Para Avançar com a Igualdade de Gênero, Precisamos Falar Sobre Gravidez Não Planejada

No Brasil, a gravidez não planejada é considerada um caso de saúde pública e tem impacto na vida da mulher e das pessoas em sua volta. As discussões sobre a saúde da mulher e planejamento familiar podem até ter aumentado ao longos dos anos, mas as condições e consequências alarmantes sob as quais mulheres estão sujeitas ainda carecem de uma atenção primária e facilitadora que permita a autonomia e decisão sobre seus corpos e vida sexual reprodutiva.

Grande parte das gestações não planejadas são resultado de falhas de uso dos métodos anticoncepcionais. De acordo com a pesquisa do Fundo da População das Nações Unidas (UNFPA) realizada em 2016, países menos desenvolvidos como o Brasil são os que registram o menor uso de anticoncepcionais eficazes (DIU, injetáveis e implantes – que não dependem tanto da “memória”) por causa da falta de acesso a esses métodos, atingindo diretamente cerca de 3,5 a 4,2 milhões de brasileiras em idade reprodutiva. Além da falta de acesso, 214 milhões de mulheres de países do Sul global ainda sofrem com a falta de apoio do parceiro, dos serviços públicos, interferência religiosa, efeitos colaterais e riscos à saúde, resultando em 84% de gestações não intencionais nesses países.

Maria, Luisa, Alice e Paula são nomes fictícios de mulheres reais que engravidaram usando um ou mais métodos contraceptivos para evitar a gravidez. Ao longo deste texto, vamos compartilhar suas histórias, que podem ser usadas como contraponto às frases equivocadas e culpabilizadoras como a famosa “só engravida quem quer” ou “foi porque não se preveniu direito” – e entender as diversas facetas envolvendo uma gravidez não planejada e os possíveis riscos que, quando não tratada como uma questão de saúde pública – traz para a mulher.

Grande parte das gestações não planejadas são resultado de falhas de uso dos métodos anticoncepcionais. De acordo com a pesquisa do Fundo da População das Nações Unidas (UNFPA) realizada em 2016, países menos desenvolvidos como o Brasil são os que registram o menor uso de anticoncepcionais eficazes

Paula teve sua primeira gestação não planejada por falha do preservativo masculino. Ela estava casada há 3 anos e usava a camisinha masculina como forma de contracepção porque os diferentes anticoncepcionais orais que experimentou afetavam sua qualidade de desempenho no dia-a-dia. “Na minha cabeça e na do pai deles, a gente pensava que estivesse furada porque foi bem imperceptível. A gente não conseguia imaginar como que aconteceu”, ela conta. Apesar do preservativo masculino ser o mais popular para evitar uma gravidez e proteger contra as DSTs (doenças sexualmente transmissíveis), sua taxa de efetividade em uso típico é de 82% e 79% respectivamente, ou seja, 20 em cada 100 mulheres por ano engravidam de forma indesejada usando a camisinha masculina.

Publicidade

Depois de um ano do nascimento do seu primeiro filho, ela engravidou de novo, dessa vez estava tomando as pílulas anticoncepcionais orais e amamentando. “Como já tinha acontecido uma vez, eu tinha uma preocupação grande e comecei a tomar o anticoncepcional para não correr o risco”. A segunda gravidez foi descoberta durante exames de rotina e quando Paula já estava no quarto mês de gestação, o que gerou uma preocupação maior porque ainda estava fazendo uso das pílulas orais: “o médico disse que não teria problema, que era só parar de tomar o anticoncepcional e fazer o pré-natal normalmente. Só que eu continuei preocupada e ansiosa achando que o neném não poderia nascer perfeito, ter sequelas. Enquanto minha filha não nasceu e eu vi que ela era perfeita, não fiquei tranquila”, relata.

 

Quais são os anticoncepcionais

Mesmo com o leque de opções que temos hoje, o número de mulheres que não são contempladas pela disponibilidade dos métodos contraceptivos existentes deveria ser muito mais preocupante e discutida ao invés de colocar toda a responsabilidade e controle exclusivamente nas costas da mulher. São diversos os fatores que permeiam uma gravidez inesperada e muitas vezes, indesejada. Conforme a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Mulher (PNDS) de 2006, a gravidez indesejada é considerada um indicador da falha no controle do processo reprodutivo e inclui aspectos como o contexto socioeconômico da mulher, a falta de informação, de acesso e disponibilidade dos possíveis métodos nos serviços da rede pública, além das taxas de ineficácia e intolerância dos contraceptivos, que não foram mencionados nessa pesquisa.

A escolha do método contraceptivo deve ser livre e informada, tanto sobre qual o formato mais adequado para o funcionamento de cada corpo, quanto aos riscos e os inúmeros efeitos colaterais que podem acontecer durante o uso e que variam de mulher para mulher. Esse processo e acompanhamento devem ser feitos com o médico ginecologista, e caso seja necessário, outros especialistas.  Clique aqui para ver maior

Em um primeiro momento, essa taxa de falha pode parecer pequena, mas e quando falamos, por exemplo, que a pílula anticoncepcional oral, método usado comumente, tem uma ineficácia em 9 a cada 100 mulheres por ano? E que a pílula de emergência, método indicado, principalmente, em casos de estupro ou quando houve falha dos outros anticoncepcionais, têm um índice de efetividade entre 75% e 85%, o que significa que ela pode evitar 3 em cada 4 gestações anualmente? Já fazem mais de 60 anos desde que o primeiro método contraceptivo foi inventado, não deveriam estar mais avançados depois de tanto tempo?

Luisa, Maria e Alice engravidaram fazendo uso do preservativo masculino e a pílula do dia seguinte. “Minha meta naquele momento era ser efetivada no trabalho. Foi decepcionante porque eu acabei usando um método que eu não gosto e aconteceu”, comenta Luisa que descobriu a gravidez dez dias depois de ter tomado a pílula do dia seguinte. No começo da gestação, ela e o namorado até cogitaram em realizar um aborto legal em outro país, mas a decisão final foi de Luisa, que decidiu prosseguir com a gravidez porque tinha apoio da família e as condições para cuidar de uma criança.

Uma situação bem diferente da Maria, ela também usou a camisinha masculina, mas não se sentiu segura e quis tomar pílula de emergência algumas horas depois da relação. Desde aquela época, ela já tinha um emprego estável em uma empresa multinacional e estava realizando o sonho da casa própria, porém sua gestação foi sem o apoio do parceiro e escondida da família até o oitavo mês por causa da dinâmica familiar que não estava em um bom momento. “Toda vez que eu ia fazer um ultrassom, era triste, porque eu via todo mundo com uma família e eu sempre estava sozinha. Eu mais sofri e chorei do qualquer outra coisa”, relatou. Ela também foi submetida ao exame de DNA quando ainda estava grávida à pedido do pai de sua filha, que desembolsou em torno de 5 mil reais pelo exame e, atualmente, paga uma pensão de 500 reais e só visita a filha quando quer. “O ápice para mim foi o teste de paternidade porque ele invade sua moral, quem você é. Eu não sou qualquer uma. Eu não era qualquer uma”, lembrou Maria.

 

Consequências da violência

Além dos casos de gravidez não planejada pela ineficácia dos métodos contraceptivos, outro fator que precisamos levar em conta é o número de mulheres que engravidam sucedidas de uma violência sexual, na qual envolve os casos de estupro marital e os comportamentos coercitivos do próprio parceiro. Definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência sexual é “todo ato sexual, tentativa de consumar um ato sexual ou insinuações sexuais indesejadas; ou ações para comercializar ou usar de qualquer outro modo a sexualidade de uma pessoa por meio da coerção por outra pessoa, independentemente da relação desta com a vítima, em qualquer âmbito, incluindo o lar e o local de trabalho”.

A violência sexual praticada pelo companheiro representa 13,15% dos crimes de estupros praticados no Brasil, segundo o Atlas da Violência de 2018. Porém, esse número de registros não reflete a verdadeira quantidade de casos que acontecem. Entre os diferentes motivos pela subnotificação podemos ressaltar o fato da maioria mulheres casadas não saberem estarem vivendo uma violência, são dependentes financeiramente e têm medo de denunciar. Em situações como essa, em que a vítima tem uma relação “afetiva” com o agressor, existe uma dificuldade maior em romper esse laço que afeta diretamente na vida da mulher e sua sexualidade.

Os comportamentos coercitivos podem ocorrer de diversas formas e graus de força, extorsão, intimidação e ameaças.  Clique aqui para ver maior

No Brasil, a pena em casos de estupro varia de 6 a 10 anos de prisão. E quando cometido pelo marido ou companheiro, a punição vai de 9 a 15 anos. O problema é que os crimes responsáveis por ferir a dignidade sexual já são de difíceis comprovações; quando cometidos pelo parceiro, a complexidade é ainda maior e, em sua maioria, os agressores não são denunciados e punidos. As consequências de uma violência sexual são devastadoras e ao longo-prazo, como o desenvolvimento de problemas psicológicos, gravidez indesejada, aborto inseguro podendo chegar ao feminicídio.

Segundo um artigo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro publicado em 2018, 80 milhões de mulheres no mundo têm uma gravidez indesejada e 60% não prosseguem até o fim, sendo responsável o aumento da morbidade e mortalidade relacionados ao abortamento ilegal e inseguro. A gravidez indesejada, além de ser uma falha dos serviços de planejamento familiar, é o resultado da falta de educação sexual e reprodutiva para a população. Nessas situações, é comum que o homem não assuma sua responsabilidade em conjunto da mulher, de modo estrutural e histórico, esse peso vem sendo colocado no ombro da mulher sozinha, sem questionar a responsabilidade masculina e sem a conscientização de que a mulher não é o eixo central do problema. Afinal, todo mundo sabe que para uma gestação acontecer, é preciso de duas pessoas, um homem e uma mulher.

A gravidez indesejada, além de ser uma falha dos serviços de planejamento familiar, é o resultado da falta de educação sexual e reprodutiva para a população

No caso de Alice, o desfecho foi diferente e a decisão lógica a ser tomada, de acordo com seu cenário, foi interromper a gestação. Ela residia em um dos 21 estados dos Estados Unidos onde o aborto legal e seguro é permitido e acessível quando descobriu estar grávida mesmo após usar um método barreira e tomar a pílula do dia seguinte: “apesar da angústia de ter ficado grávida usando a pílula do dia seguinte, eu tive a oportunidade de escolha, eu não queria aquela gestação. Eu não conseguia sentir nada até porque não tinha espaço para aquilo naquele momento”, relembra.

Nas situações em que o aborto legal é uma escolha, mulheres relatam uma experiência de alívio em realizar o procedimento, principalmente, nos casos sucedidos de violência, em que o repúdio e as condições individuais da mulher são emocionalmente intoleráveis para prosseguir com a gravidez. Alice conta que recebeu todo o atendimento necessário da equipe médica da clínica onde fez o teste de gravidez pela primeira vez e a informaram sobre as opções que teria. “Eu acho que eu não teria decidido de forma mais clara e tranquila sem a ajuda delas. Eu tive uma conversa, um acolhimento antes de qualquer coisa”, completa.

A fala culpabilizadora que a sociedade carrega não traz a complexidade do tema, homogeniza o problema da gravidez não planejada e, nas conjunturas da violência sexual e do aborto ilegal que intrinsecamente constituem uma assimetria de gênero, raça e classe, reforçam a vulnerabilidade da mulher resultando em um alto número de mortalidade materna. Nossa esperança enquanto mulheres é continuar trazendo essas discussões e os diferentes contextos que envolvem essa temática para conhecimento e reflexão da sociedade a fim de garantir ações e direitos mais eficazes sobre a sexualidade e direitos reprodutivos da mulher, até a conscientização e obrigações do homem. O silêncio e o medo precisam ser quebrados, garantindo às mulheres uma rede de serviços e apoio adequados a fim de compreender sua individualidade e seus horizontes.

Publicidade

Conheça e faça parte do Clube Modefica!
O Modefica é uma mídia independente que pensa moda, arte, alimentação e política para resiliência social e ecológica. Para manter nosso conteúdo aberto e acessível para todas as pessoas, nós precisamos da sua colaboração.
Gostou desse texto? Clique aqui e contribua com o Clube Modefica e ajude nosso conteúdo ir mais longe para amplificar a transformação positiva.
Gostou dessa matéria? Compartilhe.
Tags

.