“A Costureira de Sonhos” Reflete Sobre Costura, Amor e Classe na Índia

A diretora indiana Rohena Gera, 46 anos, aprendeu muito cedo sobre o sistema de castas e as profundas divisões sociais que marcam seu país. Na infância, percebeu que a babá que a criava não era igual à ela e à sua família, ainda que todos morassem sob o mesmo teto. “Vivíamos o racismo e a segregação dentro de casa”, afirmou a cineasta. “Isto é complicado para uma criança: você ama a pessoa que cuida de você, mas rapidamente aprende que existem barreiras.”

Ecos desta experiência estão em A Costureira de Sonhos, primeiro longa ficcional de Rohena, que chega nesta quinta-feira (23) aos cinemas brasileiros, cerca de um ano após ter sido exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes. Coprodução franco-indiana, o filme reflete sobre questões de classe a partir da improvável história de amor entre um jovem rico e sua empregada doméstica, uma jovem obstinada que estuda costura e quer ser estilista.

A atriz Tillotama Shome interpreta Ratna, carismática protagonista que carrega um passado difícil. Nascida em uma família pobre em um vilarejo rural da Índia, ela aceitou o casamento arranjado pelos pais, mas ficou viúva poucos meses depois, antes mesmo de completar 20 anos. Diante dos estigmas relacionados à viuvez, Ratna busca mais liberdade no anonimato da cidade grande e aceita ser empregada doméstica de um casal em Mumbai. Mas quando a união é subitamente cancelada, ela se vê servindo apenas ao patrão, Ashwin (Vivek Gomber).

 

 

A convivência solitária de empregador e empregada permite que a diretora explore dois mundos dentro de um só apartamento. Ashwin faz suas refeições sozinho na mesa da sala de jantar, enquanto Ratna come sentada no chão da cozinha. Ashwin vagueia pela enorme sacada com vista para a cidade, enquanto Ratna se espreme em seu pequeno quarto sem janela. Ele dorme em uma cama confortável; ela, em um colchão no chão. Cena após cena, a diretora expõe a dura realidade de uma força de trabalho de cerca de 40 milhões de indianos, a maioria mulheres e sem direitos assegurados. Ao mesmo tempo, sugere que Ratna possui algo valioso que Ashwin abandonou: um sonho. Ele deixou a carreira de escritor nos Estados Unidos para cumprir as expectativas dos pais (e da sociedade), enquanto ela desafia as expectativas e trabalha duro para conseguir ser estilista.

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O improvável romance que se inicia entre os dois é menos uma história de Romeu e Julieta e mais uma ferramenta narrativa para abordar a desigualdade social indiana. “Queria falar deste assunto sem pregar, sem [mostrar] uma vítima e seu opressor, sem parecer que tenho todas as respostas e sei como as pessoas devem viver. Meu desejo era fazer perguntas”, afirmou Rohena, em entrevista ao canal da Semana da Crítica no YouTube. Assim, A Costureira de Sonhos busca provocar reflexão por empatia e usar o afeto para colocar os protagonistas em posição de igualdade. “Espero que meu filme interesse as pessoas como história de amor, mas também que elas repensem seus preconceitos simplesmente acreditando no romance entre Ratna e Ashwin”, afirmou a cineasta, no material do longa para a imprensa.

 

Sociedade indiana

É difícil saber o quanto tal mensagem será capaz de ecoar na própria Índia. Afinal, A Costureira de Sonhos é parte de um cinema independente que está longe de ter o alcance das produções de Bollywood. Em debate realizado durante a pré-estreia do longa em São Paulo, a cineasta e pesquisadora Juily Manghirmalani afirmou que as principais críticas ao machismo, ao racismo e ao sistema de castas da Índia têm sido feitas por artistas da diáspora: imigrantes que realizam seus filmes em países como Estados Unidos, Inglaterra e Canadá.

É o caso da própria Rohena Gera, que estudou e trabalhou em Nova York e na Califórnia. “Estes filmes influenciaram uma geração de cineastas e um cinema bem mais crítico surgiu. Mas a Índia tem uma censura muito forte, que barra qualquer coisa relacionada à sexualidade feminina, por exemplo”, lembrou. “São produções muito vistas em outros países, mas que não vão chegar no vilarejo da personagem [de A Costureira de Sonhos].”

O debate em São Paulo também destacou o pano de fundo da costura. A mediadora Maria Rita Alonso ressaltou que o Brasil é grande importador de tecidos da Índia, enquanto a professora e jornalista de moda Silvana Holzmeister lembrou que há empresas produzindo roupas “em condições de trabalho praticamente análogas à escravidão”.

A Costureira de Sonhos não aborda diretamente esta questão, já que a protagonista está em um estágio anterior, estudando para desempenhar uma profissão na qual sua família não tem tradição. Mas o filme comenta sobre a desvalorização das mulheres indianas na moda ao mostrar a relação de Ratna com um alfaiate homem e mais velho. Apesar de ter prometido tratá-la como aprendiz, ele a aciona apenas para limpar e fazer compras. “Ninguém vai te ensinar de graça”, garante.

Outra cena marcante é relacionada a um simples acessório: pulseiras. Como ter vaidade não é algo permitido às viúvas, quando visita seu vilarejo Ratna tem de retirar as pulseiras azuis que adora, recolocando-as apenas no ônibus de volta a Mumbai. É um de muitos momentos em que os figurinos acrescentam significado ao roteiro. “Na Índia, o modo de se vestir mostra a classe social: o fato de a protagonista fazer uma dobra no sári [saree], por exemplo, indica que sua posição é de servir”, destacou Juily Manghirmalani. “Mesmo assim, Ratna apresenta combinações de roupas bem distintas. Dentro de sua capacidade, consegue mostrar seu estilo.”

A Costureira de Sonhos certamente provocará comparações com Roma, longa de Alfonso Cuarón sobre as divisões de classe no México. Mas o filme talvez tenha mais em comum com Absorvendo o Tabu, curta documental premiado com o Oscar e disponível no catálogo da Netflix, que mostra como a criação de uma fábrica caseira de absorventes muda o cotidiano das mulheres de uma comunidade indiana. A costura, aqui, é mais do que uma nova profissão para Ratna: é, também, fonte de autoestima e a possibilidade de um futuro com mais liberdade e independência.

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