Traidores Serão Sempre Traidores? Alguns Fatos Curiosos Sobre A Infidelidade

Existe algo de universal na experiência da traição: quase todo mundo que já esteve em um relacionamento romântico e/ou sexual traiu, foi traído ou, pelo menos, teve medo da traição. É, também, o fator considerado universalmente mais legítimo como o condutor do fim de um relacionamento: diversos comportamentos negativos são vistos, em sociedade, como perdoáveis, menos a traição. Quando ela é perdoada, é por um ato magnânimo da parte traída, por piedade, por sacrifício. É isso que todos os filmes, livros e novelas nos contam, é isso que todos nossos amigos dizem. Mas… por quê?

A imagem que temos da traição é intrinsecamente ligada ao ideal de relacionamento monogâmico: duas pessoas se envolvem, duas pessoas, por uma progressão supostamente natural, decidem ter um relacionamento romântico e sexual exclusivo, uma das pessoas se envolve romântica ou sexualmente com uma terceira, o relacionamento original se destrói.

Se a origem disso é simplesmente o desejo de se envolver com outras pessoas, a solução é simples: combinar um relacionamento aberto, de poliamor, da melhor forma para as pessoas envolvidas, sem as mentiras e a quebra de confiança da traição. Mas mesmo nesse tipo de relacionamento, há traição, porque traição não é simplesmente ficar com outra pessoa; traição é, na realidade, a quebra do acordo do relacionamento, qualquer que ele seja. Logo, um relacionamento aberto também não é imune à infidelidade.

Uma conhecida minha terminou um relacionamento por conta de traição. Ao contar para as amigas, elas se espantaram, afinal, o relacionamento dela era aberto, como poderia haver traição? No entanto, o combinado que ela tinha com seu principal parceiro era que o envolvimento sexual com outras pessoas era permitido, desde que sempre com camisinha e sem sexo oral, por razões de segurança e saúde. O parceiro tinha se encontrado com outra pessoa e, no calor do momento, praticado sexo oral. Quebra de acordo, quebra de confiança, traição, consequente término.

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Mas o que leva à traição, então, se ela pode ocorrer mesmo na não-monogamia? Por que é, ao mesmo tempo, tão frequente e tão demonizada? Como pode ser um comportamento tão recorrente, se todos veem como algo ruim?

Alguns estudos apontaram algo curioso: a recorrência da traição se retroalimenta. Quanto mais vemos pessoas traindo, mais acreditamos que traição é uma coisa normal e, portanto, não tão grave. Se no nosso círculo de amigos a traição é a norma, mesmo que nunca tenhamos traído ninguém, começamos a relativizar as coisas. Não pode ser tão ruim se todo mundo faz, certo?

Se meu amigo teve um relacionamento paralelo de três meses sem contar para a namorada com a qual tem um acordo monogâmico, qual o problema se eu passar duas horas bêbadas no motel com a garota que conheci na boate? Se meu outro amigo perdoou o namorado por uma série de pequenos casos, por que meu namorado não me perdoaria por só um caso, mesmo que mais longo? Continuamos identificando traição como algo negativo, mas o nível de gravidade diminui proporcionalmente ao aumento de traições que presenciamos.

Passando dessa etapa, digamos que a pessoa que trai acaba se envolvendo de forma mais séria com a pessoa com quem traiu. O relacionamento daí prossegue, com os combinados estabelecidos, monogâmicos ou não, mas sua origem foi uma traição. Se você não é a pessoa que inicialmente traiu, se você é a pessoa vista como “inocente”, você procura justificar a situação: ele não traiu por má índole, ele traiu sua antiga parceira comigo porque me amava, ele traiu sua antiga parceira comigo porque ela não o fazia feliz, ele traiu comigo porque estava insatisfeito mas, agora que me conheceu, sua vida mudou.

Bem, sinto informar que isso não parece ser exatamente verdade. Uma série de estudos comprovou que relacionamentos nascidos de uma traição provavelmente acabarão em outra. A pessoa que traiu originalmente tem mais tendência a se sentir insatisfeita e a procurar satisfação com outras pessoas, em outros arranjos, já que, na origem da primeira traição, estava uma insatisfação que não pode ser resolvida simplesmente encontrando outra pessoa para focar as expectativas.

Entretanto, vale ressaltar uma incoerência entre o estudo e a vida real: se cada vez mais pessoas traem, já que o contato com traição gera mais traição, e se relacionamentos nascidos de traição acabam em traição, um relacionamento sem traição parece estatisticamente improvável (não sou um ás da estatística, mas numa situação dessas, a improbabilidade me soa óbvia). Mesmo assim, várias pessoas têm relacionamentos felizes, satisfatórios, ou relacionamentos que um dia acabam por razões que nada têm a ver com traição ou quebra de confiança. Ou seja, não podemos também determinar, pelo menos não moralmente, que pessoas traidoras nunca terão bons relacionamentos, ou que pessoas cercadas de pessoas que traem serão necessariamente traidoras também.

O desejo de trair e o ato de trair são coisas diferentes, e a escolha de passar de um para o outro faz toda a diferença. No alto da minha torre do julgamento moral, parece claro que não se deve agir no desejo de trair, pois é necessário ter consideração e respeito pela pessoa com quem você firmou um acordo de relacionamento. Mas, na prática, na vida, as nuances começam a aparecer: os contextos, os atenuantes, os agravantes, as intenções, as ações, as reações, as consequências, tudo se somando e se enredando de forma a trazer à tona uma discussão possivelmente mais profunda e difícil do que parece. Por exemplo: um estudo entre pessoas adúlteras mostrou que 56% dos homens e 34% das mulheres consideravam o relacionamento original “feliz” ou “muito feliz”, e mesmo assim traíam – por quê?

A traição – em ato ou desejo, no caso – nos coloca em uma posição limite, nos força a questionar, dentro das particularidades de um relacionamento, o que nos levou àquela situação, o que gerou o desejo, o que impulsionou o ato, o que poderia ter sido diferente, o que teria sido igual de qualquer jeito, o que é daquele relacionamento, o que é daquela pessoa, o que é nosso, de onde vem a responsabilidade e de onde vem a culpa? Todas as perguntas que nos fazemos às três da manhã em uma insônia nervosa são jogadas na nossa cara como um waterboarding emocional, ao qual só temos como responder um inconclusivo “não sei”.

Imagem: Reprodução

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