Nós Conhecemos Hilary Jones, A Diretora De Ética Da Lush Cosmetics

Recentemente, eu tive a oportunidade de visitar uma das minhas empresas de cosméticos favoritas, a LUSH, e passar o final de semana com eles em uma bolha (de sabão) vegan. Não só tive a chance de conhecer as fábricas – o que me fez sentir como uma criança explorando o mundo luxuoso do chocolate de Willy Wonka – como também tive a chance de fazer minhas próprias bombas de banho e Charity Pot, conhecer pessoas incríveis e visitar a primeira loja da LUSH em Poole.

Também tive a chance de entrevistar uma das mulheres mais impressionantes que eu já conheci: Hilary Jones, diretora de ética da empresa. Confira a entrevista:

Querida Hilary, você poderia me contar sobre sua história? Eu soube que você trabalha para a LUSH desde o começo [da empresa]?

Sim, eu era ativista de tempo integral até eu começar aqui. Eu costumava passar todo o meu tempo em protestos no campus e viajando pelo país. Minha família é dessa região e, naquela época, era muito difícil encontrar produtos veganos. Então quando eu ouvi sobre a “Cosmetics to Go”, a empresa antes da LUSH, eu fiquei tipo “Oh meu Deus! Eles têm sabonetes vegetais e que não são nem testados em animais!”. Era simplesmente incrível, então eu comprava deles. Quando eu cheguei aos meus trinta e poucos, eu finalmente precisava de um “trabalho de verdade”, então eu pensei: ‘para quem eu estou disposta a trabalhar?’. E a “Cosmetics to Go” foi a única empresa que eu conseguia pensar.

Vocês vendem produtos na China, onde os testes em animais são impostos por lei?

Nós não vendemos na China. É possível encontrar alguns produtos nossos por lá, mas não somos nós que levamos. É mercado paralelo. As pessoas compram aqui e revendem lá. Não em grandes quantidades, até porque nós tentamos evitar que isso aconteça. Em todos os países onde temos negócios, nós podemos inventar um produto e testar [em laboratórios] e colocar no mercado sem testes em animais.

Mas na China, alguns dos testes pré-mercado são feitos em animais. E no pós-mercado é ainda pior, porque o governo chinês tem um sistema lá, e quando o produto está à venda, eles podem pegá-lo e testá-lo em seus próprios laboratórios para garantir a segurança. E esse teste é feito em animais. Então, mesmo que você leve um produto ao mercado chinês sem fazer testes em animais, sempre haverá a chance de, se você tem uma loja, eles aparecerem e falarem: “nós queremos uma amostra de todos os produtos para testar novamente”. E, de novo, esses testes são feitos em animais. Então enquanto esse problema existir, nós não podemos fazer negócios por lá.

Por que, na sua opinião, tantas empresas ainda fazem testes em animais ao invés de usar métodos alternativos?

Bem, em última análise, testes com animais realmente não nos dizem nada. Até mesmo cientistas médicos continuam dizendo que não importa o quanto eles testem em animais, eles não sabem, porque [o sistema de] seres não-humanos são muito diferente de nós. Eles não sabem de nada até os testes serem feitos em humanos. Então a coisa toda está errada e construída sobre uma suposição enganosa. É quase como, você sabe, eles são seres vivos, por isso é como a próxima melhor coisa a testar depois dos seres humanos.

Em algum momento, alguém deve ter olhado para eles e pensado “Nós não podemos testar esse produto em um outro ser humano, mas aqui está um coelho, ele está vivo, como nós, então eu vou testar com isso.” Isso poderia ter sido aceitável nos tempos vitorianos, mas nós sabemos melhor! Sabemos que é cruel, sabemos que os animais podem pensar, sentir e nós sabemos que eles não são como as pessoas.

Precisamos desenvolver mais testes que não dependam de animais. O problema é que eles continuam vendo isso como uma substituição de um para um, o que, mais uma vez, é realmente um pensamento antiquado. Por que você iria substituir um teste sem sentido com alguma coisa, que é o mesmo que o teste sem sentido? É preciso de toda uma nova geração de pessoas varrendo esse meio com uma mentalidade completamente diferente.

O que você pensa das empresas que nasceram a favor de produtos livres de crueldade e depois foram compradas por empresas maiores, que testam em animais, como The Body Shop e Urban Decay?

É triste. Nós sempre lamentamos quando isso acontece e vemos nos noticiários. Essas pequenas e éticas empresas chegam em um estágio de interesse para as grandes marcas e elas meio que perdem um pouco de sua essência quando são vendidas. É triste para as pessoas porque reduz as opções como consumidor. Mais e mais as empresas grandes comem as empresas pequenas.

É o mesmo para nós, quando estamos comprando ingredientes: vemos fornecedores sendo comidos por fornecedores maiores, por isso não é apenas o produto final, está acontecendo em todo o caminho – da cadeia de produção ao produto final. Quando grandes empresas compram pequenos produtores de ingredientes, não podemos comprar mais deles, porque eles fazem testes em animais. É muito complexo.

 

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A cozinha de uma das fábricas da LUSH reflete o espírito da empresa.

 

O que vocês fazem para fazer a diferença? Conte sobre o Prêmio LUSH?

A razão pela qual começamos o Prêmio LUSH (LUSH Prize) foi porque o Cosmetics Directive (legislação da União Européia acerca de mercado) aconteceu, o que finalmente foi bom para os animais, mas ao mesmo tempo, o REACH Chemical Legislation (legislação da UE acerca de ingredientes e segurança) aconteceu, o que foi algo terrível para os animais. Então pensamos, o legislativo está dando com uma mão e tomando com outra. Eles estão protegendo os animais com uma mão e ferindo eles com um monte de testes extras com a outra. Foi ai que pensamos: legislação não é a única resposta, não é suficiente falar com políticos e colocar petições.

Empresas e cientistas continuam nos dizendo que certos testes não têm substitutos, eles precisam ser feitos em animais, é por isso que o teste em animais permaneceu na REACH. Porque eles foram informados que não há meios de levar os produtos ao mercado sem estes passos. É por isso que a ciência precisa estar envolvida nisso também. Eles precisam de melhores soluções com as quais o legislativo e o público sintam-se seguros.

Com o LUSH Prize, nós queremos encorajar uma nova onda de testes, encorajar as pessoas a realmente desenvolverem testes sem o uso de animais. Nós só colocamos o dinheiro, nós não tomamos as decisões. Há um painel independente de cientistas para julgar as entradas.

O que eu, como consumidora, possa fazer para promover mudanças?

A única coisa que você pode fazer é continuar escrevendo para as empresas e perguntando sobre as coisas que são importantes para você como consumidor. Quanto mais cartas eles recebem, mais eles percebem que os consumidores se preocupam com essas coisas. E se os consumidores se preocupam com isso, eles buscam atender a demanda. É assim que a maioria das empresas funciona. E então você deve compartilhar as suas respostas em mídias sociais, conversar com seus amigos e família e levá-los a fazer o mesmo.

Você luta com o fato da LUSH não ser uma empresa vegan? Você acredita que há alguma chance, que a empresa se tornará vegan um dia?

Não, eu não acredito. Os inventores confiam no mel para aliviar o calor da pele e na lanolina para condicionar o cabelo, e eles realmente classificam os ingredientes por seus efeitos. Como uma empresa vegetariana, eles confiam nesses ingredientes e eles os usam há muito tempo, então eu não vejo a empresa se tornando vegana. Entretanto, eu ficaria muita feliz se isso acontecesse.

Dizer “nós sempre usamos esses ingredientes e gostamos deles” não é a mesma coisa que dizer “nós sempre testamos em animais” e é por isso que os testes continuaram acontecendo?

Eu tenho que concordar com você. Como vegan, trabalhar em uma empresa vegetariana é um compromisso. Eu nunca posso concordar com o uso dos ovos, eu acho que os ovos causam enorme sofrimento. Mas eu trabalho para um empresa vegetariana que se sente confortável usando ovos e eu sabia disso antes de começar. Nós temos debates internos constantes.

Tivemos uma reunião gerencial onde todos os veganos usaram camisetas com os dizerem “no eggs” (sem ovos). Você sabe, nós causamos problemas constantemente (risos)! Se nada mais, eu realmente gostaria que os ovos fossem embora, mesmo se eles continuarem usando o mel. Se eu tivesse um número um para ir embora, seriam os ovos.

Para mim, como vegana, todo o processo dos pintinhos machos serem mortos, a vida daqueles galinhas e suas mortes quando elas não conseguem mais produzir ovos e se tornam economicamente inviáveis, é repugnante. É o pior método de abatimento possível e é okay para as galinhas, mas nunca seria okay na eutanásia de um cão ou gato. Todos te chamariam de cruel [se você fizesse isso com um cão ou gato], mas milhões de galinhas morrem assim todos os dias.

Mas a LUSH é uma grande empresa e é bom que temos uma grande mistura de crenças em nossa equipe. Há um debate constante acontecendo por diversos ângulos. É uma bela empresa que faz um bastante. Temos até caterings vegans para nossas reuniões e é tão bom trabalhar aqui.

Qual seu maior objetivo?

Eu gostaria de ver os seres humanos tratando seres não-humanos com o mesmo respeito que eles tratam os outros seres humanos. É claro, têm pessoas que não tratam seres humanos com o devido respeito, então… que os seres humanos pudessem respeitar todas as criaturas vivas. Eu adoraria viver em um mundo em que todos nós fossemos capazes de respeitar cada criatura, esse seria um mundo no qual valeria à pena viver.

 
Por Elisa Brunke. Elisa é redatora de moda e estilo de vida da Vilda Magazine. Mora em Hamburgo, onde estudou jornalismo de moda e agora trabalha como editora. Ela é apaixonada por cozinha (e comer) comidas veganas saudáveis, a combinação de chocolate com pasta de amendoim, garotos tatuados, punk rock e animais, especialmente (seus dois) gatos.

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