8 Livros De Moda Que Vão Te Ajudar A Entender Essa Indústria

Se você frequentou (ou frequenta) uma escola de moda, provavelmente alguns desses livros estiveram na sua lista de leitura. Isso porque não tem como entender a indústria da moda – e propor mudanças significativas ou se encaixar nela – sem entender realmente como ela funciona. E mesmo que eu acredite muito no lado ‘mão na massa’ das coisas, eu acredito fortemente que um pouco de embasamento teórico e histórico para guiar nossos passos é essencial.

Nós já indicamos livros de moda antes e quem nos acompanha por aqui já deve ter visto algumas indicações dessa lista outras vezes, mas dessa vez a ideia foi resumir tudo numa lista mais focada em clássicos e em livros que vão além da moda em si escrito por filósofos, estudiosos, jornalistas, e pesquisadores. Aqui eu conto sobre cada um dos livros com as minhas palavras – com o status de leitura, já que não tive a chance de ler todos por completo.

É claro que existem mais livros por ai tão interessantes quanto esses, e assim que tiver a chance de lê-los, compartilharei aqui com vocês. Para quem tiver mais títulos bacanas, deixa nos comentários que as dicas serão super bem vindas.

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O Império do Efêmero (1987)
Gilles Lipovetsky
Ed. Companhia do Bolso
Status: Lido

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Não é um livro novo – O Império do Efêmero faz 30 anos em 2017. Desde seu lançamento, em 1987, há quem discorde veementemente do exposto pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky e há quem o considere um guia essencial para entender a moda como fenômeno social e instrumento da economia moderna. Como todo livro de filosofia, não é um livro rápido de ler, mas não pode se dizer que é demasiado complexo.

O pensamento de Lipovetsky, por vezes, se desenvolve na dualidade e nos paradoxos. Ele fala de uma sociedade-moda e da moda consumada, tudo isso indo além da produção de roupas, incorporando questões sociais que norteiam a modernidade e trazendo a luta de classes à frente da discussão. Entretanto, é sua visão de expansão e fortalecimento industrial que pode não agradar a muitos.

No fim da leitura, você pode concordar ou não com os pensamentos de Lipovetsky, que giram em torno da ideia central de que a moda é o espelho da sociedade ocidental, mas sem dúvidas você vai entender muito mais sobre o papel que a moda representa na modernidade, sua relação com o capitalismo e ainda até que ponto ela é essencial para a democracia, a subjetividade e a liberdade do ser. No final, você vai concordar que “a moda tem razões que a razão desconhece”.

O Império Do Efêmero (ISBN: 9788535915129) – R$ 27,99 na Saraiva

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Moda: Uma Filosofia (2004)
Lars Svendsen
Ed. Zahar
Status: Lido

O livro de Lars trata desde a moda em sua origem até a moda e o corpo, a moda e o consumo, a moda como um ideal de vida e a linguagem de moda nos dias atuais. Svendsen explica, logo no começo do livro, porque a moda é digna de ser analisada com o olhar da filosofia. “A moda é um fenômeno que deveria ser central em nossas tentativas de compreender a nós mesmos em nossa situação história. Sua emergência como um fenômeno histórico tem uma característica essencial em comum com o modernismo: o rompimento com a tradição e um incessante esforço para alcançar o novo”, escreve o autor.

O filósofo norueguês também aborda a relação conturbada da moda e da arte, da moda e da mídia de moda e explica o porque, diferente do cinema e das artes plásticas, a moda não conta uma crítica de moda importante e forte. É um livro curto, com pouco menos de 200 páginas, fácil de ler e que, de maneira sucinta, aborda quase todos os temas que tangem a indústria da moda hoje.

Moda: Uma Filosofia (ISBN: 853780262X) por R$ 29,24 na Livraria Cultura

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A Moda E Seu Papel Social: Classe, Gênero e Identidade Das Roupas (2000)
Diana Crane
Ed. Senac
Status: Lendo

O livro de Crane faz parte de uma série de livros do Senac que abordam a moda por meio das lentes da sociologia e da cultura. A análise de Diana gira em torno do papel da moda – as demarcações de gênero, classe social e da subjetividade do indivíduo. Ela chega até os dias atuais, e mostra como a moda surge de vários pontos – e não mais só do topo da pirâmide social – e é plural.

Como o livro tem pouco menos de 500 páginas, é uma leitura demorada, mas é possível também ler os capítulos de acordo com seus interesses do momento. “Moda, democratização e controle social” e “Vestuário feminino como resistência não verbal” fronteiras simbólicas, vestuário alternativo e espaço público” são dois capítulos bastante interessantes quando pensando em moda e gênero e como podemos entender a moda e a briga de classes hoje.

A Moda E Seu Papel Social: Classe, Gênero e Identidade Das Roupas (IBSN: 9788573598100) por R$ 99 na Saraiva

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A Roupa E A Moda (1969)
James Laver
Ed. Cia das Letras
Status: Lido

A Roupa e A Moda foi publicado no Brasil em 2002, anos depois da morte de James Laver, em 1975. É um livro basicamente histórico, que acompanha as mudanças da sociedade e consequentemente da moda desde antes da moda ser constituída como uma indústria e operar apenas como vestimenta nas sociedades antes de Cristo.

Laver é bastante detalhista e analisa os trajes das épocas de acordo com as questões sociais – e econômicas – vigentes. As perucas, as maquiagens, as saias, o corset, chegando ao New Look e nas mudanças dos anos 60. Para quem busca entender as questões de classe e gênero que permeiam a moda, é um livro bastante rico principalmente porque, ao contrário da noção comum, a moda antes do século XIV era muito mais pautada em diferenças de classe do que em diferenças de gênero.

A Roupa E A Moda – Uma História Concisa (ISBN: 8571640866) por R$ 69,27 na Amazon BR

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Sem Logo – A Tirania Das Marcas Em Um Planeta Vendido (2000)
Naomi Klein
Ed. Record
Status: Lido

Naomi Klein é adorada por uns e odiada por outros. Aqui, nós somos do #timeNaomi e todos os livros dela são indicações de leitura, mas, sem dúvidas, para a turma da moda, o clássico Sem Logo é importante porque, mesmo não sendo um livro de moda propriamente dito, examina aos detalhes a produção de moda em larga escala, compreende as complexidades do capitalismo globalizado e não dá soluções simplistas como resposta. O livro foi escrito pós anos 90, quando grandes empresas como a Nike já tinham entendido o poder da terceirização e migrado toda sua produção para a Ásia.

Ela acompanha a onda dos boicotes e o impacto que eles tiveram nas melhoras de condição na vida dos trabalhadores, mas ela vai além falando sobre o poder da propaganda e do marketing, como, por meio da publicidade, as marcas entraram em todos os espaços públicos – inclusive escolas – e o impacto disso na sociedade. Aqui, décadas atrás, Naomi já dava uma pista clara do que Tansy Hoskins fala em Stiched Up sobre consumo consciente e capitalismo.

O lado ruim é que a versão brasileira do livro está fora de estoque. Então para quem não lê em inglês, a dica é procurar em sebos ou ainda pedir para amigos. Na Estante Virtual tem vários disponíveis, só clicar aqui.

Em inglês – No Logo (ISBN: 9780312429270) por R$ 61,60 na Amazon BR

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As Garotas da Fábrica: Da Aldeia À Cidade, Numa China em Transformação (2008)
Leslie T. Chang
Ed. Intrinsica
Status: Lendo.

O livro de Chang não é um livro de moda, mas tem seu valor para quem é da área porque aborda a realidade das mulheres nas fábricas chinesas – grandes responsáveis pela produção de bens de consumo, incluindo produtos de moda, para o mundo. Para chegar no resultado final, a investigação de Chang durou três anos. A autora conta aos detalhes todo o funcionamento das fábricas chinesas que fornecem produtos para o mundo todo. Um exemplo é a fábrica Yue Yuen, que fabrica 1/3 dos calçados do mundo e conta com 70 mil funcionários:

“Os operários dormem em dormitórios, comem em cantinas, e compram em lojas da própria fábrica. Yue Yuen tem uma creche para os filhos dos empregados e um hospital com equipe de 150 pessoas; oferece também um cinema e um grupo teatral, atividades de voluntariado e aulas de inglês. A fábrica tem sua própria usina de eletricidade e uma equipe de bombeiros, e há ocasiões em que a prefeitura de Dongguan toma emprestada a escada de incêndio da Yue Yuen, a maior da cidade, para combater incêndios. A Yue Yuen engarrafa a própria água. […] Só mesmo um apocalipse planetário poderia interromper o fornecimento do que a própria indústria chama de “calçados esportivos de qualidade” para o mundo inteiro”.

A autora também se mantém atenta às dinâmicas sociais que se desenvolvem em torno dessas fábricas e o que acontece com as jovens trabalhadoras, que normalmente têm entre 18 a 25 anos, desde sua migração do campo para as cidades fabris.

As Garotas da Fábrica: Da Aldeia À Cidade, Numa China em Transformação (ISBN:9788598078847) está esgotado no fornecedor. Mas você pode achar em sebos e no Estante Virtual clicando aqui.

Em inglês.

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Fresh Lipstick: Redressing Fashion And Feminism (2006)
Linda M. Scott
Ed. ST MARTINS PRESS
Status: Lido

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Scott é outra causadora de discórdias com seu livro Fresh Lipstick, que coloca a moda e o feminismo em perspectiva desde antes da convenção de Seneca Falls. Quando comprei o livro não esperava que ele viesse carregado com um contexto histórico detalhado do feminismo da primeira e da segunda onda. Isso de fato, me surpreendeu. A pesquisadora mostra como a disputa de classes, que permeia o feminismo desde 1800, foi muita vezes manipulada por meio da moda para garantir alguns privilégios de determinados grupos feministas.

A autora também mostra como a moda foi o principal meio pelo qual as mulheres conseguiram trabalhos a partir da revolução americana – seja nas linhas de produção, seja abrindo seus salões de beleza, empresa de cosméticos ou liderando grandes campanhas publicitárias. Ela também analisa, por meio de uma vasta pesquisa em revistas e publicações femininas, as questões em torno de padrões de beleza, além de comportamentos de consumo desde os anos 20.

Scott, uma feminista ela mesma, não tem dedos para puxar o curativo e apontar que o próprio movimento feminista carregou muitos problemas e foi incapaz de de dialogar com as diversas realidades das mulheres americanas, e por isso falhou grandemente depois do sufrágio. É sua crítica transparente e direta ao movimento que levantou muitas inimigas e nem sempre as resenhas que encontramos do livro por ai são positivas.

Fresh Lipstick: Redressing Fashion And Feminism (IBSN: 1403966869) por R$ 67,20 na Livraria Cultura

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Stiched Up: The Anticapitalist Book Of Fashion (2014)
Tansy Hoskins
Ed. PALGRAVE USA
Status: Lido

Assim como Naomi Klein, Tansy Hoskins é uma anti-capitalista declarada. Muitas pessoas não gostam dela e tentam desvalorizar sua pesquisa porque ela nunca trabalhou na indústria da moda. Mas, como Tansy nos contou, foi exatamente esse fato que a deu liberdade o suficiente para falar da indústria de maneira direta, sem rabo preso e sem muitos sentimentos. Para ela, ser uma “outsider” foi um ponto positivo na construção de sua narrativa.

Para mim, o livro de Hoskins foi um divisor de águas. Apesar de já ter lido Sem Logo e gostado bastante, foi com Stiched Up que eu entendi de maneira ainda mais clara a complexidade do sistema de moda globalizado, as limitações do consumo consciente e do boicote, e como toda e qualquer solução para alcançar uma moda mais justa precisa passar, indiscutivelmente, por uma reforma na maneira com a qual nos organizamos economicamente. Tansy coloca as atitudes individuais em perspectiva e ainda explica que o consumo ético é “uma narrativa que ensina que as corporações podem ser domadas pelos gastos do consumidor e serem “éticas”. É uma retórica da democracia agindo como uma tela para a exploração”.

Stiched Up: The Anticapitalist Book Of Fashion (ISBN: 0745334563) por R$ 119,40 na Livraria Cultura

Imagem Capa: Time Modefica

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