Vegana e Feminista: Sobre Não Hesitar Em Aderir aos Rótulos

Durante meus anos de leitura de tudo o que posso encontrar na internet, eu me deparei com pessoas que dizem “eu tenho uma dieta à base de plantas e cuido dos animais, mas eu não me intitulo vegan”, assim como eu tropecei com mulheres (e homens) que diziam: “É claro que sou a favor de homens e mulheres terem os mesmos direitos. Mas isso não significa que eu tenho que me considerar feminista”. Eles então procedem em criar rótulos criativos como “humanistas” ou “igualistas”.

Isso me lembra aquele cara que você (ou sua amiga ou alguém conhecido) namorou, que insistiu não “acreditar em rótulos” e, assim, recusou-se a ser chamado de namorado, apesar do fato de vocês estarem exclusivamente saindo juntos por seis meses. Inicialmente, ele poderia achar terreno com uma pessoa insegura que imagina passar uma imagem “legal e inconformista” ao rejeitar rótulos, mas ele inevitavelmente seria despejado por qualquer mulher mais ligeira que não hesitaria em dispensá-lo por alguém que não poderia esperar para dizer ao mundo inteiro que ele era seu namorado. E não é de admirar: não querer se comprometer com esse rótulo é um sinal revelador de falta de compromisso com a outra pessoa, o desejo de sempre manter o pé fora da porta e procurar outras opções.

Relacionamentos amorosos de lado, é raro encontrar alguém que tenha problemas para se identificar com os rótulos mais comumente compartilhados e aceitos. Quantas vezes você ouviu alguém dizer “sim, eu tenho filhos, mas não acredito em limitar-me a rótulos, então eu não digo que sou mãe/pai”, ou alguém que anuncia, “eu não quero restringir meu relacionamento com minha irmã ao me referir a ela como irmã”? Mas, quando se trata de um rótulo responsável por representar um ponto de vista ético ou político, de repente, temos dúvidas sobre proclamar nossas alianças com um grupo ou outro. Uma das razões para isso poderia ser o trolling persistente aos quais alguns grupos são submetidos. Se sentir orgulhoso e sem medo de se identificar com eles pode ser assustador para aqueles entre nós que não estão prontos para ter que argumentar nosso ponto de vista constantemente em nossas vidas diárias.

Mas nossa relutância em nos rotular significa que estamos comprometendo nossos valores? Uma pesquisa da Vox de 2015 mostrou que 85% dos americanos acreditam na igualdade de gênero, mas apenas 18% se identificam como feministas. Essa é uma grande desconexão. Como isso reflete nas escolhas diárias dessas pessoas? Sua distância do rótulo pode ser explicada devido ao receio de ter expressões como “feminazi” jogadas em seus rostos, ou serem agrupadas no estereótipo “feminino e irritado”. Da mesma forma, conheci veganos que se preocupam em se chamar assim caso alguém, agressivamente, os afrontem por beberem vinho não -vegano ou comerem algo que tenha o tipo errado de aditivo alimentar. Se você compartilha dos valores de um grupo, mas acredita que compartilhar esses valores pode ter repercussões negativas, esconder-se por trás de “igualdade” ou “eu apenas tenho uma alimentação à base de plantas” é um compromisso confortável.

Publicidade

Eu sempre, aberta e orgulhosamente, me idenfiquei como vegan, mesmo que eu não soubesse quais os aditivos alimentares estão fora dos limites. Mesmo que eu tome vinho não-vegano o tempo todo. Mesmo que eu nem tenha perguntado – ou apenas não me importe – se minha comida foi preparada nas mesmas panelas e frigideiras que a carne. E sempre fui aberta sobre ser feminista, apesar de nunca me aventurar ao sair sem maquiagem e pernas depiladas. Eu simplesmente não acredito que essas coisas me tornem menos feminista ou vegana – e eu respeito as pessoas que possam estar em desacordo com minhas atitudes. Porém, quando nos afastamos do rótulo, fazemos com que o estilo de vida pareça indesejável. Como se houvesse razões para hesitar em aderir ao rótulo. E essa é a última coisa que queremos, não é?

Como veganos, certamente não é nosso trabalho fazer o rótulo parecer mais frio para atrair mais pessoas, mas, igualmente, devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar que isso pareça assustador e intimidante. Adotar um ponto de vista de “isso é veganismo, pegue ou deixe, e se você fizer uma pequena coisa fora dos limites, então você estará diluindo o rótulo e, portanto, não é bem-vindo” é uma abordagem improdutiva e ineficaz do tipo “você não pode sentar-se conosco” que não nos levará a lugar algum. Usar nossas etiquetas com orgulho é poderoso, mas igualmente poderoso é ser aberto e acolhedor. Pense nisso: como você gostaria de abordar um grupo que julga cada movimento, mesmo se você deixou claro que seus valores estão alinhados com os deles? Eu aposto que você prefere se juntar ao outro time, o mais divertido e alegre que pode dizer-lhe onde obter os melhores sapatos sem couro e comer todos aqueles bolinhos veganos? Estamos aqui, e você pode se juntar a nós.

***

Texto escrito por Sascha Camilli para Vilda Magazine e traduzido com autorização para o Modefica. Sascha é fundadora e editora da Vilda Magazine, é jornalista internacional de moda e especialista em Relações Públicas de ONGs e projetos sociais com uma paixão por ioga e viagens. Nasceu em Moscou e cresceu em Estocolmo, ela também morou em Los Angeles, Milão, Florença e Londres antes de chegar à sua cidade atual, Brighton, UK.

Gostou dessa matéria? Compartilhe.