Sobre Os Dias De Abandono

“Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar.” A frase abre o romance Dias de Abandono, de Elena Ferrante. O livro, publicado originalmente em 2002, acaba de chegar ao Brasil pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros. Com tradução de Francesca Cricelli e pouco mais de 180 páginas, cada parágrafo é um nocaute.

Depois de quinze anos de casamento, Mario anuncia a Olga que quer se separar. Não é uma decisão da qual a esposa participe, ela sequer havia se dado conta de que o casamento ia mal.

Narrado em primeira pessoa, como os demais livros de Ferrante, em Dias de Abandono seguimos intimamente a protagonista nos meses que se seguem à separação. O tempo se estica: da primavera ao outono, acompanhamos Olga no sentido oposto. Primeiro, tudo seca, desmorona. Aos poucos, no entanto, a vida se impõe e encontra uma nova ordem. Mas estou me adiantando: é justamente entre as estações que a história acontece.

Ferrante se concentra em narrar, com riqueza de detalhes, todo o desespero dos dias de abandono, a quase loucura que Olga vivencia quando tudo muda de lugar. Mario se apaixona por outra mulher, dezoito anos mais jovem. Que posição Olga passa a ocupar nessa nova configuração? Ela não é mais a esposa, deixou de trabalhar para acompanhá-lo, para cuidar da casa e dos filhos, como ele lhe pediu. Agora, não tem a que se apegar: as crianças carregam traços do marido, são como as cinzas de um casamento que não existe mais. Tem dificuldade de encontrar um espaço para acomodá-las: são seus, mas também dele. Ressente-se da maternidade, que lhe cobra afazeres diários em meio aos dias tortuosos de luto.

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Mas é a essa realidade que se apega quando se afasta de si, quando a loucura a espreita e lhe rouba o centro, dissolvendo seus contornos. Uma bonita e dolorosa ambivalência. Passear com o cachorro, lavar a roupa, separar as peças brancas das coloridas. O mundo externo lhe oferece algum conforto, uma ordem que lhe prende à vida. Mas o mundo interno está em chamas: Olga já não sabe quem é, o que quer, por que faz o que faz. Escapa de si, é invadida por outra. O romance reflete essa saída ao passar da primeira para a terceira pessoa, retomando em seguida a narração em primeira pessoa. Ferrante emprega a sua experiência como leitora e a sua habilidade como escritora para nos transmitir a vertigem que acomete Olga. É uma jornada impressionante.

Quem leu a Tetralogia Napolitana vai reconhecer nesse livro, que a antecede, muitos dos temas que Ferrante retoma com frequência em sua obra. Como a Lila da Tetralogia, Olga teme sua desintegração. Precisa pendurar uma pinça no braço para se lembrar de sua concretude, de sua condição de indivíduo. Em um dos momentos mais comoventes do livro, pede à filha Ilaria, de apenas sete anos, que a espete com um abridor de cartas cada vez que lhe parecer distraída. A menina, sensível como a mãe, funciona nessa passagem como o eixo que a traz de volta ao real, literalmente. Em certo momento, Olga vai para tão longe que Ilaria chega a machucá-la, abrindo um corte em sua perna.

Também como na Tetralogia, Olga examina seus escritos e se espanta consigo mesma. Em seu caderno de anotações, a personagem encontra trechos de Anna Karenina transcritos com sua própria letra, mas não se lembra de ter escrito aquilo. Pergunta-se: quem teria grifado os trechos de vermelho? Por que teria transcrito as passagens nesse caderno e não no outro, que usaria especificamente para essa finalidade? Reconhece sua letra, mas tem a impressão de que algumas anotações foram feitas por outra pessoa, como se usasse a mão esquerda.

Em História do Novo Sobrenome, segundo volume da Tetralogia Napolitana, a narradora Elena observa os cadernos secretos da amiga Lila e compartilha conosco suas impressões: “Frequentemente, as frases eram de extrema precisão, a pontuação muito cuidada, a grafia elegante como a que nos ensinara a professora Oliviero. Mas às vezes, como se uma droga lhe inundasse as veias, Lila parecia não suportar a ordem que se impusera. Tudo então se tornava árduo, as frases assumiam um ritmo sobressaltado, a pontuação desaparecia. Em geral, lhe bastava pouco para retomar o andamento largo e claro. Mas também acontecia de interromper-se bruscamente e preencher o resto da página com desenhinhos de árvores retorcidas, montanhas corcundas e fumegantes, caras assustadoras”.

Essa força misteriosa que atravessa Lila, Olga e Anna Karenina pode muito bem ser chamada de inconsciente. Uma parte do eu que nos pertence, mas que não acessamos, não somos inteiramente capazes de controlar. “O eu não é senhor em sua própria casa”, escreveu Freud, autor que Ferrante admite ter lido desde os dezesseis anos, com encantamento.

Olga experimenta na pele essa constatação. É assaltada por si mesma, por memórias e temores de infância. Passa a ter por companhia uma espécie de fantasma: a “pobre coitada” (poverella), uma mulher que conheceu quando criança e que a marcou profundamente. A “pobre coitada” foi abandonada pelo marido e definhou aos poucos, até enlouquecer completamente. Terminou se afogando em um rio de Nápoles.

Aos trinta e oito anos, agora vivendo em Turim, Olga reencontra o terror que sentiu três décadas antes. Está, portanto, acompanhada não apenas da pobre coitada, como também pela menina de oito anos que foi um dia. Quase a idade de Ilaria, com quem também se confunde. Perder os contornos significa se misturar à filha, à pobre coitada, deixar de ser Olga.

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De outro lado, aspectos muito corpóreos também a assombram. Examina minuciosamente seu corpo, estranhando-se, como não fazia antes. Larga-se, retorna e questiona: “No momento em que me apaixonei por Mario, comecei a temer que se enojasse de mim. Lavar o corpo, desodorizá-lo, apagar todos os vestígios desagradáveis da fisiologia. Levitar. Queria sair do chão, queria que me visse suspensa em equilíbrio, elevada, como acontece com as coisas integralmente boas. Eu não saía do banheiro até que não desaparecesse o mal cheiro, abria a torneira para que não ouvisse o barulho da urina. Esfregava-me, aparava, lavava os cabelos a cada dois dias. Pensava a beleza como um esforço constante de apagamento da corporalidade. Queria que amasse meu corpo esquecendo o sabor que carregam os corpos. A beleza, eu pensava ansiosamente, é esse esquecimento”.

Cada parágrafo de Dias de Abandono tem o poder de nos arrebatar. Algumas vezes, precisei prender a respiração, como em um mergulho. Poucos livros me causaram um mal-estar físico dessa proporção. Apesar disso, leria e o lerei novamente. É belíssimo.

Os objetos são personagens secundários essenciais: a fechadura, as chaves, o inseticida, o celular estilhaçado. “Fabricamos os objetos semelhantes aos nossos corpos, um lado complementar ao outro. Ou projetamos pensando-os unidos como nós nos unimos aos corpos desejados. Criaturas nascidas de uma fantasia banal”, reflete Olga. Tudo que Ferrante inclui em seu texto é por demais simbólico, nada parece sobrar. No final, é a um objeto que Olga atribui a qualidade de “conclusivo”: o bico do spray inseticida, deixado pelo vizinho, o músico Aldo Carrano, em seu capacho.

Os animais também ocupam papéis importantes. Principalmente o pastor alemão Otto, personagem-chave, que está no centro de um dos momentos mais dramáticos. O elo entre Olga e Otto é acidental, mas também profundo. A presença do pastor, e depois a sua ausência, perpassa toda a narrativa, costurando os acontecimentos. Nas páginas finais, quando Mario diz que gostaria de dar outro cachorro às crianças, ela lhe responde: “Eu não sou capaz de substituir”. Se o ex-marido a substituiu prontamente por Carla, Olga permanece leal ao cão morto. Antes, diz a Mario que foi ele quem causou o envenenamento do cachorro (“Descobri que você é um homem rude. As pessoas respondem à rudeza com maldade.”), depois pondera: “Ou talvez só fosse necessário um bode expiatório, mas como eu escapei, sobrou para o Otto”.

Há ainda o lagarto que invade o quarto das crianças, as formigas que formam trilhas pela casa. Os animais aparecem também como metáforas: “Eu era íntegra, e íntegra continuaria a ser. A quem me fez mal, devolvo na mesma moeda. Sou o oito de espadas, sou a vespa que pica, sou a cobra escura. Sou o animal invulnerável que atravessa o fogo sem se queimar”.

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O lagarto, aliás, representa uma passagem fundamental, quando Olga se vê sozinha com os filhos tendo que lidar com um temido intruso (tinha terror de “qualquer ser vivo que lembrasse remotamente um réptil”). Apesar de tê-lo enfrentado e vencido (“Eu o imobilizei num canto e o esmaguei pressionando todo meu corpo sobre o cabo da vassoura. Depois, com nojo, saí com a carniça do grande lagarto no lixo e disse: Está tudo certo, não precisamos do papai”.), aquele episódio marca o agravamento da crise de identidade que começa a experimentar. No lugar do sentimento de autonomia, de autoconfiança que o gesto poderia significar, a personagem parece invadida pelo senso de absurdo, pela fragilidade de sua condição. Ferrante não nos protege do desamparo.

Diz, primeiro sobre os filhos, depois sobre si: “Não me perguntaram nada, nenhuma explicação. Ambos voltaram para a cama assustados com a ideia de que sabe-se lá quantos outros animais do parque tivessem escalado até o nosso apartamento. Dormiram com dificuldade, ao acordarem os vi diferentes, como se tivessem descoberto que não havia mais um lugar seguro no mundo. Era, de resto, a mesma coisa que eu pensava”.

O lagarto de Dias de Abandono lembra a barata de A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector. A protagonista G.H. também tem uma experiência de perda de identidade após ter esmagado uma barata, e subitamente, em um ato impensado, comido a secreção branca expelida por ela. Em uma entrevista ao jornal italiano La Domenica, Ferrante citou Ovídio, Kafka e Clarice como precursores do tema da desintegração. Sobre Clarice e seu A Paixão Segundo G.H., usou o adjetivo “extraordinário”.

Ainda sobre referências literárias, podemos pensar em Esther Greenwood, personagem de A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath, e na narrativa de seu adoecimento mental, ou nos fluxos de consciência de Virginia Woolf. Devemos certamente pensar em Anna Karenina e em seus monólogos interiores, já que a personagem de Tolstói aparece explicitamente em momentos decisivos do romance, inclusive nas páginas finais.

Apesar das inúmeras referências, a escrita de Ferrante tem um frescor próprio. Há características que permeiam seus textos e os delimitam. Por exemplo, a forma como utiliza vírgula onde muitos autores utilizariam ponto final, o que demarca o ritmo da leitura, e o uso da linguística, e por que não da psicanálise, como elemento de integração entre diferentes passagens. Além disso, faz acrobacias narrativas que dá gosto de acompanhar: nos momentos de fúria, Olga é tomada por um “linguajar obsceno”, como ela mesma diz, que cede à medida que elabora o luto, que encontra saída de seu labirinto. Uma polifonia que diz respeito a uma única personagem.

Como leitores, acompanhamos Olga de uma maneira claustrofóbica. Ferrante nos tranca ao lado dela em seu apartamento: estamos consternados pelo cachorro envenenado, pelo filho mais velho febril, pelos pensamentos que lhe escapam, como se fosse sua própria condição que escapasse. Tememos por ela, por sua sanidade e por sua vida. É uma vivência de fronteira, uma experiência de psicose em meio a uma narrativa neurótica, riqueza psíquica que poucos autores conseguem alcançar.

E quanto a Carrano, você poderia me perguntar. O músico certamente é um personagem importante, mas é Olga quem salva a si mesma. A segunda heroína de Dias de Abandono, para mim, é Ilaria. A menina aparece como uma âncora, prende a mãe ao mundo dos vivos, traz Olga de volta quando ela se afasta, mas também pode naufragá-la, tem o peso da realidade. De um jeito ou de outro, Ilaria é a personagem mais vibrante do texto. Ferrante tem outro talento que me impressiona: escreve personagens infantis com uma honestidade rara na literatura, ambivalentes e verossímeis.

Temos ainda Gianni, Carla, Lea e o veterinário, mas é difícil superar o carisma de Ilaria e o desespero de Olga. Carrano aparece como uma espécie de sombra, que às vezes funciona como anjo da guarda, mas essa não é uma história de amor tradicional. Portanto, deixarei o romance entre eles em segundo plano aqui. Carrano é, no entanto, um personagem bonito e complexo, um ponto de ternura que aquece a narrativa devastadora.

Para mim, é o seguinte trecho que melhor representa o reencontro de Olga consigo:

“Aquela noite, quando Mario foi embora, voltei a ler as páginas em que Anna Karenina está próxima de morrer, folheei aquelas páginas que falavam de mulheres quebradas. Lia e no entanto sentia-me segura, eu não era mais como aquelas senhoras das páginas, não a sentia como uma voragem que me sugava. Me dei conta de que tinha até sepultado em algum lugar a mulher abandonada da minha infância napolitana, meu coração já não batia mais em seu peito, os tubos das veias romperam-se. A pobre coitada voltou a ser como uma foto antiga, passado petrificado, sem sangue.”

Em italiano, smarginature significa algo como “sem margens”. Essa é uma das palavras mais importantes na obra de Ferrante. Basta acrescentar o “s” e a palavra marginature adquire seu sentido oposto. É assim frágil a nossa condição humana: com uma única letra, vamos de um oposto a outro, de íntegros a desintegrados.

Essa reflexão me faz pensar novamente na aproximação entre Ferrante e Freud e em seu texto O Inquietante, quando escreve sobre a palavra alemã Unheimlich (estranho, inquietante) e faz uma digressão sobre o prefixo Un, que garante ao termo heimlich (familiar, confiável) seu sentido oposto. Freud observou ainda que, curiosamente, Unheimlich é utilizada em sentidos contrários. Afinal, o que é inquietante para uns, é familiar para outros. Muda-se a perspectiva, muda o sentido.

Uma mesma palavra poderia, então, compreender significados antagônicos. Por esse caminho, poderíamos pensar na perda dos contornos de Olga como a recuperação de seus contornos. Uma indiferenciação que resulta em diferenciação. Um corte que significa, ao mesmo tempo, o processo de cicatrização que une novamente os extremos.

Dias de Abandono é uma comovente história de perda e sofrimento, de dissolução, mas também de retorno. Como um réptil que perde a cauda e o equilíbrio, mas que a recupera, que se descobre  capaz de se regenerar. Minha impressão é a de que, depois de ter sobrevivido, Olga descobriu em si uma força que ninguém poderá lhe roubar. Não se trata de uma segurança precária condicionada ao novo emprego ou ao novo amor, mas de uma convicção interna, subjetiva, que não depende mais da arbitrariedade dos fatos.

Olga descobre que pode sobreviver ao absurdo, e nada pode lhe tirar essa conquista.

Pintura // Capa: Alex Kanevsky // Reprodução

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  • Comecei a ler o texto sem ler quem era a autora e logo nos primeiros parágrafos já tive certeza absoluta que era teu, Fabi. Conheci Elena Ferrante por sua causa e já adicionei mais esse na minha lista de leitura próxima.

    • Fabi Secches

      Que legal, Debbie. Depois me conte o que achou. Beijos.

  • Maria Rabelo

    Texto muito bom! Fiquei curiosa, vou conhecer Ferrante! Obrigada!

  • Luciana Soares

    Que texto maravilhoso! Muito bem escrito e dá vontade imediata de o livro, pra conferir com os próprios olhos as percepções tão interessantes apresentadas aqui. Certamente lerei!