Sweatshops Ingleses Expõe Vulnerabilidade das Mulheres Migrantes na Moda

Localizada a cerca de 160km de Londres, a cidade de Leicester é responsável por 1/3 da produção de roupas do Reino Unido. Suas oficinas, porém, nem sempre correspondem à imagem de ateliês elegantes que muitas vezes permeia o imaginário coletivo quando falamos de confecção de vestuário e acessórios na Europa. Nos últimos três anos, investigações frequentes revelaram que as oficinas da cidade inglesa são, na verdade, similares com oficinas comumente encontradas nos bairros paulistas responsáveis por formar o maior pólo confeccionista brasileiro, Brás e Bom Retiro.

Ambientes insalubres, remuneração baixíssima variando de 1 a 3 libras (cerca de R$ 4 a R$ 12) por dia de trabalho, vulnerabilidade social e nenhum vínculo com sindicatos para garantir proteção trabalhista são as características em comum com as confecções informais que suprem grande parte da demanda da indústria do vestuário por aqui. Outra semelhança com as oficinas brasileiras é a enorme quantidade de mulheres imigrantes por trás das máquinas de costura.

Segundo Debbie Coulter, da Ethical Trading Initiative, para a Vogue UK, essas trabalhadoras são mulheres imigrantes jovens de diversos países, que não falam inglês e chegam à Inglaterra com um visto de 6 meses com o objetivo de juntar dinheiro. Um cenário bem parecido com o brasileiro, onde mulheres imigrantes enxergam na costura uma oportunidade de ascensão econômica. A verdade é que, a nível global, o trabalho de corte e costura responsável por suprir a indústria hoje depende consideravelmente das mulheres imigrantes.

Quando falamos de exploração de mão de obra na indústria da moda global, precisamos falar de mulheres e imigração, além do que significa ser mulher nessa condição.

Mas não é só em Londres, ou no Brasil, ou na Ásia onde basta cavar mais fundo para encontrar oficinas de costura, muitas vezes informais e clandestinas, com condições precárias e exploração de mão de obra feminina. Essa é uma questão global e, como aponta Coulter, as condições de trabalho variam muito na cadeia de moda, indo de fábricas modernas e seguras, como a Mas Holdings no Sri Lanka, até pequenos espaços sem nenhum tipo de qualidade e segurança em Leicester.

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No fim do ano passado, um estudo do Centro de Trabalho da Universidade da Califórnia revelou o que muitos já sabiam: as condições de trabalho nas confecções de Los Angeles, maior polo confeccionista dos Estados Unidos, são “profundamente inseguras e insalubres para muitos dos que fabricam o que abastece lojas populares e lojas de departamento”. O estudo também revelou que quem está por trás dessas máquinas nessas condições tem gênero e nacionalidade bem específicos. A força de trabalho no polo confeccionista americano é formada 60% por mulheres e 87% por imigrantes latinos.

Na Turquia, terceiro maior exportador de roupas do mundo, uma considerável parte dos 3 milhões de refugiados sírios foi absorvida pela indústria de confecção. Essa força de trabalho, como apontado pelo Business Human Rights Centre, é feminina. Sem direito de trabalhar, mas ao mesmo tempo necessitadas de dinheiro para sobrevivier, mulheres e crianças se encaixam nas rachaduras da máquina da indústria têxtil global.

O que esses exemplos comprovam é que a vulnerabilidade social abre brechas para exploração em todos os lugares do mundo – seja por falta de domínio do idioma do país, medo, desinformação, coerção ou total falta de opção, mulheres vulneráveis se tornam alvos fáceis desse sistema. Escondidas atrás das máquinas, elas sofrem muito mais que exploração de trabalho. Elas sofrem também assédio, violência e abuso. Por isso, quando falamos de exploração de mão de obra na indústria da moda global, precisamos falar de mulheres e imigração, além do que significa ser mulher nessa condição. O gênero não pode ser apagado dessa discussão se quisermos entender e endereçar a questão do trabalho na cadeia produtiva de moda.

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