Precisamos De Uma Nova Linguagem Sobre O Fim

Por que, quando um relacionamento termina, dizemos que ele “deu errado”? Por que a única alternativa que “dá certo” é se as pessoas ficam juntas para sempre? Um divórcio depois de um longo e ótimo casamento é um sinal de fracasso? Três meses de amor intenso seguidos de um término porque uma das pessoas se mudou para outro país são invalidados porque não há mais relacionamento?

Para escrever esse artigo, recorri ao Google para procurar “breakup statistics” (algo como “estatísticas de términos”). Como era de se esperar, cada estudo aponta uma coisa diferente: uma pesquisa da Cosmopolitan constata que a maior parte dos casais termina simplesmente porque o amor acabou; o site YourTango.com aponta problemas de comunicação como a causa principal; o app WotWentWrong traz as informações mais variadas e específicas, dividindo por tempo de relacionamento, tipo de problema, etc. De qualquer forma, a razão principal nunca é “o relacionamento era todo horrível, péssimo, um total e completo e absoluto fracasso de relação entre duas pessoas”. A razão costuma ser algo que impediu que o relacionamento continuasse, mas não algo que necessariamente teria impedido ele de começar – até esse ponto, o relacionamento estava, para todos os efeitos, “dando certo”.

As estatísticas mostram que 85% por cento dos relacionamentos terminam. Os outros 15% seriam relacionamentos só não “eternos” por serem limitados pela morte, cumprindo a promessa católica “até que a morte nos separe”. Por que a separação pela morte é nobre, mas a separação pelo bem mútuo do casal não é?

Uma amiga recentemente terminou um relacionamento. Na conversa do término, o namorado declarou: “todo relacionamento dá errado”. Por que estagnar a narrativa sobre relacionamentos nessa dualidade dar certo x dar errado, numa busca por um relacionamento que só vale a pena se for eterno? Amor é um assunto que entusiasma leigos e acadêmicos em igual medida, e o que determina esse certo/errado é bastante discutido nos círculos da psicologia – uma rápida pesquisa me mostrou que os estudiosos parecem identificar esse sucesso/fracasso com base nas mudanças da combinação de elementos do amor que já apresentei aqui, como se uma combinação específica fosse melhor do que as outras.

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Além do Google, recorri às amigas para escrever essa pauta – fim de namoro é um assunto que sempre dá pano pra manga, e as histórias e crenças e teorias foram surgindo sem parar. Depois de muitas voltas em círculos nas mesmas questões, uma das amigas propôs uma perspectiva diferente: em vez de considerar o relacionamento como sucesso ou fracasso, colocando-o como um objetivo a ser alcançado, poderíamos considerá-lo como um processo, uma construção? Não como algo que pode dar certo ou errado, mas como algo que está acontecendo, e tem pontos positivos, e pontos negativos, e em algum momento vai acabar, mas importante por sua construção, e sua transformação constante, até mesmo eterna, se nos encaixarmos nos 15%. Relacionamentos que podem acabar bem, acabar mal, mas que existem/existiram e são válidos em sua existência.

Esse tipo de transformação na linguagem do sucesso e do fracasso vem sido discutida também em outros âmbitos: no campo profissional criativo, por exemplo, é um assunto recorrente. Máximas como “done is better than perfect” (“pronto é melhor do que perfeito”) tentam trazer um senso de sucesso desvinculado à perfeição, com o foco no que você faz e não no objetivo idealizado. O Como Matar um Projeto, da Contente, também aborda o assunto, ensinando a aceitar que uma ideia chegou ao fim e isso não necessariamente quer dizer que ela “deu errado”.

Proponho, então, uma nova forma de tratar os relacionamentos e seus fins: parar de categorizá-los como falhas de um objetivo único e singular de um modelo de relacionamento; deixar de vê-los como perdas e desperdícios só porque o final foi ruim; não mais jogar fora o que passamos e crescemos ao lado de alguém apenas porque o final não foi como esperávamos.

Imagem: Minimal Movie Posters // 500 Dias Com Ela // Reprodução

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  • Júlia D’Alkmin

    Sofia, obrigada pelo seu início de discussão. Eu adorei a maneira como você construiu o texto. Você não foi para o clássico “que seja eterno enquanto dure”, algo que eu, infelizmente já utilizei.

    Relacionamentos são processos de vida, construções de vida que utilizam todo o nosso ser, todo o nosso conhecimento, inteligência emocional para existir e continuar existindo. E também é um processo de se conhecer e conhecer ao outro nas inúmeras situações que a vida trás e leva.

    Você conseguiu colocar em palavras o que eu sinto frequentemente: que estamos em processo. E não que um relacionamento declarado, colocado no status do Facebook pode ser reduzido a uma pergunta com apenas duas respostas.

    O relacionamento entre pessoas tem que ser algo mutável. E ainda bem! Já pensou ficar com alguém e você ser sempre você e outra pessoa ser sempre a mesma pessoa? Num mundo que muda tudo a toda hora?

    Acredito que a grande questão de ser um relacionamento entra ou não nesses mágicos 15% está em como duas pessoas tem a habilidade de mudar, cada um a sua maneira e mudar juntos a construção do relacionamento único que elas tem. Elas tem o contrato do imóvel, as ferramentas na mão para botar a mão em cada reforme que vier pelo caminho. E nisso, construir uma parceira à maneira delas. Ao amor que elas escolheram colocar na vida delas.

    O chato desses estudos, e também daquela americana que desvendou as 33 perguntas para se apaixonar por alguém é que elas querem deixar todo mundo numa média existencial a ponto de provar matematicamente uma fórmula para curar os ansiosos, quando, na verdade, cada um constrói o amor que acha que merece.

    (sim, é daquele filme teenager).

    Obrigada, Sofia, por elucidar que a individualidade e o amor caminham juntos e se constroem belamente, brick by brick em cada relação humana existente e que virá a ser.