Essa Mulher Transformou o Ballet Em Ferramenta de Inclusão Social

Paraisópolis é a famosa comunidade da zona sul de São Paulo que já foi palco de novela, destaque em notícias pelo contingente populacional e possui a famosa fotografia aérea feita da tênue linha que separa um condomínio de luxo e as estreitas ruas da comunidade; é também a casa do Ballet Paraisópolis. Criado em 2013, por Monica Tarragó, o projeto atende atualmente 200 jovens, de 8 a 17 anos, com aulas gratuitas de balé clássico, dança contemporânea, workshops e oficinas.

Com o objetivo de promover a inclusão social, o projeto já levou jovens da periferia de São Paulo a se apresentarem no Auditório Ibirapuera, Theatro Municipal de São Paulo, Festival de Dança de Joinville e, recentemente, no Sambódromo de São Paulo, junto à escola de samba Acadêmicos do Tatuapé. A lista de apresentações dentro e fora de Paraisópolis não para por aí. Nos últimos 5 anos, o balé conquistou respeito da comunidade e a demanda de alunos só cresceu.

Monica acredita na força da equipe e alunos em doar o sangue pela dança: “Foi fruto de muito trabalho. Hoje, o mundo é tão imediatista, a gente precisava mostrar o resultado e não podia demorar tanto. Igual com as crianças. Elas deram tanto resultado porque tinha talentos esquecidos aqui dentro. Você dá oportunidade, tudo funciona rápido”.

Com a lista de espera de até 2 mil nomes, o último exame de seleção aconteceu no início de fevereiro, com jovens formando fila às 5h30 da manhã. Foram aprovados 53 meninas e 1 menino. Monica conta que são muitos os meninos interessados pelo balé, mas que, por conta do preconceito da família, não podem dançar.

Publicidade

 

“MINHA VIDA”

O curso tem duração de 8 anos e deixa o estudante apto a trabalhar como bailarino ou bailarina profissional. Este é o sonho de Yasmin Sousa, estudante de 15 anos, que frequenta o Ballet Paraisópolis desde os 10 anos. Nascida no Maranhão, Yasmin conta que começou a dançar balé aos 2 anos, mas logo teve que parar por falta de professor. Quando chegou à comunidade de Paraisópolis, a mãe descobriu o projeto através de um carro de som. “Ela pediu para minha vó trazer eu e minha irmã. Daí eu passei, depois minha irmã fez outra [seleção] para passar. E estou aqui até hoje”.

 

Apoiada pela família, Yasmin já se apresentou dentro e fora da comunidade // Foto: Marcelo Brandt/G1

 

O amor pela dança faz Yasmin esquecer do cansaço: ela foi uma das escolhidas para ficar a madrugada inteira acordada, no dia 9 de fevereiro, para entrar no desfile da escola de samba às 4 horas da manhã. “Foi a primeira vez que eu fui ao Sambódromo e ainda dançando, é mais emocionante ainda”, afirma. A disciplina para estar presente nas aulas duas vezes por semana e ensaios para apresentação não são dificuldades para a jovem bailarina, que em entrevista já demonstrava a empolgação pela volta à rotina. Difícil mesmo foi explicar o por que gosta de dançar. Yasmin resumiu a resposta em “emoção” e “minha vida”.

 

AUXÍLIO À COMUNIDADE

O espaço alugado para o projeto traz a estrutura de ponta para acolher os bailarinos, além de custear todo tipo de material, como sapatilhas, meia calças, bolsas, uniformes e figurinos feitos sob medida. O apoio às crianças do projeto se estende muito mais do que apenas com aulas: ali atuam profissionais como fisioterapeuta, nutricionistas e até mesmo professores de inglês. “Nós temos várias atividades, tudo que a gente vê que o aluno necessita, buscamos com apoio, com ‘Os Amigos do Ballet Paraisópolis’”, explica Monica. Ela brinca que virou pedinte. Quando precisa apoiar o aluno em situações especiais, ela sempre busca pela ajuda dos voluntários: “agora, por exemplo, eu estou precisando de uma ressonância para uma aluna. Estamos buscando em todos os hospitais de São Paulo e está sendo uma dificuldade enorme”.

Às vezes, as pessoas não entendem como a arte salva e é uma profissão.

Monica afirma que o aluguel do prédio está no topo das dificuldade de manter o Ballet Paraisópolis, seguido do patrocínio que se renova anualmente. “Com o Brasil em crise, do jeito que está, e você acreditando em arte. O patrocinador sempre gosta mais de esporte, então, são várias dificuldades”, explica. Monica também reforça a dificuldade de atuar em uma localidade precária: “implantar um projeto de arte numa comunidade onde ainda não temos hospitais, há várias necessidades e, às vezes, as pessoas não entendem como a arte salva e é uma profissão. E a gente sofre esse preconceito”.

Além das aulas regulares e apoio complementar aos jovens bailarinos, ela também se organiza para criar eventos em datas comemorativas, como a Páscoa. “Eu mando 100 e-mails por dia, para ver quem consegue um ovo de Páscoa pras crianças. Depois eu faço a campanha da escova de dente, depois chega Natal. E assim a gente se diverte, não é nada por obrigação, é por amor mesmo. Você vê a carinha da criança ganhar um ovo de Páscoa e paga todo seu trabalho”. O Ballet Paraisópolis se apóia, principalmente, nos recursos provenientes da Lei Rouanet e do Programa de Ação Cultural (ProAc). O projeto também está apto a receber doações diretas.

 

Com 35 alunos, todos de figurinos azuis, o Ballet Paraisópolis homenageou o Theatro Arthur Azevedo, um dos símbolos de São Luís do Maranhão // Foto: Caio Reis/Cortesia 

 

DISPOSTAS A COMPRAR A BRIGA

A participação no Carnaval foi decidida de última hora, mas o entusiasmo dos alunos e equipe fez nascer uma nova conquista para o Ballet Paraisópolis. A coreografia foi feita em uma semana, por Leonardo Helmer, amigo de Monica e coreógrafo da comissão de frente do Acadêmicos do Tatuapé. “As aulas voltaram dia 8 de janeiro e nós começamos os ensaios incansáveis para poder dar certo”, conta Monica, que também se lembra da dificuldade das idas e vindas ao Sambódromo, que fica longe da comunidade. A agitação da plateia contagiou os jovens bailarinos: “No sambódromo, eles podem gritar, eles podem bater palma, eles podem conversar. É outra platéia, diferente da que eles estão acostumados, que senta para assistir um balé”, relata.

A coordenação do corpo também foi diferente já que, além da dança e do canto, as bailarinas precisavam se esquivar de fotógrafos que passavam entre elas. O professor Fabrício Domenicheli, que acompanhou o ritmo intenso dos preparativos, afirma que ‘elas estão dispostas, compram a briga’. O motivo da agenda apertada logo nas primeiras semanas do ano são os preparativos para o festival de dança em Joinville, que acontece em julho. Os vídeos dos projetos são enviados em março para a comissão avaliadora. Fabrício afirma que “o ano começa com Joinville”. “Quando a gente foi convidado, existiu uma dúvida. Mas, graças a Deus e a muito trabalho, conseguimos cumprir de uma forma muito profissional. Quando todo mundo abraça, eu acho que é o grande diferencial da coisa”, explica.

Publicidade

 

CORPOS AUTÔNOMOS

No projeto desde 2016, Fabrício leciona para diversas faixas etárias, desde os iniciantes, até o grupo mais avançado e conta que o diferencial de seus alunos no Ballet Paraisópolis é a vontade de estar ali. O professor explica que, quando a criança decide desistir, ela sai sem pressão e chama isso de “seleção natural”, no qual a criança percebe que não é a realidade que ela quer investir ou que não é para o corpo dela. A disciplina e dedicação também é um fator que separa o joio do trigo.

Fabrício trabalha em suas aulas a autonomia dos corpos, para que sejam corpos questionadores. “Antes de pensar técnica, eu penso que estes corpos estão neste contexto, dentro dessa comunidade. Eu preciso criar autonomia nesses corpos, para que sejam corpos que questionem, que façam a reflexão sobre o mundo, não só sobre a dança”, explica. O professor não vê a profissão apenas como repassar técnicas de danças, mas sim um meio de entender a questão social na construção do indivíduo que está na sua aula. “Não somos psicólogos, terapeutas, mas nós somos educadores. E a função do arte educador, no meu caso, é de criar esses corpos críticos e autônomos. Eu entendo porque esse processo existe, eu crio mecanismos pro meu corpo poder executar e estar disposto para essa técnica”.

A função do arte educador, no meu caso, é de criar esses corpos críticos e autônomos.

E a troca de informações é recíproca. Fabrício afirma que os alunos trazem uma noção de vida que ele nunca teve. “Acho que durante os 8 anos que eu estudei música e canto, eu não aproveitei o que eles me mostram o que é aproveitar. Existe uma dinâmica aqui, um processo das coisas acontecerem, que é muito louvável, sabe? O projeto só existe porque essa ligação entre eles e nós esta ativa, viva”, conta.

 

PROJETOS FUTUROS

Desde a sua criação, o Ballet Paraisópolis já atendeu 5 mil crianças e adolescentes. Para 2018, novas ações já estão sendo estudadas. Monica classifica como “sonho” sua vontade de expandir o projeto a pessoas com deficiência e pais, que já expressaram interesse. Uma das ideias é manter o projeto aberto à noite, para receber adultos interessados em praticar yoga, dança de salão ou até mesmo fazer alongamento.

Já para o projeto das pessoas com deficiência, que está sendo escrito, a dificuldade é um pouco maior: “o prédio que eu estou é alugado. Eu preciso de verba para adequá-lo, com acessibilidade, para depois implantar o projeto”, explica. Os ensaios para a participação, em julho, do festival de dança em Joinville, o maior da América Latina, já está a todo vapor. Se forem aprovados, serão 20 bailarinos aproveitando pela primeira vez uma viagem para longe. A ida para o Carnaval 2019 também já está nos planos: “foi uma experiência bárbara e a gente não quer parar aqui”.

Gostou dessa matéria? Compartilhe.
Tags

. .

  • Karina Morillo

    Que exemplo <3