Conheça 5 Pesquisas Brasileiras Propondo Inovações Para Proteção Ambiental

Em maio de 2019, a professora Heloísa Agudo notou, nas redes sociais, uma onda de desinformação a respeito das universidades federais brasileiras. Incomodada com as “tentativas de desqualificação do trabalho e da importância dessas instituições”, ela tomou uma atitude: decidiu que ajudaria a divulgar as produções científicas feitas no país. A partir de então, passou a publicar todos os dias, em seu perfil no Facebook, notícias sobre as pesquisas realizadas nas universidades públicas. “Por ser professora, acredito que só se combate ignorância com conhecimento, e postar essas notícias é uma forma de veicular o conhecimento”, explica.

Naquele mês, o Ministério da Educação anunciou um bloqueio de 30% das verbas destinadas à educação pública superior. A quantia bloqueada equivalia a R$ 5,8 bilhões e afetava as universidades no pagamento dos gastos discricionários, como compra e manutenção de equipamentos, água e luz, entre outros. Algumas instituições, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), chegaram a indicar que poderiam paralisar os serviços por conta da situação orçamentária. Contudo, Heloísa afirma que sua intenção não é especificamente criticar o governo, mas sim “contribuir para a valorização das instituições públicas de ensino e pesquisa”.

A professora vem cumprindo seu objetivo há mais de 200 dias. Pelo seu perfil, já passaram pesquisas sobre saúde, biologia, humanidades, sustentabilidade e meio ambiente. Heloísa diz estar impressionada com a quantidade e a qualidade das produções acadêmicas, e destaca que os trabalhos que divulga são apenas uma fração do que é feito nas universidades. “Estou compartilhando as pesquisas mais simples de serem entendidas pelas pessoas em geral, mesmo com baixa escolaridade”, conta ela.

 

Menos lixo

Uma das notícias compartilhadas por Heloísa é sobre um sachê biodegradável para embalar alimentos. Desenvolvido pela equipe da professora Vilásia Martins, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), ele permite o preparo de café e de outros solúveis sem gerar nenhum resíduo. O funcionamento é simples: basta despejar água quente sobre o sachê e ele se dissolve sem interferir no sabor da bebida. A embalagem pode ser utilizada, também, para conter alimentos secos que precisem ser reidratados.

A matéria-prima do sachê é a semente de chia. Vilásia conta que a mucilagem (substância gelatinosa responsável por reter água em algumas plantas) dessa semente possibilita a produção de um filme altamente solúvel. “Quando percebemos isso, pensamos em criar algo de maior conveniência para o consumidor”, afirma. Desta forma, o trabalho resultou na embalagem comestível, que é prática e não causa impacto ambiental algum.

Vilásia acredita que estamos no caminho certo para a conscientização sobre os efeitos danosos do uso de plástico. Ela aponta algumas iniciativas como sinais de que está crescendo a preocupação com a poluição global. Supermercados que deixaram de oferecer sacolas plásticas, por exemplo. Apesar disso, ela não enxerga essa preocupação sendo aplicada na prática em larga escala. “Acredito que as indústrias irão se importar de verdade somente quando o plástico sintético for proibido ou limitado”, diz.


E menos plástico

De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 8 milhões de toneladas de plástico são descartadas por ano no mar. Seguindo esse ritmo, até 2050 pode haver mais plástico do que peixes no oceano. Embora o cenário seja de emergência, uma pesquisa brasileira é motivo de otimismo. A pós-graduanda Ana Cecília Lobato desenvolveu, numa parceria entre o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), um filme biodegradável proveniente do cará, tubérculo muito consumido na região Nordeste.

De aparência semelhante a um plástico amarelado, o produto serve para embalar frutas e fazer sacolas, por exemplo. Por ser comestível, não causa dano aos animais caso seja irregularmente descartado em rios ou igarapés. De qualquer modo, dura apenas 90 dias, enquanto o plástico tradicional leva cerca de 200 anos para se decompor. Até chegar ao resultado final, foram testadas diversas matérias-primas, como mandioca e batata-doce. O amido do cará mostrou-se a melhor opção por fazer, com 1g, a mesma quantidade de filme que 5g de outros alimentos. Agora, a equipe está tentando deixar o filme transparente para aumentar sua chance de aceitação no mercado consumidor. “As pessoas tendem a querer algo parecido com o plástico, que é muito consolidado”, explica a pesquisadora.

Mas a aparência física do produto não é o único desafio para que ele ganhe as prateleiras dos supermercados. Ana Cecília cita outros entraves, como o custo de produção do filme, que é elevado em relação ao do plástico – principalmente porque este último recebe uma série de subsídios em sua rede de extração e produção. Em virtude disso, a indústria tende a não se interessar pela ideia, uma vez que teria seus lucros reduzidos. Contudo, Ana afirma que um de seus objetivos no doutorado é descobrir maneiras de baratear a produção. Além do impacto positivo para o meio ambiente, a aceitação do filme de cará estimularia a agricultura local, que, segundo Ana, vem diminuindo a produção do tubérculo. Dessa forma, a pesquisa representa uma oportunidade também à economia, que seria aquecida caso o filme fosse produzido em larga escala.


Mitigando a crise climática 

Para garantir uma produção menos impactante possível é fundamental que o plantio não somente do cará, mas de todas as outras culturas agrícolas, seja feito da forma correta. Isso porque o solo desempenha um papel muito importante contra o aquecimento global: ele ajuda a conter o aumento das temperaturas graças à sua capacidade de estocar carbono.

Pensando nisso, um grupo de pesquisadores do Departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa (UFV) elaborou um mapa abrangendo os mais de 8 milhões de quilômetros quadrados do Brasil, analisando a quantidade de carbono estocada nos diferentes tipos de solos e em diversas profundidades. “O carbono penetra o solo sempre que algo morto cai no chão, como um animal, um galho ou as folhas das árvores”, explica o professor Elpídio Inácio Fernandes Filho, que orientou o estudo.

Vale ressaltar que todo material orgânico presente nos seres vivos é composto por cadeias de carbono. Quando uma folha cai no chão, por exemplo, parte de suas moléculas são levadas ao fundo da terra pela ação da chuva e de minhocas. Desse modo, o carbono fica armazenado no subterrâneo. Para aproveitar essa vantagem natural que a Natureza oferece, é necessário manter os solos com alta concentração de carbono preservados.

Alguns usos incorretos da terra contribuem para a liberação de gás carbônico e, consequentemente, para o aquecimento do planeta. As queimadas são um exemplo de atividade ruim, uma vez que fazem o carbono armazenado entrar em combustão e se transformar em CO2. Na direção oposta a essas práticas nocivas, vem crescendo um tipo de cultivo chamado plantio direto, que favorece a estocagem do elemento no solo. Nessa cultura, o plantio é feito sem as etapas de aragem e gradeio da terra, mantendo-a coberta por resíduos orgânicos de difícil decomposição.

Já existia um mapa de estocagem de carbono no Brasil, mas esta é a primeira vez em que são medidos os índices de concentração em até um metro de profundidade. Além disso, o trabalho desenvolvido na UFV possui ineditismo em relação à complexidade, uma vez que foram consideradas as variedades de solo existentes em cada bioma brasileiro.

Para os pesquisadores, a principal contribuição oferecida por este mapeamento é sua capacidade de reforçar quais são as localidades onde a preservação é essencial. O estudo revelou que um terço dos solos com maiores níveis de carbono armazenado coincidem com áreas de proteção ambiental e reservas indígenas. “Hoje, mais do que nunca, pessoas acreditam que é preciso derrubar as florestas para que o país se desenvolva”, diz Elpídio, “então, esse estudo permite que sejam pensadas ações estratégicas para que essas áreas sejam mantidas intactas”.

 

Novas fontes de energia

Muitos estudos compartilhados por Heloísa têm essa característica em comum: a busca por soluções inovadoras que auxiliem na redução de impactos socioambientais nocivos. Uma professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) desenvolveu um método para gerar energia elétrica a partir do esgoto. A aplicabilidade da técnica é tão grande, que é possível até mesmo carregar celulares com a eletricidade produzida. Para chegar a este resultado, a professora Fernanda Lobo criou um sistema semelhante a uma pilha. Acoplados a um cubo de acrílico, dois eletrodos transformam a energia química em energia elétrica. É importante destacar que os testes iniciais foram feitos numa universidade dos Estados Unidos, mas que terão continuidade na UFC.

O experimento é relevante em dois aspectos: o primeiro está relacionado à produção mais limpa de energia, isto é, sem causar prejuízos sociais ou a ecossistemas. A Usina Hidrelétrica de Belo Monte, cuja última turbina foi ativada em novembro, representou o “fim do mundo” para os indígenas do povo juruna, por exemplo. A obra, que recebeu aproximadamente R$ 40 bilhões em recursos públicos e privados, impactou consideravelmente a vida das aldeias da região, que tiveram seu cotidiano modificado e o acesso à água reduzido.

Outro fator que confere importância aos resultados obtidos por Fernanda é, também, social. De acordo com dados do Instituto Trata Brasil, somente 52,36% da população brasileira têm acesso à coleta de esgoto. No Nordeste, onde está localizada a UFC, a porcentagem é ainda menor: 27%. Ao indicar o esgoto como possível fonte de energia, a pesquisa transforma a coleta em possibilidade de lucro, colocando o problema em evidência.

 

Para tirar algo bom de uma tragédia

Procurar fontes limpas de energia é ainda mais urgente quando levado em consideração o que ocorreu no litoral brasileiro em 2019. Praias de aproximadamente 130 municípios foram contaminadas por conta de um vazamento de petróleo. O Ibama identificou ao menos 158 tartarugas e aves afetadas, sem contar os peixes e animais menores, cuja perda é impossível de ser mensurada. Com a ajuda de voluntários, foram retiradas mais de 4,5 mil toneladas de óleo do mar. Isso equivale ao peso de quase 300 caminhões de carga.

Parte desse óleo encontrou seu destino na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde foi transformado em carvão por pesquisadores do Instituto de Química. Bioativadores criados na própria universidade são capazes de acelerar a degradação da matéria orgânica, levando cerca de uma hora para completar o processo. Ao final, tem-se um carvão criado de forma limpa, sem liberar gases estufa e sem agredir o meio ambiente.

Desde que passou a postar uma notícia científica por dia, Heloísa ficou maravilhada com a capacidade do Brasil de produzir conhecimento. “Isso demonstra a força da ciência brasileira, apesar dos parcos recursos”, diz. A depender da criatividade e inteligência dos pesquisadores e pesquisadoras das universidades públicas, ela não encontrará dificuldade para chegar aos 365 dias (ou até mais) divulgando ideias inovadoras.

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Matéria escrita por Davi Medeiros como parte da nossa iniciativa Seja Uma Autora, responsável por fomentar e ampliar a diversidade de vozes, pautas e pontos de vista no Modefica. 

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