Silk Labo É Erotismo Japonês Feito Por Mulheres Para Mulheres

Você já deve ter visto alguma cena de sexo pouco saudável em um pornô japonês. Mas se não viu, normalmente é algo assim: quase sempre a mulher é colocada como um mero objeto que dá prazer, sendo humilhada física e/ou verbalmente, tendo seus pedidos como “pare” e “não quero” ignorados, e sendo levada a alguma posição sexual de desconforto ou dor. É praticamente uma cena de estupro que se tornou comum na pornografia japonesa.

Apesar de ser a quinta maior indústria pornográfica do mundo, lançando mais de 30 mil dvds por ano, a pornografia japonesa ainda é voltada inteiramente para o público masculino. Foi depois de perceber e estudar sobre essa carência que a diretora Eri Makino criou, em 1995, a Silk Labo, pornô feita por mulheres para colocar mulheres como protagonistas no sexo. A Silk Labo faz parte da produtora pornô Soft On Demand (SOD).

Em meio à crise da indústria pornô e suas dificuldades em se manter de pé frente a sites com pornografia gratuita, a Silk Labo veio para atender um nicho ignorado e subestimado. Os números das vendas dos dvds da empresa comprovam o quanto as mulheres estavam sedentas por enfim ter uma pornografia que as saciasse: enquanto, para ser um sucesso, um DVD pornô precisa vender 3 mil cópias, os DVDs da Silk Labo vendem em torno de 10 mil.

“O surgimento do pornô para as mulheres significa que as pessoas estão aceitando o fato de que também temos desejos sexuais”, contou à Vice uma das mulheres por trás da empresa.

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A CULTURA DO SEXO

A liberdade sexual da mulher e aceitação dos seus desejos ainda é vista com maus olhos e é pouco falada e debatida, ainda mais em um país extremamente patriarcal e tradicionalista como o Japão. Sexo no Japão é um tabu, um tema que não é trazido à tona em rodas de conversa, entre família e, muitas vezes, nem entre amigos.

A mulher japonesa ocupa o papel de submissa, dona de casa e responsável pela família, mesmo com a abertura e aderência de padrões mais liberais por parte dos mais jovens. Por isso, muitas mulheres japonesas não querem se casar, nem sequer namorar, por medo dessa “prisão”. O sentimento e demonstração de possessão é algo culturalmente aceito, visto como uma forma de preocupação e carinho, gerando em muitas mulheres o medo de se relacionar e a vontade de focar em outras áreas da vida, como amizade e carreira.

As cenas dos filmes da Silk Labo tem toque de corpos e preliminares // Reprodução
Em contraponto, a popularidade do pornô para mulheres surge para debater as questões femininas de desejo e de autoconhecimento. Nas narrativas da Silk Labo, pode-se ver traços do pornô tradicional, como o ciúmes, mas também existe abertura para um diálogo sobre prazer, contato visual e corporal, concessão e orgasmo. As mulheres dão prazer e também o recebem – sempre em relações heterossexuais.

PORNÔ POR ELAS

Na indústria doméstica, por lei, as genitálias são censuradas com mosaicos, mas é permitido insinuação de abuso sexual, sexo violento e humilhação da mulher. O prazer do homem acontece por meio do controle da relação e abuso da parceira. Esse “modelo” é inevitavelmente repassado para os jovens que reproduzem os comportamentos dos filmes na cama, com as parceiras, acreditando ser essa a maneira de ambas as partes alcançarem o prazer.

O homem do pornô tradicional não é bonito. Ele não tem um corpo musculoso e magro, rosto e cabelos no padrão de beleza nacional, sendo pouco atrativos para as mulheres. O foco é, quase sempre, na performance da atriz, sendo utilizado, inclusive, um recurso de filmagem em primeira pessoa, onde o corpo do homem é totalmente esquecido para mostrar apenas o da mulher recebendo o ato sexual.

A penetração – seja com o dedo ou pênis – forçada e bruta, a falta de preliminares e contato entre os corpos (comum no pornô para mostrar melhor o ato da penetração), além da falta de carinho e qualquer demonstração de afeto, são reclamações comuns das mulheres japonesas. Tudo isso leva a uma cultura sexual na qual o homem não pensa ou se interessa pelo prazer de sua parceira.

A aceitação pelo público e o crescente sucesso da Silk Labo aponta para uma sociedade que tem admitido e aceitado que mulheres têm desejos sexuais. Em eventos promovidos pela empresa, as mulheres ali presentes reconhecem terem se masturbado e consumido o erotismo presente nos DVDs com naturalidade e ainda são incentivadas a falarem sobre sua sexualidade e desejos.

DESCONSTRUINDO CONDUTAS

Diversos DVDs e coleções de livros, como Lições de Técnicas Secretas (Higi Denju, 1999 a 2009), e Kato 2000, de Kato Taka – famoso ator pornô -, foram bases para uma construção errônea de uma compreensão sobre sexo prazeroso. Foi aí que surgiu a cultura de inserir violentamente o dedo na vagina para forçar uma ejaculação rápida e bruta. A ação é repetida em diversos filmes pornôs tradicionais e também na vida de diversos casais.

Para driblar a censura e conseguir passar a mensagem, a Silk Labo usou da criatividade // Reprodução
Como forma de desconstruir esse “padrão”, a Silk Labo teve outra grande sacada: os DVDs how to (“como fazer” em tradução literal), que ensinam mulheres, homens e casais a dar prazer um ao outro de diversas maneiras. Como acontece a censura obrigatória das genitálias, a Silk Labo criou réplicas que vão desde papel machê a almofadas para realmente ensinar maneiras de tocar, masturbar e dar prazer principalmente à parceira.

O uso da camisinha é também uma forma de educar a população japonesa, já que muitas mulheres relataram nas pesquisas da empresa ser sempre um aborrecimento pedir para o companheiro utilizar o preservativo. A cena em que o homem coloca a camisinha é sempre bem visível desde o primeiro dvd produzido e recebeu uma resposta muito positiva do público. As mulheres relatam nas pesquisas ser tranquilizante poder ver o cuidado que o parceiro tem na hora de se relacionar sexualmente.

ALÉM DO DVD

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O sucesso da Silk Labo vem não só de uma nova visão sobre a pornografia, como também da utilização de eventos e mídias sociais para expandir a comunidade de fãs. A empresa cria eventos, proporcionando o encontro dos atores, os eromen (junção de “ero”, “erótico”, e “ikemen”, homens bonitos) com as fãs. Eles interagem, respondem perguntas, dão autógrafo, fazem competição de culinária para elas julgarem, abraçam e passam tempo juntos.

Nas mídias, o canal do Youtube e a conta no Twitter são atualizados com frequência. Sempre que um DVD está para ser lançado, alguns vídeos de bastidores e trailer do que esperar movimentam o interesse das fãs. No Twitter, a empresa sempre apresenta parte do cenário, imagens, informações da produção que está sendo feita e até mesmo faz recrutamento de novos atores. É lá também que as fãs interagem entre si, criam eventos online para assistir um dvd ao mesmo tempo e comentar juntas na rede.

A venda online se tornou bem comum nos últimos anos e, além de alcançar maior público, é um conforto para as mulheres que têm vergonha de comprar os DVDs em lojas físicas. Outro serviço oferecido pela empresa é o de encontro com seu eromen favorito. São encontros românticos em cafés, com uma leve dose de skinship (contato corpo a corpo), sem beijo ou sexo. É importante lembrar que o contato físico – e muitas vezes visual – no Japão não é tão comum como aqui. Então inclusos nesses encontros ações simples com o eromen, como segurar na mão, acariciar o cabelo e entrelaçar os braços.

SUJEITO MULHER

Na pornografia japonesa tradicional, a mulher é tida como objeto de desejo sexual, mas nos vídeos da Silk Labo, elas são sujeitos que exploram seu prazer, junto ao parceiro. O casal se comunica ao longo do ato sexual, evitando a linguagem forçada ou de desrespeito. Cenas em que o homem pergunta se ela está gostando e se está tudo bem, se ele pode penetrá-la são comuns nos vídeos. A mulher não é submissa, ela também aproveita o sexo, tocando seu parceiro, saciando seus desejos, ações raras nos pornôs tradicionais.

O que fazemos é um pouco diferente, nossos vídeos realizam desejos sexuais emocionais

A naturalidade na qual toda a narrativa acontece contrapõe as fantasias exageradas dos pornôs. Os atores são “pessoas comuns” e os enredos são situações cotidianas, com o propósito silencioso de dizer que todo aquele romance pode acontecer na vida real.

CONSTRUÇÃO DO OLHAR FEMININO

Um dos grandes contrastes neste pornô feminino é o direcionamento da imagem para o corpo do homem. Ao invés da câmera focar nos peitos das mulheres e na penetração, as cenas são gravadas de modo que os ombros, peitoral, costas e rostos dos homens apareçam, além do contanto visual entre o casal, para simbolizar não só a união física, mas também emocional. Eles promovem esta mudança de foco para que as mulheres tenham o direito de olhar para o corpo masculino sem medo.

Os eromen estão na lacuna entre o homem comum e os ídolos. Eles mantêm o corte de cabelo moderno e arrumado, possuem olhos grandes, não são muito magros, mas nem muito gordos, sem tatuagens e bronzeados artificiais comuns nos atores pornôs tradicionais, além de possuírem uma imagem sexual inocente que não as intimidam.

Na entrevista à Vice, a diretora dos filmes da Silk Labo, Eri Makino, comentou sobre a proposta dos vídeos: “nossos vídeos realizam o desejo de ser tratada com carinho pelo homem dos seus sonhos. […] Eu nem acho que seja considerado pornô, apenas se você considera a pornografia como ferramenta para masturbação. O que fazemos é um pouco diferente, nossos vídeos realizam desejos sexuais emocionais”.

Já um dos atores mais famosos da empresa, Itettsu Suzuki, afirmou que o intuito dos vídeos é aliviar o estresse do dia a dia com pseudoromances, na qual o homem nunca está de mau humor ou há outros problemas da vida real, como incompatibilidade de agenda. “São suplementes emocionais”, diz Suzuki.

Fontes:

Vice, Contos Eróticos Japoneses Para Mulheres.
Alexandra Hambleton, When Women Watch: The subversive potential of female-friendly pornography in Japan.
K. Jacobs, The Afterglow of Women’s Pornography in Post-Digital China.

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