Como as Mulheres Estão Transformando o Tapete Vermelho em Hollywood e Além

Cate Blanchett escolheu um belo vestido da Givenchy para comparecer ao prêmio do Sindicato dos Atores de 2014. No tapete vermelho, seguiu o script de sempre: posou para os fotógrafos, acenou para os fãs e se dirigiu aos jornalistas para as tradicionais entrevistas. Enquanto conversava com Giuliana Rancic, apresentadora do E!, a atriz notou que a câmera começava a descer de sua cabeça para seus pés, mostrando em detalhe cada parte de seu corpo. E eis que o script se quebrou: “Você também faz isso com os caras?”, perguntou ao cinegrafista.

Visto ao vivo pela televisão, este breve momento está no início de um movimento que explodiu na última temporada de premiações, encerrada no mês passado com a entrega do Oscar. Os prêmios em si não representaram grandes avanços, mas 2018 ficou marcado como o ano em que as mulheres se uniram para ressignificar o tapete vermelho.

 

A história do tapete

Símbolo do glamour e das estrelas do cinema, o red carpet começou a ser estendido em premières de Hollywood em 1922 e na cerimônia do Oscar a partir de 1961. A cobertura jornalística da chegada dos artistas à festa, conhecida como “pré-show”, ocorreu pela primeira vez em 1979 e começou a ganhar força no fim da década seguinte, alimentada pela popularidade da revista People (lançada em 1974) e pela chegada de canais como a MTV e o Movietime, que depois se tornaria E!. Mas foi nos anos 1990 que o tapete vermelho tornou-se uma vitrine poderosa e um negócio milionário para os estilistas, que abraçaram a oportunidade de vestir as atrizes mais importantes do momento em um dos eventos mais assistidos do planeta. Hoje, muitas marcas têm contratos exclusivos com artistas, como o da Dior com Jennifer Lawrence e o da Yves Saint Laurent com Jessica Chastain.

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É curioso notar como o tapete vermelho cresceu em importância e potencial de negócio, mas a cobertura jornalística não ganhou qualidade. Ao longo do tempo, o pré-show do Oscar e de outras premiações ficou marcado pela superficialidade e conhecido como um dos espaços mais escancaradamente desiguais no que diz respeito a gênero. Ano após ano, as estrelas, os jornalistas e o próprio público se acostumaram a ver homens serem questionados sobre seu trabalho, e mulheres sobre seu visual. “Quem você está usando?”, a clássica frase criada por Joan Rivers (1933-2014), geralmente marcava o início de uma conversa que apenas reforçava a já excessiva ênfase de Hollywood na aparência das atrizes.

Houve momentos em que o tapete vermelho foi palco de ativismo, geralmente com o uso de broches ligados a diferentes causas, dos direitos civis e LGBT ao combate à aids e à condenação de atos terroristas. Mas nenhuma mensagem foi tão claramente disseminada como a deste ano em prol da igualdade de gênero e em protesto contra o assédio.

 

Indo além da estética (feminina)

É claro que movimentos assim não acontecem de uma hora para outra, e pequenos atos de rebeldia como o de Cate Blanchett vinham acontecendo com mais frequência nos últimos anos. Um dos maiores símbolos da mudança em curso foi a extinção da chamada Mani Cam, uma espécie de maquete do tapete vermelho criada pelo E! na qual mulheres colocavam as mãos para mostrar a cor do esmalte e as joias. Introduzida em 2012, a novidade foi acumulando críticas conforme o debate sobre as mulheres no cinema se fortalecia. Em 2014, Elisabeth Moss ameaçou mostrar o dedo do meio para a Mani Cam. No ano seguinte, atrizes como Julianne Moore e Jennifer Aniston se recusaram a participar da “brincadeira”, que não voltou mais a aparecer.

 

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Na mesma época, o movimento #AskHerMore cobrou dos entrevistadores perguntas melhores às mulheres que passassem pelo tapete vermelho, e em 2017 foi extinto o Fashion Police, uma das principais atrações do E!, após episódios polêmicos deixarem claro que um programa dedicado a fazer comentários (muitas vezes maldosos) sobre a aparência das atrizes já não estava em sintonia com os tempos atuais.

Todas essas ações foram importantes para mostrar que as mulheres da indústria cinematográfica, assim com as da plateia, queriam um tapete vermelho com menos machismo e mais conteúdo. As redes sociais ajudaram a aumentar a pressão e o escrutínio sobre os apresentadores e as emissoras, já que cada interação equivocada era rapidamente compartilhada.

 

Ressignificando o potencial do tapete vermelho

O que 2018 trouxe de novo foi ampliar o foco desta ação e ressaltar que mudar o tapete vermelho vai além de mudar as perguntas feitas pelos entrevistadores. Ao usarem roupas pretas no Globo de Ouro para protestar contra o assédio (algo que se repetiu depois no Bafta, o Oscar do cinema britânico), as mulheres fizeram mais: inseriram seu discurso nas próprias roupas.

Foi uma forma interessante de evidenciar que promover a igualdade de gênero não significa eliminar toda e qualquer atenção dada aos vestidos. A moda é um interesse genuíno de muitas mulheres e não deveria haver contradição entre tal interesse e a causa feminista. Nos trajes pretos do Globo de Ouro, assim como nos coloridos do Oscar (que buscaram representar a diversidade das mulheres), os vestidos se integraram à causa. As mulheres não estavam ali apenas para serem olhadas, estavam ali para dizer algo – e diziam, também, com o que estavam vestindo.

Em outras palavras, as mulheres não abandonaram o tapete vermelho completamente, mas se reapropriaram dele – e, em certa medida, da própria moda. “A transformação de uma ocasião de entretenimento puro em uma oportunidade de estimular a mudança, como está acontecendo com o movimento #MeToo, é um ponto de virada”, escreveu o estilista Giorgio Armani, um dos que mais ajudou a elevar o red carpet ao negócio que é hoje, em artigo para o jornal britânico The Guardian. “Mas, em minha experiência pessoal, devo dizer que o tapete vermelho sempre foi uma oportunidade de desenvolver novas ideias e, portanto, progresso. Aliás, tudo que envolve estética e estilo têm um profundo impacto na sociedade. A moda antecipa mudanças, ou as facilita.”

A temporada 2018 deu sinais de uma nova consciência por parte das mulheres de Hollywood sobre o potencial da moda em passar uma mensagem. Resta saber se este poder continuará sendo usado daqui em diante, e para avançar que tipos de transformações sociais. A desigualdade de gênero provavelmente continuará em pauta, mas será que haverá, por exemplo, uma nova atenção às questões ligadas ao meio ambiente? Será que esta grande vitrine da indústria da moda e da beleza ajudará a propagar práticas, hábitos e consumos mais conscientes? Será que a própria escolha dos estilistas usados pelas estrelas seguirá um padrão inclusivo, com mais criações de mulheres, não brancos e de quem está fora do circuito EUA-Europa?

Tudo que envolve estética e estilo têm um profundo impacto na sociedade. A moda antecipa mudanças, ou as facilita.

Este momento de transição abre caminho para todo tipo de mudança, e eu pessoalmente gostaria de ver um posicionamento diferente também por parte dos homens. A despeito de usarem o broche do Time’s Up nas premiações, muitos dos atores e diretores não foram questionados nem se manifestaram espontaneamente sobre o assédio e a desigualdade de gênero, um silêncio que falou tão alto quanto a legião de vestidos pretos. Será que os homens também buscarão usar a moda para avançar suas ideias?

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Por fim, será que a cobertura jornalística conseguirá ficar à altura deste novo tapete vermelho? Minha torcida é por um pré-show menos padronizado e mais espontâneo, durante o qual artistas e entrevistadores se sintam à vontade para falar sobre diferentes temas – com a leveza que a ocasião pede, mas sem descambar para o bobinho. E talvez isso passe por renovar o próprio quadro de apresentadores, dando cara nova a um red carpet que finalmente é mais Me Too e menos Mani Cam.

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