entre 1970 e 2016 que tiveram mais de 500 mil espectadores impressionam. E não pelo lado positivo.

Entre os diretores, só 2% eram mulheres – nenhuma delas negra.

Entre os roteiristas, 8% eram mulheres – só uma foi identificada como negra.

Entre os atores principais, mulheres brancas representaram 36% enquanto mulheres negras ficaram em apenas 2%.

Tudo isso em um país onde os negros representam 54% da população.


Reflexo da Sociedade: Precisamos falar sobre gênero e raça sempre.

Para esta overdose de números, uma conclusão simples: a desigualdade de gênero e raça vista no cinema reflete a desigualdade da vida real. Os obstáculos que as mulheres enfrentam no audiovisual são as mesmas que as mulheres enfrentam em qualquer profissão e em qualquer lugar do mundo: menos oportunidades, mais desconfiança, salários injustos e uma série de estereótipos – sem contar a ameaça do assédio e do abuso sexual, um tema que tem chacoalhado Hollywood desde que as denúncias contra o produtor Harvey Weinstein provocaram uma avalanche de revelações contra outros homens poderosos.

Diante do necessário e bem-vindo aumento do debate sobre a mulher no cinema, é fácil ter a impressão de que a mudança já chegou. Mas é importante notar que os números resistem em crescer; os casos de assédio continuam a existir; os avanços ainda são pontuais. O caminho até uma indústria cinematográfica de fato igualitária é longo, e há muito a se discutir e a se fazer.

A boa notícia é que, para apoiar as mulheres do cinema, basta querer. E você pode começar agora mesmo. Volte à programação das salas da sua cidade, à lista do Netflix ou aos DVDs da estante: ao escolher o filme de hoje, que tal ter as mulheres em mente?

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  • ellen

    aaaaaa, obrigada por isso!!!! belo trabalho, parabéns 😀