“Preta, Vem de Bike” Quer Poder, Liberdade (e Bike) Para Mulher Preta

Bike é igual à liberdade. E liberdade tem tudo a ver com a mulher negra. Ou, pelo menos, deveria. Se voltarmos um pouco na história da mulher e do mundo, lá pro final do século XIX, vamos nos deparar com a bicicleta como sinônimo de emancipação e movimento. Uma época em que o público feminino se via em meio a lutas e conquistas de direitos, como o voto, onde o sonho de construir uma sociedade mais igualitária e justa estava efervescente. 

O contexto era bem propício e essas mulheres enxergaram na bicicleta uma nova forma de ir e vir na vida cotidiana. Com a ajuda de John Kemp Starley, que em 1885 criou um modelo mais moderno de bicicleta, diferente da romântica (e desconfortável para as mulheres) penny-farthing, aquela estilo vintage com a roda dianteira bem mais alta do que a traseira, a bicicleta virou uma grande aliada das mulheres e do movimento feminista.

Tanto para se exercitarem quanto para se locomoverem, as mulheres adotaram a bicicleta como meio de transporte e símbolo das sufragistas. O uso da bicicleta veio junto com o enfrentamento de outros padrões impostos às mulheres, inclusive na moda. A prática de andar de bike trouxe também a liberdade na vestimenta. Looks mais práticos, como a calça comprida, começaram a ser adotados e também se tornaram símbolo de enfrentamento.

 


Mesmo desconfortável, as mulheres já usávam a bicicleta penny-farthing. Mas tudo ficou mais fácil com a invenção de John Starley // Reprodução

 

Como bem disse a feminista americana Susan Anthony, uma importante defensora dos direitos da mulher quando elas eram tidas como cidadãs de terceira classe, o ato de andar de bicicleta fez mais pela emancipação feminina do que qualquer outra coisa no mundo por causa da total autonomia e sensação libertadora, igualitária e niveladora experimentadas quando se pedalava. Elisabeth Staton, companheira de Susan na luta pelos direitos, afirmou que as mulheres, literalmente, pedalaram em direção ao sufrágio, o tão desejado voto.

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Mas o que o a mulher preta e o “Preta, Vem de Bike” têm a ver com isso?

Rolê ativista, feminista, empoderado

Lutar pela representatividade feminina na mobilidade urbana, ampliar as vozes das mulheres negras, ocupar espaços tendo a bicicleta como meio de transporte e, mais do que isso, como instrumento de empoderamento dentro da comunidade é a bandeira levantada pelo “Preta, Vem de Bike”. A ação criada por Lívia Suarez, Jamile Santana e Maylu Isabel, fundadoras da ONG Movimenta La Frida, em prol do cicloativismo negro, guarda semelhanças com o desejo de liberdade e emancipação das sufragistas do século XIX.

O ponto de partida dessas 3 mulheres foi lançar um novo olhar sobre a mulher pobre, sobre as questões da economia social, do empoderamento e principalmente do olhar racista das cidades. O questionamento busca levar a um caminho bem interessante: a utilização da bicicleta como ferramenta de autonomia para as mulheres negras na locomoção e na diminuição dos gastos com passagens no transporte público.

Com o apoio do Itaú e a parceria do projeto Bike Anjo, o “Preta, Vem de Bike” começou ensinando mais de 100 mulheres a andar de bicicleta em Salvador, cidade na qual tudo teve início em 2015. As aulas ofertadas pela “Preta, Vem de Bike” estimulam mulheres de diversas idades a usar a bike como instrumento de poder, exercer seus direitos básicos como o de locomoção, correr atrás da realização de seus sonhos e enxergar seu valor, conectando a bicicleta a todos os aspectos de suas rotinas.

Para o “Preta, Vem de Bike”, ensinar a pedalar passa também por quebrar paradigmas e desmistificar o machismo enraizado nas comunidades, responsável por fazer mulheres acreditarem que bicicleta não é coisa de menina, além fortalecer as novas ciclistas para desconstruírem o preconceito e driblarem o assédio, muitas vezes relatado pelas mulheres que se movem de bike pelos centros urbanos.

 

Pedalar é igual à liberdade // Cortesia La Fidra

 

A ação conta com outros braços, como o “La Frida Bike Café Poético”, uma espécie de cafeteria e livraria ambulantes, que chama atenção por onde passa. O projeto de empreendedorismo móvel e orgânico está circulando pelas ruas e eventos culturais e expandindo as fronteiras de Salvador, quando elas tiveram a ideia de unir a bike, o delicioso gostinho de café e a atmosfera poética para dar poder à mulher negra, da periferia.

Para ver esse desejo ambicioso se tornando realidade, além do “Preta, Vem de Bike” e o“La Frida Bike Café Poético”, a ONG tem outras iniciativas como a “Bici La Frida”, cuja missão é lutar pela implantação de bicicletários em universidades e escolas públicas. Desde o lançamento do projeto, o grupo conseguiu também instalar mais de 10 bicicletários pela cidade e além. Elas já chegaram no interior do Estado e estão cruzando os limites territoriais para chegar em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza e Aracaju. E o “Sarau La Frida”, ação que leva, de forma itinerante, poesia para as ruas. Iniciativas que dão voz às pessoas e conquistam o território urbano.

 

Pedalar: quase um ato político

Por falta de oportunidade – leia-se: falta de dinheiro, de acesso e incentivo -, muitas pessoas não têm bicicleta, não sabem andar ou têm medo de pedalar pela cidade. Não é espantoso saber que esse grupo é majoritariamente composto por mulheres. Como revelou um levantamento feito pela Ciclocidade – Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo, mulheres ciclistas representam 14% do total de ciclistas na capital paulista, caindo para 9% em regiões periféricas.

Não só por incentivar a mobilidade através do uso da bicicleta, o La Frida merece destaque, mas também por favorecer a emancipação da mulher negra na sociedade, estimulando a representatividade feminina. E quando o foco é transformar e fazer o bem, o reconhecimento sempre vem: as fundadoras já foram premiadas pelo Think Olga como mulheres inspiradoras em 2016, receberam o Prêmio Antonieta de Barros para jovens negros comunicadores, o Prêmio Frida Found – coletivo de maior impacto mundial, e a menção honrosa no Prêmio Mobilidade 2017 na categoria Ação Educativa e de Sensibilização.

O maior objetivo do movimento é, com esse recorte racial e feminino, aproximar mulheres negras da bicicleta, conseguindo despertar essa memória afetiva que o equipamento traz e fazer com que as mulheres pedalem em busca da elevação da autoestima. O “Preta, Vem de Bike” nasce exatamente para ensinar mulheres negras da periferia e de comunidades quilombolas a pedalar, mostrando que a mobilidade urbana não é um privilégio da classe branca e elitizada, unindo inclusão social, igualdade étnica e de gênero.

 


 

Para ser um voluntário do “Preta, Vem de Bike” e fazer doações, acesse www.lafridabike.com e para acompanhar as novidades do movimento fique de olho no Facebook e no canal do YouTube.

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