Por Meio da Ioga, Essa Mulher Mostra Que Não Há Limites Para o Corpo e Quebra Estereótipos

O termo yoga (em português, ioga), derivado do sânscrito, significa unir, integrar o corpo à mente e à respiração para alcançar o relaxamento físico, mental e espiritual, sem restrição de estrutura corporal. Porém, não era o que Vanessa Joda, professora de ioga por trás do Yoga Para Todos, pensava antes de conhecer melhor os princípios da prática que cada vez mais se espalha pelo ocidente.

 

Mas gorda faz ioga?

Essa foi a pergunta que ela fez a si própria e ao amigo que a convidou pela primeira vez para frequentar uma aula. Mal sabia Vanessa, hoje com 38 anos e a única mulher entre os 5 filhos de uma família conservadora, que sua vida estava prestes a passar por um revolução por meio da prática.  

Nascida na região metropolitana do ABC/SP e formada em Comércio Exterior, Vanessa estava trilhando seu caminho em uma carreira ascendente, ocupando um cargo de chefia em uma multinacional com um bom salário e se transformando na executiva bem-sucedida que ela planejava, ou achava que tinha planejado, ser quando era mais nova. Trabalhava muitas horas por dia, enfrentava o trânsito caótico da capital paulista e se via na luta constante contra a balança, o que, segundo ela, norteou grande parte da sua vida enquanto “tentava se adequar a esse padrão imposto pela sociedade às mulheres desde pequenas”.

Em 2011, aos 32 anos, Vanessa conseguiu enxergar que o desejo por uma carreira executiva bem sucedida não era um desejo dela. Trabalhando com o que não gostava há 20 anos, ela estava indo contra, e não de encontro, ao sonho da garota de 18 anos que saiu de casa em busca de liberdade. O que ela queria mesmo era fazer a diferença na vida das pessoas por meio de algo que  amasse. Desse insight pessoal à transformação que viria a seguir foi uma questão de tempo.

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Sim, gorda faz ioga.

E faz tudo mais o que ela quiser. De insatisfeita com a profissão e com o corpo, ela começou a experimentar a paz consigo mesma e com o mundo ao seu redor. Assim, esse universo passou a fazer mais sentido quando ela aceitou que seguir sua vida se encaixava no propósito de mostrar para meninas e mulheres gordas que elas são lindas e maravilhosas do jeito que são. O resultado desse encontro com a paz? O projeto Yoga para Todos, criado em 2016, inspirado pelo grupo americano Yoga Punx, de Khristine Jones.

O nome já traduz a essência da iniciativa de Vanessa, que está atraindo olhares, adeptos e muita admiração. A ideia começou a tomar corpo depois dela ter experimentado o sentido que a ioga traz para a rotina de uma pessoa, e ter entendido que a prática não escolhia estatura, idade, corpo, raça ou classe social, e ainda que o seu peso não define a elasticidade, o equilíbrio e muito menos a força do que seu corpo é capaz de realizar. A ioga é, realmente, para todos. Em sua primeira aula, ela se encontrou e descobriu o que queria fazer dali em diante.

O Yoga Para Todos surgiu para desconstruir o estereótipo de que só branco, magro e rico praticava ioga; veio para mostrar que gordos, negros, trans, gays, lésbicas, enfim, todos podem tudo sim

Do seu cargo em uma grande empresa, se transformou em uma professora com formação iogue, dando aulas de graça na Rua Augusta e na Praça Roosevelt antes de abrir sua escola, sendo hoje a porta-voz do movimento na mídia e encabeçando diversos manifestos e movimentos que visam a inclusão em todas as suas vertentes, atuando principalmente na luta contra a gordofobia e o machismo.

 

A regra é não ter estereótipos.

À primeira vista, a ideia de fazer ioga foi absurda para Vanessa, que foi arrastada para a aula pelo amigo e surpreendida ao conseguir fazer todas as posições, mesmo sendo gorda. Vendo que o seu peso não limitava seus movimentos, se desafiou a mostrar que ele não limitava nenhuma outra coisa, e isso foi incrível. A prática, ainda, a salvou de ‘explodir’ de tanto stress e ansiedade do dia a dia incessante que vivia. Tomando a ioga como uma paixão, ela começou não só a praticar, mas a dar aulas e espalhar aos quatro cantos que qualquer pessoa podia se exercitar nessa que é uma atividade milenar.

Através do seu projeto, Vanessa consegue desconstruir a gordofobia mostrando que seu corpo, de mais de 100 kg, é capaz de levá-la ao infinito, que não é empecilho para nada e é lindo exatamente como ele é. Se mostrar, inclusive, foi uma barreira que ela transpôs ajudada por sua nova paixão, e o que a incentivou a aceitar o convite de uma aluna para posar para o Projeto Cada Uma, criado por Jessica Chamma, Felipe Mariano e Roberta Campos, que busca alimentar a autoestima de mulheres exaltando a beleza única delas em retratos simples, naturais e autênticos. Para ela, “foi maravilhoso e libertador em vários sentidos ter sido fotografada pelo projeto e poder mostrar que o corpo gordo em posturas de ioga também é lindo, e isso acabou incentivando muitas pessoas a conhecerem e iniciarem na prática”.

O empoderamento é outra questão defendida por Vanessa, que anda de mãos dadas com o feminismo para ajudar a desconstruir o machismo que, infelizmente, ainda impera na sociedade de forma global. “Tudo o que for importante para a militância do empoderamento feminino e do corpo gordo eu quero participar.”

 

 

Por falar em empoderamento, Vanessa conta que tomou um susto muito grande quando acordou, no último dia 13 de dezembro, e viu inúmeras mensagens que tinha recebido parabenizando-a por ser um dos mais de 200 nomes em destaque da edição de 2017 da Lista de Mulheres Inspiradoras do Think Olga, que reconhece e divulga os trabalhos dessas mulheres que orgulham todo o Brasil. “Eu ainda nao tinha visto, não estava entendo nada, e quando fui ver que era isso, eu quase tive um treco de surpresa e felicidade”, completa a professora. Para ela, “sair numa lista que só tem mulher maravilhosa e foda, foi tipo: eu tô no meio dessas mulheres que eu tanto admiro! E ter meu trabalho reconhecido dessa forma é tudo o que me faz ter certeza de que fiz a melhor coisa quando larguei meu trabalho e escolhi esse caminho da ioga”.

A ioga faz parte de um processo de autoconhecimento, e Vanessa Joda está conquistando seu lugar porque convida as pessoas a vivenciarem o que uma atitude simples pode representar. E transformar. Ela acredita que “há várias formas de buscar autoconhecimento, terapia, ioga, esportes, mas a primeira coisa é encontrar, dentre as alternativas dessa procura, a que melhor se adequa a você e que, principalmente, a pessoa se sinta bem”. E o que Vanessa deseja que o mundo descubra nesse novo ano, a partir da confiança que o autoconhecimento traz? “Vou continuar desejando coisas incríveis, pessoas felizes, empatia e humildade pro mundo, amor e coragem ao meu coração e aos que me relaciono e, acima de tudo, um mundo sem fronteiras, sem preconceitos, mais humanitário e com muito carinho e amor ao próximo”.

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