Ouvindo e Assistindo a AmarElo, de Emicida, Como Quem Lê Cartas de Amor

De vez em quando, volto a pensar na pergunta irrespondível: o que é literatura? Isso acontece principalmente quando estou diante de obras de outros campos que me parecem também literárias. Nessa lista, acrescentaria, por exemplo, o diário que a cientista Marie Curie manteve no ano que se seguiu à morte de seu marido, Pierre Curie, com quem dividiu um dos dois prêmios Nobel que recebeu, e as canções escritas por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e Emicida, que mais do que músicos e poetas, são também pensadores que se ocupam liricamente — e criticamente — do nosso tempo.

Nesse mês, Emicida lançou o documentário AmarElo — é tudo para ontem, na Netflix, com direção de Fred Ouro Preto e produção de Evandro Fióti. No longa-metragem, acompanhamos os bastidores de composição do disco homônimo, bem como algumas cenas do show que depois aconteceu no Theatro Municipal de São Paulo. Mas não apenas: em AmarElo, Emicida se firma como um pensador autoral, com autonomia intelectual e sensível, enquanto recupera parte importante da história do Brasil, e também da história da arte do nosso país, desde a abolição da escravidão até os dias atuais. Assim, temos acesso a gravações raras e a um conjunto de informações que pode ser novidade para muita gente, especialmente pela forma como estão concatenadas. No meio disso, Emicida apresenta duas teses, ambas interessantíssimas: a de que, no Brasil, o hip hop e o rap estão ligados ao samba (“podemos ser mais”, diz ele) e a de que o samba é um movimento cultural, uma forma de ver o mundo, que não se restringe à música.

A trajetória bem sucedida de Emicida como artista multifacetado, intelectual e empresário é uma exceção num país em que a maior parte das pessoas negras continua vivendo às margens. “Vencer é muito mais do que ter dinheiro, logo esses jovens [do rap e do hip hop] querem mais do que ter sucesso, querem reescrever a história desse país. Ah, importante: minha mãe me chama de Leandro, mas todo mundo me conhece como Emicida. Eu sou um desses jovens”, diz no início do documentário.

Diante de séculos de exploração e exclusão, a raiva que as pessoas oprimidas sentem é mais do que compreensível, é absolutamente legítima. E essa raiva, se bem canalizada, pode se tornar uma ferramenta importante de luta e de transformação. Já o ódio talvez não seja um bom amigo. Em uma entrevista anterior, Emicida argumenta que o ódio, como estratégia, falhou. Fala em defesa da calma, mas não de uma calma que adestra, abate e amansa. Uma calma que é “o extremo oposto, a calma como um elemento que pode fazer a pessoa refletir melhor e pensar de maneira estratégica”.

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O registro da fala de Emicida é algo entre o erudito e o coloquial, carregando consigo a “cosmopolita, multicultural periferia de São Paulo”, lugar em que nasceu. “Na trama tudo os drama turvo / Eu sou um dramaturgo / Conclama a se afastar da lama / Enquanto inflama o mundo”, dizem os versos de “AmarElo”, a canção. Ao contrário da maior parte das pessoas, que, quando ascende socialmente, busca apagar as marcas das origens para sobreviver aos preconceitos, Emicida faz questão de se expressar, pessoalmente e artisticamente, a partir desse lugar, e assim leva a periferia para o centro, ocupando lugares concretos e simbólicos tanto para o povo quanto para as elites, como o Theatro Municipal de São Paulo.

Em AmarElo, ele celebra a negritude com vivacidade, destacando o trabalho de muita gente importante, como Lélia Gonzales, tão elogiada por Angela Davis, mas ainda pouco lida no Brasil, e contradiz quem torce o nariz para tudo o que não considera “alta cultura”. Mas também faz muitas críticas, como quando fala do processo de gentrificação, que empurra grande parte da população para as margens da cidade, fazendo ele mesmo o movimento oposto — ao instalar um telão em frente ao teatro, amplifica o show para todas as pessoas da região, aproximando as ruas em volta do interior suntuoso, em alguma medida interligando os ambientes.

Na obra da escritora italiana Elena Ferrante, o embate entre as origens e os demais espaços sociais que as personagens passam a ocupar é um tema recorrente. Na maior parte de seus romances, as narradoras são mulheres que nasceram em bairros pobres, na cidade de Nápoles, no Sul da Itália, e que, conforme migram para o Norte, em movimentos geográficos carregados de simbolismo, vão se moldando culturalmente, vão se envernizando. Na Itália, ao contrário do Brasil, o Norte é tido como a região mais rica e aculturada, enquanto o Sul, muitas vezes, é tratado de forma marginalizada.

Na tetralogia napolitana, considerada a obra-prima da autora, a narradora Elena Greco nasce e cresce num bairro da zona industrial de Nápoles e vai ascendendo socialmente através da educação, principalmente da literatura. Mais tarde, acaba se tornando uma escritora bem sucedida, conquistando para si uma vida com estabilidade e conforto. Então passa a evitar o dialeto napolitano e as demais marcas que identificam de onde veio. Já em outras ocasiões, ela se sente arrastada de volta, por uma força de atração tão feroz quanto a de repulsão. Quando escreve e publica seus livros, faz isso em italiano culto, nunca em dialeto, idioma que reserva à intimidade e ao qual atribui certa violência da qual tenta escapar. Oscilando entre essas duas realidades, tem a impressão de que não pertence nem a um mundo, nem a outro.

Emicida, ao contrário, transforma a periferia numa espécie de registro poético, de centro interior. No lugar de modular o discurso para se encaixar no posto de intelectual delimitado conforme as expectativas alheias, constrói para si uma posição sólida entre os maiores artistas contemporâneos do Brasil a partir de um discurso particular. É o mundo que precisa abrir espaço para celebrar e aprender com ele, e com tantos outros nomes que menciona, e não o contrário.

Numa aula que tive com o líder indígena Ailton Krenak, anotei algo que ele disse sobre Bob Dylan, músico laureado com o Nobel de Literatura, que talvez também possa ser aplicado aqui: “a poesia que ele canta, a contribuição que ele deu para um monte de meninos que não sabiam nem ler, mas escutavam as canções dele e começaram a ver as palavras voar. Quem bota as palavras pra voar é tão relevante quanto quem fixa as palavras numa folha”. Aliás, a defesa que Emicida faz das pequenas alegrias da vida adulta — espírito que, para ele, os sambistas personificam — combina muito com outras ideias bonitas defendidas por Krenak, como a importância de imaginar e de contar histórias, a importância de dançar, cantar e sonhar.

Quanto a botar palavras para voar, na canção “Ismália”, por exemplo, Emicida inclui o poema de mesmo nome, escrito há cerca de cem anos pelo poeta Alphonsus de Guimaraens, e agora recitado pela atriz Fernanda Montenegro. Os versos ganham uma nova leitura no contexto da música, que diz: “Com a fé de quem olha do banco a cena / Do gol que nóiz mais precisava, na trave / A felicidade do branco é plena / A pé trilha em brasa e barranco, que pena / Se até pra sonhar tem entrave / A felicidade do branco é plena / A felicidade do preto é quase”. Em AmarElo, ele também cita o escritor Oswald de Andrade e a busca de alteridade no seu Manifesto Antropofágico, de 1928 —“Só o outro me interessa” (paráfrase) — e emenda: “afinal, é no encontro que a nossa existência faz sentido e, isso, o samba já nasceu sabendo”.

Na parte final do documentário, Emicida divide o palco com Majur e Pablo Vittar. Três pessoas com trajetórias tão diferentes juntas cantando o refrão de Belchior: “Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”. O teatro todo se emociona, a gente em casa também. Fico com as palavras dele ecoando em mim: “A vida só faz sentido quando a gente se relaciona”.

Se o preconceito divide, segrega, estreita, limita e empobrece, o encontro e o elo somam, multiplicam, integram, ampliam, potencializam e enriquecem. Perde quem escolhe o primeiro mesmo diante da abundância do segundo.

Há muitas outras relações de intertextualidade na obra de Emicida, desde a epígrafe de Mário de Andrade que abre o documentário, uma teia rica e complexa que vai integrando tudo. Que bonito ver o rap e o hip hop misturados assim ao samba e à poesia brasileira. Que bonito ver o presente resgatando e ressignificando o passado. Emicida menciona o poeta Manoel de Barros quando diz que se sente um fotógrafo do invisível. “Escrever, pra mim, é ter a benção de passear pelo tempo. Estar aqui e agora, mas poder visitar e sentir e também compartilhar os sentimentos tanto do ontem quanto os de amanhã. Ver minha mãe mexendo na terra me ensinou o valor disso. Quando li sobre a força da horta durante o tempo que Nelson Mandela ficou preso, fiquei comovido com como tanta reflexão maravilhosa pode estar guardada dentro de uma semente. Foram dona Jacira e Nelson Mandela que me ensinaram sobre respeitar o tempo e me conectar com o ciclo da vida”. Ouvir e assistir a AmarElo faz brotar uma flor de esperança, pois se existe um campo com potência de transformação de sensibilidades esse campo é o da arte.

“Do fundo do meu coração / Do mais profundo canto em meu interior, ô / Pro mundo em decomposição / Escrevo como quem manda cartas de amor”, diz Emicida numa de suas canções. Por aqui, a carta foi recebida. Espero que por aí possa ser também.

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