3 Motivos Pelos Quais As Pessoas Falam Para Você ‘Se Fazer De Difícil’ – E Por Que É Maléfico

Originalmente publicado no Everyday Feminism. Traduzido e publicado com autorização para o Modefica.

Ao longo dos anos nos quais passei namorando, não houve nenhuma dica que tenham me dado mais do que “se faça de difícil”. Vindo das pessoas mais sábias que eu conheço. Vindo a partir de feministas.

As pessoas justificam este conselho em um número extraordinariamente grande e variado de formas, incluindo: “Os homens amam a emoção da perseguição”; “timidez é feminino e sexy. Ser “fácil” não é”; “parecer muito interessada dá à outra pessoa todo o poder”; “ser inatingível faz você parecer muito procurada e, portanto, desejável”; e “manter alguém em suspense faz esse alguém te querer mais”.

Como se constata, os dois últimos podem realmente ser verdade. Um estudo descobriu que as pessoas preferem ‘dates’ com disponibilidade limitada, e os autores teorizaram que a selectividade é lido como um sinal de valor. E, quanto ao último ponto, a paixão pode evocar um padrão de dependência em nosso cérebro, e quando alguém “ânsia” você e não recebe a sua “dose”, esse alguém acaba ansiando por você ainda mais e faz o que for preciso para obter essa “dose de dopamina”.

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Mas eu vou focar nos três primeiros, já que eles são os motivos mais citados para dar este conselho e também os mais prejudiciais. O primeiro transmite ideias problemáticas sobre a masculinidade; o segundo transmite ideias problemáticas sobre a feminilidade, e o terceiro transmite um modelo problemático das relações que incorpora ambos.

Estas três explicações também demonstram porque este conselho é mais frequentemente dado às mulheres, especialmente às mulheres que saem com homens. Então aqui está como cada uma destas afirmações sobre o suposto valor de “se fazer de difícil” pode apoiar ideias problemáticas sobre gênero e prejudicar relacionamentos.

Reivindicação #1: Os Homens Amam a Emoção da Perseguição.

Homens, eu tenho sido avisada, têm uma sexualidade mais ativa, enquanto as mulheres são mais receptivas. Portanto, se eu deixar os homens “me perseguirem”, eu irei agradá-los (não importa o que me agrada), permitindo que eles sejam homens.

Essa concepção de relacionamentos faz parecer que as mulheres são passivas e não têm nenhuma agência. Seu trabalho é ser “pega” ou resistir, o que realmente não nos dá a oportunidade de fazer muito. O único “poder” que esta ideia dá às mulheres é o “poder” do gênero estereotipado – [poder] que supostamente reside no seu apelo sexual, o que não é, realmente, poder nenhum.

Isso também apresenta uma visão muito estreita e limita da sexualidade masculina – uma visão que coloca pressão sobre eles para dar sempre o primeiro passo e não os dá a chance de serem desejados.

Se você precisa perseguir alguém para levá-la a sair com você, ela provavelmente não é para você, e você provavelmente deve deixá-la sozinha

Ah, e há também a parte relacionada à questão do estupro. Se alguém consente com entusiasmo, ela não precisa ser perseguida. Se você precisa perseguir alguém para levá-la a sair com você, ela provavelmente não é para você, e você provavelmente deve deixá-la sozinha.

Infelizmente, os homens são ensinados que é sexy perseguir mulheres implacavelmente. Há até um TED falando sobre isso chamado “O Poder da Sedução”, em que Chen Lizra diz que os homens cubanos são sexy porque eles não aceitam um “não” como resposta.

Então, se as mulheres dizem “não”, os homens frequentemente entendem isso como uma maneira de ser sexy e dar-lhes a emoção da perseguição. O “jogo da perseguição” não deveria ser indistinguível de resistência. Mas a tropa da “emoção da perseguição” tem confundido essas duas coisas e encorajado os homens a ignorar sinais de resistência das mulheres.

Reivindicação #2: Timidez é Feminino e Sexy. Ser “Fácil” Não É.

Enquanto os homens são ensinados que é sexy perseguir mulheres implacavelmente, as mulheres são ensinadas que é sexy agir como se estivem desinteressadas. Descrever uma mulher desinteressada como atraente também contribui para a cultura do estupro.

Em uma cultura sexual saudável, uma mulher atraente é aquele que está apaixonada e entusiasmada e claramente interessada, não incerta e hesitante, e um homem que percebe uma mulher que está hesitante pergunta se ela está bem e se ela realmente quer ir em frente com o que eles estão fazendo.

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É uma cultura doente que tem a falta de interesse da mulher como uma razão para “correr atrás” ainda mais. Esta é a norma cultural que leva à agressão sexual, assédio e abuso.

Pense nisso: Quando você toma o ponto de vista da “timidez” como um convite ao extremo, a conclusão lógica é que você não precisa de consentimento de uma mulher. Mas junto com essa ideia de que uma mulher deve ser tímida está a ideia de que ela não deve ser “fácil”.

É uma cultura doente que tem a falta de interesse da mulher como uma razão para correr atrás ainda mais. Esta é a norma cultural que leva à agressão sexual, assédio e abuso

Isso trata os corpos das mulheres como mercadorias que são concedidas aos homens em troca de bondade, validação, dinheiro, ou qualquer outra coisa que não seja a própria experiência.

O pressuposto subjacente a este ponto de vista é que as mulheres só têm relações sexuais para atingir uma relação de compromisso – e, portanto, ter poder de negociação por ter relações sexuais muito cedo. Pra que comprar a vaca se você pode beber o leite de graça? Esta mesma filosofia também permite que as mulheres com mais relações sexuais com maior número de parceiros sejam consideradas menos respeitáveis do que as mulheres que são menos experientes.

Entretanto, essas presunções mão é se limitam ao sexo. Essa ideia de que uma mulher não deve ser “fácil” também foi aplicada ao namoro. Das mulheres espera-se que elas sejam mais seletivas que os homens, por isso, se uma mulher não é seletiva o “suficiente”, as pessoas assumem que ela não valoriza a si mesma.

Isto é tão misógino quanto o conselho número um, sobre a “emoção da perseguição.” Se uma mulher é muito “fácil” para “perseguição”, dentro dessa visão, ela não deve ter muito valor.

Reivindicação #3: Parecer Muito Interessada dá à Outra Pessoa Todo o Poder.

Esta crença é basicamente a junção dos dois primeiros dizeres combinados. A fim de ter poder, as mulheres devem ser mercadorias caras e seduzir os homens – porque é onde o poder das mulheres supostamente reside. Isso é ensinado aos homens também. De qualquer maneira, a filosofia é que quem está menos interessado detém mais poder.

Mas por que o poder encontra-se na indiferença em vez de na honestidade? Parte da razão vem do medo da rejeição. Quanto menor o risco de rejeição, mais poder acreditamos que temos. Essa crença vai embora quando paramos de ver a rejeição como um reflexo negativo de uma pessoa e começamos a vê-la como o resultado de colocar-se lá fora e tornar seus desejos claros, algo que deve ser uma coisa boa.

Além disso, por que relacionamentos devem ser uma luta de poder em primeiro lugar? Você só precisa de vantagem sobre alguém se você está planejando manipulá-lo. Se seu objetivo é descobrir o que essa pessoa está procurando e ver se ela combina com o que você está procurando, você não vai querer poder sobre ela. E quando você quer ser igual, jogar jogos não é mais necessário.

Além disso, por que relacionamentos devem ser uma luta de poder em primeiro lugar?

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Além de examinar as razões problemáticos por trás do conselho de “se fazer de difícil”, também precisamos reconhecer que o próprio comportamento tem consequências negativas, independentemente do porquê estamos fazendo isso.

A pedra angular de um relacionamento saudável e consensual está na comunicação das suas intenções – e fingir desinteresse prejudica esse objetivo. Jogar jogos, a fim de provocar uma reação de seu parceiro, impede uma conexão honesta, aberta e confiante.

Pense nisso: Não seria bom se você soubesse como o seu parceiro se sentia sobre você e a relação a cada passo do caminho? Dessa forma, você pode tomar melhores decisões sobre o quanto você quer investir no relacionamento, saber os problemas que vocês dois estão enfrentando para que possam tentar resolvê-los, e se sentir segura e apreciada quando o seu parceiro está feliz com você.

Bem, adivinhem. Se renunciássemos aos jogos, as relações poderiam ser dessa maneira.

Parece simples, mas muitos de nós nem sequer sabe que isso é possível. Eu não fiz isso até um parceiro recente, quando ele me disse que estava interessado em sair comigo desde a primeira vez que nos falamos. Então, eu disse-lhe que o sentimento era mútuo.

Eu estava com medo de que isso iria tirar o meu poder e fazer ele me desejar menos. Mas para minha surpresa, nada terrível aconteceu. Quando eu disse a ele o quanto eu gostava dele, ele não achou que eu estava muito desesperada, ou não era misteriosa ou feminina o suficiente e perdeu o interesse.

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E então eu me perguntei por que passei tantos anos me torturando com nada menos do que isso.

Mas eu sei o porquê: porque eu fui ensinada que mostrar interesse era pouco atraente. Ensinaram-me que para obter a mesma coisa que eu desejava – conexão – eu tinha que desconectar. Nós nos tornamos uma sociedade cheia de pessoas desconectadas em busca de conexão.

Nós crescemos convencidos de que, a fim de obter a coisa que mais queremos, temos que fingir que não queremos. E então nós não conseguimos. Expressar o que você quer pode te empoderar. Porque você não está apenas aumentando as chances de ter o que quer: você também está expressando que você vale a pena. E isso é uma mensagem que, especialmente as mulheres, nem sempre recebem.

Nós não somos presas e os nossos parceiros não são predadores e o amor não é um terreno de caça

Então, mulheres e outras pessoas cujos desejos são subvalorizados, saibam disto: Nós valemos a pena. Nós não estamos aqui apenas para responder ao desejo. Temos desejos próprios. Esses desejos são poderosos e independentes de qualquer outra pessoa. Encontram-se dentro de nós, muito antes e muito depois de alguém “nos perseguir”. Eles são dignos de honrar não importa quão difícil ou fácil nós “somos”.

Na verdade, não importa o quão “fácil” ou difícil” somos porque nós não somos presas e os nossos parceiros não são predadores e o amor não é um terreno de caça.

Muitas de nós passamos nossas vidas sendo “caçadas”, correndo por medo ou por pressão de agradar. E nós não vamos nos sentir seguros de ir ao encontro uns dos outros enquanto ainda estivermos armados. Os jogos são as armas que levamos. Nós as guardamos em nossos cintos e as sacamos quando tememos estarmos nos aproximando uns dos outros muito rapidamente, muito obviamente, muito facilmente.

Mas, uma vez que tirarmos um segundo para parar de atirar uns nos outros, perceberemos que estamos todos atrás da mesma coisa: conexão genuína. E então perceberemos que não precisaremos de jogos.

Naquele momento, não há ninguém “difícil de obter”, porque não há nada para ser “obtido”. Todos estão dispostos, a intenção é clara, e pela primeira vez, o medo não está nos governando.

Quando pararmos de “se fazer de difícil”, mágica acontece. Mas isso não deve se sentir como mágica. As coisas podem ser assim o tempo todo se nós deixarmos.

Mas por “nós”, eu não digo apenas os indivíduos envolvidos em um relacionamento. Não é tão fácil. Quando você tenta lutar contra algo tão poderoso como o imperativo de “se fazer de difícil”, você corre contra duas das maiores forças que regem a nossa sociedade: os papéis de gênero e cultura do estupro.

Promover a conexão genuína não é apenas sobre as pessoas em um relacionamento superarem o medo, embora seja sobre isso. É também desafiar ativamente a noção de que os homens são predadores e as mulheres são presas. Uma vez que não há separação entre “o pegador” e “o pego”, não haverá mais o sujeito “difícil de pegar”.

Vai ser apenas ficar uns com os outros ou “se pegar” – tanto no sentido de desfrutar a companhia do outro mutuamente, sem esforço ou engano envolvidos, como no sentido de compreender o outro.

Independentemente do seu sexo, você merece isso. E você merece que isso seja fácil de obter.

Imagem: Time Modefica

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