Discussões Quentes e Estréias Imperdíveis Para As Mulheres No Cinema Em 2018

Janeiro é o mês ideal para arriscar previsões, então aqui vai a minha: 2018 será um ano e tanto para as mulheres do cinema e da televisão.

Depois de um 2017 no mínimo movimentado, em que o debate sobre assédio atingiu novo patamar, as últimas semanas já deixaram claro que o coro feminino por mudanças segue forte e motivado. Junta-se a isso um calendário de lançamentos aguardados e o resultado é um ano cheio de potencial para as mulheres – tanto as da tela quanto as da platéia.

 

#MeToo, #TimesUp e o futuro do debate sobre assédio

 As mulheres da indústria cinematográfica começaram 2018 mandando um recado: as discussões sobre assédio estão só começando. Logo no primeiro dia do ano, uma carta aberta anunciou a criação do Time’s Up, plano de ação pela igualdade de gênero do qual participam cerca de 300 mulheres do audiovisual, e que inclui um fundo destinado a ajudar legalmente mulheres de outras profissões que forem vítimas de assédio sexual (financiado por doações, o fundo já arrecadou mais de US$ 18 milhões). Na primeira cerimônia do ano, o Globo de Ouro, realizada no dia 7, atrizes usaram a moda como forma de protesto e vestiram preto para demonstrar apoio às mulheres que têm falado publicamente sobre o assunto.

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O feminismo esteve em pauta tanto no tapete vermelho quanto na premiação, com destaque para o discurso inspirado de Oprah Winfrey e a chamada de atenção de Natalie Portman ao apresentar somente homens entre os indicados para o prêmio de melhor direção. O barulho foi tanto que um grupo de mulheres francesas, entre elas a atriz Catherine Deneuve, divulgou uma carta criticando movimentos como #MeToo e #TimesUp pelo que consideram ser ataques à liberdade sexual e defendendo o direito dos homens de “importunar” as mulheres. O texto um tanto problemático provocou polêmica, assim como uma reportagem do site babe.net que detalhou a noite de uma jovem não identificada com o ator Aziz Ansari, e deixou leitores divididos quanto a se o caso configurava ou não assédio sexual.

Tudo isso só no primeiro mês do ano. Ou seja: as conversas difíceis – e necessárias – sobre os bastidores de Hollywood certamente vão continuar.

 

Diferença salarial e transparência

 Uma discussão antiga que promete ganhar fôlego é a diferença salarial entre homens e mulheres, uma realidade em Hollywood como nos demais mercados de trabalho.  O primeiro escândalo do ano já aconteceu, com a divulgação de que a atriz Michelle Williams ganhou apenas 1% do cachê do ator Mark Wahlberg para trabalhar na refilmagem do longa “Todo o Dinheiro do Mundo”, de Ridley Scott. Após críticas, Wahlberg doou o valor para o Time’s Up  – completos por mais US$ 500 mil doados pela agência William Morris, que representou os dois artistas em negociações claramente distintas.

Um detalhe chama especial atenção: de acordo com a revista The Hollywood Reporter, o caso de “Todo o Dinheiro do Mundo” foi longamente discutido em uma das reuniões do Time’s Up, grupo do qual Williams faz parte. Em outras palavras, parece haver um movimento entre as próprias atrizes de quebrar o tabu e falar – entre si e publicamente – sobre questões relativas a pagamento, na expectativa de que a transparência fortaleça as negociações em geral. Não é certo que vá funcionar, mas a velocidade e o grau das críticas a Wahlberg e à William Morris indicam que o momento é favorável às exigências femininas por salários justos.
 

Uma Dobra no Tempo: o filme mais importante do ano

Blockbusters de ficção científica estrelados por mulheres e dirigidos por cineastas negras não aparecem toda hora, e é por isso que “Uma Dobra no Tempo”, baseado na obra de Madeleine L’Engle, ganha o posto de filme mais importante do ano.

A diretora Ava DuVernay – dos ótimos “Selma: Uma Luta Pela Igualdade” (2014) e “A 13ª Emenda” (2016) -, entra agora para a história como a primeira mulher negra a dirigir um filme com orçamento superior a US$ 100 milhões com esse novo longa. Ao definir o elenco, ela primou pela diversidade que marca seu trabalho: escalou Oprah Winfrey, Reese Witherspoon, Mindy Kaling e a jovem Storm Reid, escolhida entre cerca de 70 atrizes para interpretar Meg Murry, esperta adolescente que viaja por outras dimensões para encontrar o pai desaparecido.
 


 

A equipe feminina ainda inclui a roteirista Jennifer Lee, que escreveu e codirigiu o sucesso “Frozen: Uma Aventura Congelante” (2013), e a produtora Catherine Hand, que desde 1979 busca adaptar a obra de L’Engle. A estreia será em 29 de março.

 
The Handmaid’s Tale chega à segunda temporada

Premiada com o Emmy e o Globo de Ouro, a série baseada em um livro de 1985, “O Conto da Aia” de Margaret Atwood, conseguiu como poucas catalisar o clima cultural, social e político do momento. Com Donald Trump na presidência dos Estados Unidos e parlamentares brasileiros buscando proibir o aborto até em casos de estupro, a sociedade distópica retratada em The Handmaid’s Tale pareceu dolorosamente próxima, e mulheres fantasiadas de aia ganharam seu lugar em manifestações pelo mundo.

Sabe-se pouco sobre a segunda temporada, que estreia em 25 de abril no serviço de streaming Hulu. Mas a expectativa é que a série continue ajudando a pautar a discussão feminista no audiovisual, auxiliada pela atuação impecável de Elisabeth Moss. Praised be!
 

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Cinema nacional feito por mulheres

Muitos dos filmes brasileiros mais aguardados de 2018 são dirigidos ou codirigidos por mulheres, a começar por “As Boas Maneiras”, longa de Juliana Rojas e Marco Dutra que foi premiado no Festival de Locarno. Fortalecendo o terror nacional, “As Boas Maneiras” acompanha a tentativa de Clara (Isabél Zuaa) em desvendar o estranho comportamento da patroa grávida, Ana (Marjorie Estiano). Outros lançamentos para não perder: “Cravo e Canela”, de Glenda Nicário e Ary Rosa; “Praça Paris”, de Lucia Murat; “Aos Teus Olhos”, de Carolina Jabor; e “SLAM: Voz de Levante”, de Tatiana Lohmann e Roberta Estrela D’Alva.

 


 

Mulheres na ação e na ficção científica

Depois do sucesso de “Mulher-Maravilha” (2017) e da nova trilogia Star Wars, outros filmes de ação e ficção científica protagonizados por mulheres chegarão aos cinemas. Entre os destaques estão “Tomb Raider: A Origem”, com Alicia Vikander; “Aniquilação”, com Natalie Portman; “Operação Red Sparrow”, com Jennifer Lawrence; “X-Men: Fênix Negra”, com Sophie Turner; “Proud Mary”, com Taraji P. Henson; e “Fast Color”, com Gugu Mbatha-Raw – este o único dirigido por mulher, Julia Hart. Na televisão, a atração imperdível é Jessica Jones, a série inspirada nos quadrinhos da Marvel e estrelada por Krysten Ritter. A segunda temporada, que estreia em 8 de março na Netflix, traz uma novidade: todos os 13 episódios foram dirigidos por mulheres.

 

Oscar, Cannes e as mulheres por trás das câmeras

Um debate mais frequente e mais público sobre a participação feminina no cinema pode causar a falsa impressão de que a mudança prática já chegou. Na realidade, estudos não têm apontado melhora significativa, e muitas das produções com protagonistas femininas que têm feito sucesso no cinema e na televisão continuam sendo majoritariamente masculinas por trás das câmeras. Será importante acompanhar como premiações como o Oscar e festivais como Cannes acolherão as mulheres este ano: o foco ficará apenas nas atrizes ou haverá um reconhecimento do trabalho de diretoras, roteiristas, diretoras de fotografia e outras profissionais? A conferir.

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