Por Que Comprar Cosméticos Cruelty-Free Não É Tão Simples Quanto Parece

Viver um estilo de vida vegan, sem produtos de origem animal o máximo possível não se resume apenas a escolhas alimentares. Tentamos considerar as implicações éticas de qualquer compra e como a produção de um produto pode impactar os animais e o meio ambiente. Naturalmente, isso significa abster-se de ingredientes animais em nossos produtos (sem lanolina em nosso creme para as mãos, obrigada!), Mas também significa buscar marcas sem crueldade que não façam testes em animais em todas as fases do processo de produção – pela própria empresa ou por um terceiro.

Condenar os testes com animais, especialmente quando se trata de itens de luxo como cosméticos, é fácil, até mesmo para aqueles que são céticos em relação a uma alimentação baseada em plantas. No entanto, comprar livre de crueldade é inteiramente uma outra questão. Na maioria dos lugares, o termo “livre de crueldade” não é claramente definido por lei, deixando a cargo dos consumidores e grupos de direitos dos animais analisar por meio das políticas de cada cidade ou país, além da posição e políticas das próprias empresas, passando por relatórios, promessas e rótulos, se um produto é ou não é livre de crueldade.

Grupos Controladores (ou Empresas Mãe)

As questões são complicadas quando as empresas vendem produtos internacionalmente (o que significa que devemos informar-nos com as políticas de testes animais de outros países) e quando as empresas que se identificam como uma empresa livre de crueldade são propriedade de uma empresa maior, que não é livre de crueldade e/ou vendem seus produtos em países que exigem testes em animais.

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Além disso, o site da empresa nem sempre é uma fonte confiável para obter informações quando se trata de determinar como a empresa se posiciona com relação aos testes em animais. Empresas de cosméticos que afirmam não testar em animais “exceto quando exigido por lei” estão provavelmente referindo-se à venda de produtos na China onde os testes com animais são exigidos por lei. Felizmente, a China está considerando alternativas aos testes em animais que poderiam reduzir, se não eliminar inteiramente, esta prática infeliz.

Escorregando Pelas Rachaduras

Mesmo quando as leis estão em vigor para limitar ou proibir produtos testados em animais em seu país de origem, os produtos [testados em animais] ainda podem atravessar pelas rachaduras. Por exemplo, apesar da proibição de comercialização da União Européia de cosméticos testados em animais, um comprador na Inglaterra pode encontrar marcas de cosméticos vendidas nas principais lojas britânicas que também são vendidas na China, incluindo Estée Lauder, Clarins e Revlon.

Mesmo as veganas mais comprometidas experimentam frustração tentando classificar tudo isso. Embora eu seja vegan por quase cinco anos, eu ainda tenho que permanecer nas pontas dos dedos, especialmente quando se trata de grandes empresas de cosméticos. Na semana passada, a Too Faced Cosmetics, um culto entre bloggers de beleza vegan nos Estados Unidos, foi comprada pela Estée Lauder.

[Nota da editora: recentemente, no Brasil, a Phoebo/Granado teve parte da empresa vendida para a empresa espanhola Puig, responsável por marcas como Prada, Paco Rabanne e Nina Ricci, que vendem seus produtos na China.]

 

 

Embora os representantes da Too Faced tenham anunciado que a marca permanecerá livre de crueldade e não venderá seus produtos na China, os fãs da Too Faced enfrentam a opção de apoiar ou não uma marca cujos lucros presumivelmente beneficiarão uma empresa-mãe (Estée Lauder) que permite testes em animais. Enquanto muitos compradores sem crueldade optarem por não comprar mais produtos da Too Faced, outros podem acreditar que a aquisição da Too Faced pela Estée Lauder permitirá que a mensagem da Too Faced, sem crueldade, alcance uma audiência maior e ganhe mais visibilidade entre todos os compradores – e talvez a Estée Lauder tomará nota e reconsiderará sua postura em testes com animais, um posicionamento suportado pelo próprio PETA.

Na verdade, não há uma resposta fácil, mesmo quando estamos conscientes da situação de uma empresa-mãe. Outras situações são menos transparentes e podem deixar os compradores sentindo que estão fazendo escolhas no escuro.

Como as Políticas de Testes Funcionam na Europa?

Em março deste ano, o advogado-geral Michal Bobek forneceu ao Tribunal Europeu o seu parecer jurídico sobre uma revisão judicial da proibição de comercialização de cosméticos testados em animais, aconselhando que os produtos cujos ingredientes tenham sido testados em animais fora da União Européia pudessem ser vendidos dentro dos países que formam o grupo.

Julia Baines, assessora de políticas científicas do PETA no Reino Unido, argumenta que este conselho “desrespeita a finalidade do regulamento de cosméticos, que é garantir a segurança dos produtos cosméticos e seus ingredientes usando apenas métodos humanos não-animais”. No mercado da União Européia, explica Baines, os consumidores podem ser induzidos ao erro por produtos rotulados como “livres de crueldade” [mesmo com ingredientes testados em animais em outros lugares].

[Nota da editora: No Brasil, para produtos cosméticos e de higiene, testes em animais, com excessão do Estado de São Paulo, são permitidos em todo território nacional. Assim como a venda de produtos testados ou que contenham matérias-primas testadas em animais também é. Dê preferência para marcas certificadas.]

Por Que Devemos Nos Importar?

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Se tudo isso faz você se sentir sem esperanças, ou se as nuances das compras livre de crueldade te desencadeiam apatia, eu entendo completamente porque eu mesma já me senti assim. No entanto, é importante manter a imagem do todo em mente.

Os testes com animais continuam a acontecer em larga escala – e é um negócio muito horroroso. Apenas em 2014, 3,87 milhões de testes científicos em animais ocorreram no Reino Unido. Baines destaca quão brutal esses testes podem ser:

“Os testes envolvendo ‘dor moderada e angústia’ podem incluir, por exemplo, procedimentos cirúrgicos tais como craniotomia (remoção de uma porção do crânio), ‘testes de toxicidade crônica’, desde que não resultem em morte e ‘usando gaiolas metabólicas’ para restringir o movimento de um animal por até 5 dias. Enquanto isso, os procedimentos ‘severos’ podem incluir irradiação ou quimioterapia com uma dose letal, reproduzir deliberadamente animais para terem distúrbios genéticos dolorosos e envenenar animais com substâncias tóxicas até morrerem”.

Adicionado a esses episódios terríveis, está o fato de que testes em animais é ultrapassado. Como Baines explica, testes em animais são “raramente relevantes” para o corpo humano. Nossa fisiologia é muito diferente, digamos, da fisiologia de um rato. Não só a prática perpetua crueldade, como também é um desperdício de tempo e recursos em muitos casos. Simplificando, é ciência subdesenvolvida.

O Que Você Pode Fazer?

Antes de fazer compras, consulte o banco de dados sobre marcas cruelty-free do PETA [no Brasil é possível consultar também a lista do Pea]. Familiarize-se com marcas que não testam em animais, mas tenha em mente que as marcas podem mudar de mãos. Se uma marca é comprada por outra empresa, tente descobrir como isso afetará sua posição em testes com animais.

Apoie as marcas independentes. Marcas de cosméticos naturais e que evitam o uso de ingredientes sintéticos são suscetíveis a se abster de testes em animais. Procure também produtos com certificações. Não desanime. Nós todos provavelmente já compramos algo de uma marca e mais tarde percebemos que a marca não era livre de crueldade. O importante é seguir em frente e continuar a procurar marcas confiáveis.

[Você também pode assinar e compartilhar petições, apoiar quem está lutando pelo fim dos testes em animais e buscando alternativas. Não deixe de entender e se engajar na causa.]

Imagens: Reprodução

Por: Mary Hood Luttrell, uma entusiasta de beleza vegana vivendo em Corpus Christi, Texas com seu marido e seu adorável gato. Mary gosta de cozinhar pratos cheios de vegetais e praticar ioga e balé. Ela é editora de beleza do Peaceful Dumpling e escritora na Barbara Michelle Jacobs e Debb Report.

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