AfrôBox é a Caixa de Beleza Para Mulheres Negras

AfrôBox faz sucesso como a primeira caixa de beleza pensada para mulheres negras // Cortesia Afrô
O mercado da beleza diariamente cresce e se inova, atualmente uma das tendências apontadas pelos sites e blogs de moda são as “caixas de beleza” por assinatura. Elas funcionam da seguinte forma: a interessada responde um questionário no cadastro e com os dados fornecidos por ela, a empresa entende seus interesses e necessidades. A partir disso, todo mês, por um preço fixo, a assinante recebe em casa uma caixa com vários produtos selecionados de acordo com o seu perfil.

Algumas caixas já são bem conhecidas, mas a maioria das opções encontradas não olham para o recorte racial, levando às assinantes a receberem uma caixa com produtos que não condizem com seu tipo de cabelo e até mesmo tonalidade de pele. O Brasil é o terceiro mercado global de beleza, ficando atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Somos também o país com mais negros fora do continente africano.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2014 realizada pelo IBGE, 53% dos brasileiros se declararam pardos ou negros. Já uma pesquisa de 2013 do próprio IBGE indica que no Brasil existe 103,5 milhões de mulheres, equivalente a 51,4% da população, portanto a maioria. A mesma pesquisa aponta que nós mulheres vivemos mais, estamos ocupando mais espaço no mercado de trabalho e já somos as principais responsáveis pelo sustento de 37,3% das famílias brasileiras. Se pensarmos nos gastos do orçamento do brasileiro, a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) em pesquisa identificou que 2% do nosso orçamento é destinado aos produtos de beleza e higiene.

Diante desses dados, chama atenção que o mercado de cosméticos negligência boa parte da população: as mulheres negras. A ausência do recorte racional nas caixas de beleza por assinatura são apenas a ponta do iceberg de um mercado focado apenas em uma parcela da população. A maioria das marcas de maquiagem não tem tonalidades diversas de bases, corretivos e outros produtos pensados para a verdadeira diversidade de tons de pele do nosso país. Geralmente o que vimos são uma ou duas opções para servir, sem sucesso, uma gama imensa de mulheres.

No que diz respeito ao cabelos cacheados e crespos, só agora – e depois de anos e anos de mulheres negras pedindo produtos para seus cabelos-, que vemos produtos para atenderem essa demanda ganhando espaço nas prateleiras. Como lembrou Nanda Cury, não faz muito tempo que vimos pela primeira vez uma marca de cuidados capilares escrever “crespo” em sua embalagem.

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Esse foi um dos motivos que levou três mulheres negras, Élida Aquino, Bárbara Vieira e Graucianna Santos, fundarem a Afrô e lançarem no mercado um produto completamente novo: uma caixa de assinatura pensada e focada nas mulheres negras, a AfrôBox. Tudo começou em 2015, mas a grande guinada aconteceu depois do financiamento coletivo e incentivo da ação do Think Olga com o Benfeitoria, Mulheres de Impacto, responsável por incentivar o empreendedorismo feminino.

Nós do Modefica interessados em discutir o mercado de beleza de uma forma mais democrática, entramos em contato com a Élida para entender mais sobre Afrô e suas dificuldades, subjetividades e a importância do recorte racial no que diz respeito à indústria da beleza no Brasil.

 

Élida Aquino é uma das sócias e criadoras da Afrô e da AfrôBox // Cortesia Afrô
 

MODEFICA: As marcas de beleza não oferecem muitos produtos específicos para as mulheres negras no Brasil e muitas não conseguem criar vínculos com essas mulheres. Vocês acreditam que isto está relacionado ao fato desse público ter menor poder de consumo e acabarem escolhendo mais pelo preço e menos pela especificidade?

ÉLIDA AQUINO: Essa realidade está mudando. Uma das nossas primeiras atividades como negócio foi desenvolver uma pesquisa de mercado em parceria com a FGV para saber como as mulheres negras se sentem em relação ao que o mercado de cosméticos produz hoje. A resposta foi exatamente como pensávamos: as mulheres negras consomem, e muito. Ouvimos mais de 100 mulheres, a maioria cursando ou com ensino superior completo, ocupação profissional e dispostas a investir cerca de R$ 200 ao mês em beleza (entre produtos e cuidados). Nós queremos o direito de poder escolher o que quisermos, independente do preço.

O pensamento das marcas hoje precisa ser voltado em atender todas as mulheres, sem ignorar nossa existência como ainda acontece muitas vezes. Obviamente nossas construções sociais ainda não permitem que a maioria dessas mulheres negras​ acesse as mesmas coisas e consigam bancar os mesmos desejos, mas o retrato está mudando e o mundo precisa acompanhar isso. Cada vez mais mulheres negras acessam espaços educativos, estão criando negócios, ficando independentes financeiramente e desenvolvendo autonomia para escolher de quem comprar. As que podem comprar mais caro existem, querem escolher, as marcas precisam parar de não direcionar produtos bons para nós só porque acham que não temos dinheiro para consumir.​

O empoderamento associado a uma ideia de consumo é algo bastante criticado. Como vocês entendem essa questão nessa posição de serem o primeiro clube de assinatura para negras?

Existe uma linha tênue pra tratar desse assunto. O lucro não é especificamente o problema, porque empresas precisam de lucro para sobreviver. O que queremos é nos sentir representadas. Esse clube foi criado por motivos estratégicos: nosso foco é oferecer suporte às assinantes e mulheres através da beleza e desenvolvimento da autoestima. Por isso, acreditamos que a cada nova edição enviamos força e parceria, não apenas produtos.

Chega de comprar produto que quer disciplinar nosso cabelo, nosso corpo, só por ser o único disponível

É sobre colocar no mesmo espaço – no caso esse espaço é a caixinha e nossos canais – desde marcas menores a grandes marcas, permitindo que produtos feitos por mulheres e homens como nós também cheguem às assinantes, que elas experimentem, vejam novidades, falem dessas marcas como falam das mais populares e consigam escolher o que mais as satisfaçam. Atendemos uma demanda da qual participamos. Chega de comprar produto que quer “disciplinar” nosso cabelo, nosso corpo, só por ser o único disponível, sabe?

Existe interesse de grandes marcas pela Afrô? Vocês enxergam possibilidade de cobrar dessas marcas maior representação negra tanto nas peças publicitárias, perfil de produtos quanto entre os próprios funcionários dessas empresas?

No início foi ruim, viu? Contamos nos dedos as marcas que viram atrativo na proposta de valor do negócio. Felizmente as portas se abriram, a gente conseguiu chegar até pessoas que sentiram diferença em nosso serviço (a AfrôBox é o primeiro de muitos projetos dentro da Afrô) e colocaram produtos. Vieram outras depois e agora estamos atingindo mais marcas. Muitas marcas reconhecem que não sabem falar com a mulher negra e é bom saber que somos procuradas por isso.

Há uma preocupação em relação a isso, já que eles mesmos sentem que mulheres negras não estão mais dispostas a consumir o que não as representam. Parte do nosso trabalho direcionado às marcas é fornecer dados que as assinantes compartilham e provar através dessas experiências como os produtos podem melhorar, ensinar onde estão errando, fazer com que enxerguem através da nossa ótica como honrar o dinheiro investido por essas clientes. Felizmente temos conseguido atingir as marcas que fazem parceria com o clube.

Em relação ao consumo de marcas com responsabilidade ambiental e com políticas contra testes em animais, existe uma preocupação por parte de vocês? Mulheres negras pelas enquetes e pesquisas se preocupam com isso?

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Quando estudamos e pesquisamos marcas que potencialmente farão parte do clube, conversamos sobre isso. Sempre há pesquisa antes de entrar em contato com as marcas. Óbvio que precisamos fazer melhor, inclusive otimizando a forma que entregamos – já que mandamos entre 5 e 8 produtos ao mês e é uma quantidade considerável de plástico e papel, por exemplo -, mas não deixamos de olhar pra isso. Queremos inclusive estimular essa consciência entre as assinantes do clube. Quanto à percepção das mulheres negras, acho que a preocupação maior ainda é encontrar produtos bacanas e que as contemplam de alguma forma. As que pensam nos testes e questões ambientais existem, mas não são maioria.​

 

As assinantes da AfrôBox também recebem opções mais naturais e amigas dos animais, como Makeda e BioVegan // Cortesia Afrô
 

Existe um costume histórico de mulheres negras usarem produtos naturais como babosa, óleo de coco, entre outros. Vocês incluem ou pretendem incluir esse tipo de produto?

​Sempre! Inclusive aqui no time a gente adora os naturais. Desde a prototipagem trouxemos produtos free, super naturais, e queremos continuar encontrando marcas que topem nossa ação. A única coisa que dificulta essa relação é a disponibilidade, já que essas marcas geralmente produzem menos e pensam numa lógica diferente das grandes.​

Como está sendo a aceitação e apoio das mulheres negras em relação à a AfrôBox depois de tantos anos do mercado negando essas mulheres como consumidoras?

Algumas ainda condicionadas aos padrões e serviços de assinatura oferecidos por brancos que têm como padrão e foco mulheres brancas, não entenderam bem o propósito da Afrô. Já outras, a maioria, recebe de forma que surpreende até nossas expectativas, incentivando cada vez mais nosso trabalho e dedicação ao negócio. Isso é muito gratificante e nos fortalece muito.

Por fim, a Afrô é um sucesso e tem um leque de produtos selecionados para cabelos crespos, cacheados, diferentes tonalidades e tipos de pele negra, mesmo assim é possível uma pessoa que não é negra assinar a AfrôBox e conseguir consumir os produtos?

Sim, é possível. Só precisa ter o entendimento de que a gente se baseia na pluralidade da beleza negra, nas mulheres negras e cabelos afros. Mas claro, faremos o possível para atender a essas mulheres também.

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