A Importância Da Interseccionalidade Para O Movimento Feminista

“Ecofeminismo: Mulheres e Natureza” é um série de artigos que busca discutir a importância da conexão das mulheres com os seres não-humanos e o meio-ambiente. A série tem como objetivo abordar as questões éticas e morais, além das questões culturais, sociais e econômicas relacionadas ao feminismo, veganismo e ecologia.
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Nos textos anteriores, nós trouxemos diferentes análises que justificam a inclusão da natureza e dos animais no discurso feminista. Agora nos aprofundamos um pouco mais nos sistemas da diferença e no conceito de interseccionalidade com o objetivo de sair do plano da teoria e pensar em práticas capazes de desfragmentar o discurso feminista atual, nos permitindo uma visão mais holística dos movimentos que lutam contra as formas de opressão.

Para entender o que é interseccionalidade precisamos olhar para as reivindicações do movimento feminista negro e das feministas do “terceiro mundo”, que muito questionaram o sistema de opressão baseado exclusivamente no sexo/gênero, reconhecendo que o poder opera através de estruturas de dominação múltiplas.

Em seu texto Gênero: A História De Um Conceito, Adriana Piscitelli, antropóloga brasileira, nos traz as primeiras críticas ao sistema de opressão centrado em sexo/gênero, levantadas pelas feministas cujas pautas não conseguiam ser representadas pelo feminismo branco no século XX: “Elas exigiram que gênero fosse pensado como parte de sistemas de diferenças, de acordo com os quais as distinções entre feminilidade e masculinidade se entrelaçam com distinções raciais, de nacionalidade, sexualidade, classe social, idade”. [1]

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Interseccionalidade é uma sensibilidade analítica, uma maneira de pensar sobre a identidade e sua relação com o poder

Não é totalmente exato afirmar que existiu uma única pessoa responsável pelo surgimento da interseccionalidade no movimento feminista, mas Kimberlé Crenshaw pode ser apontada como uma das primeiras a falar sobre isso e, principalmente, tratar a necessidade da interseção no campo dos direitos civis e políticos há quase três décadas [2].

Em um texto de Crenshaw para o Washington Post ela explica, em suas próprias palavras, o conceito de interseccionalidade:

“Interseccionalidade é uma sensibilidade analítica, uma maneira de pensar sobre a identidade e sua relação com o poder. Originalmente articulada em nome das mulheres negras, o termo trouxe à luz a invisibilidade de muitos constituintes dentro de grupos que os reivindicam como membros, mas muitas vezes não conseguem representá-los. As rasuras interseccionais não são exclusivas das mulheres negras. As pessoas não-brancas dentro dos movimentos LGBT; […] mulheres trans dentro dos movimentos feministas; e as pessoas com deficiência lutando contra o abuso policial – todas encaram vulnerabilidades que refletem as intersecções de racismo, sexismo, opressão de classe, transfobia, capacitismo e muito mais. A intersetorialidade deu a muitos defensores uma forma de enquadrar as suas circunstâncias e lutar por sua visibilidade e inclusão”.

Hoje, Kimberlé continua militando, na teoria e na prática, e acredita que a interseccionalidade ainda precisa de muita dedicação para conseguir promover mudanças na sociedade: “Há quem acuse a interseccionalidade ser demasiado teórica, de ser “muita conversa e nenhuma ação.” Para isso eu digo que estamos “falando” sobre a igualdade racial desde a época da escravidão e ainda não estamos nem perto de realizá-la. Em vez de culpar as vozes que destacam problemas, precisamos examinar as estruturas de poder que resistem com tanto sucesso à mudança”.

Em vez de culpar as vozes que destacam problemas, precisamos examinar as estruturas de poder que resistem com tanto sucesso à mudança

Do texto de Piscitelli, é importante destacar também como a interseccionalidade passou a ser útil para sublinhar a posição de submissão e domínio quase igualitária das mulheres negras e dos animais. Aqui, não vamos analisar essa questão com profundidade [3], mas chamar a atenção para ela. Mulheres e animais aparecem equiparados em praticamente todos os textos sobre feminismo e feminismo interseccional.

“Elas [as mulheres negras] foram constituídas, simultaneamente, em termos sexuais e raciais, como fêmeas próximas dos animais, sexualizadas e sem direitos, em uma instituição que as excluía dos sistemas de casamento. Nesse sistema, só as mulheres brancas foram constituídas como mulheres, no sentido de esposas potenciais, veículos para conduzir o nome da família”.

Sendo assim, conseguimos entender que o feminismo pró-interseccional é capaz de compreender diversos sistemas de opressão e precisa olhar para animais não-humanos e natureza não só como forma de protegê-los e dar-lhes voz, considerando que todos estão sob o mesmo guarda-chuva da opressão do sistema patriarcal, como também como forma de proteger mulheres das consequências dos danos ambientais [4]. Como a filósofa ambiental australiana Val Plumwood argumenta [5], a natureza precisa ser incorporada como uma quarta categoria de análise teórica feminista que lida com raça, nação, gênero e classe.

Me impressiona como nós, ativistas radicais, não sabemos como refletir sobre a comida que colocamos no nosso corpo

Ao expandir o circulo de moralidade, a ativista feminista negra Angela Davis analisa o discurso fragmentado e a falta de uma visão holística sobre os sistemas da diferença, nos atentando para a importância de um olhar mais político e coerente nas nossas ações: “me impressiona como nós, ativistas radicais, não sabemos como refletir sobre a comida que colocamos no nosso corpo”. Para Davis, faz parte de um movimento revolucionário não só cultivarmos relações mais compassivas com seres-humanos, mas também com outras criaturas com as quais dividimos o mundo e que isso significaria questionar também todo o sistema capitalista e industrial de produção de alimentos.

Com o posicionamento de Angela Davis, conseguimos entender, acima de tudo, como um olhar interseccional tem um papel crucial para o avanço do movimento feminista em questões sociais e políticas. É com esse olhar, capaz de analisar e decodificar as complexidades impostas pelos sistemas de dominação, que conseguimos atuar de maneira mais eficaz rumo a um mundo livre de toda e qualquer injustiça – e não apenas as que nos acometem.

Notas de rodapé:

[1] Diferenças, igualdade. Berlendis & Vertecchia Editores. Pág 141
[2] Intersecionality, a primer. Washigton Post.
[3] Estudos Feministas – Intelectuais Negras. bell hooks, pág 468
[4] Gênero: Uma Perspectiva Global. Raewyn Connel e Rebecca Pearse. Editora nVersos. Pág 232
[5] Gênero: Uma Perspectiva Global. Raewyn Connel e Rebecca Pearse. Editora nVersos. Pág 237

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