Aos 33 Anos, Fui Diagnosticada Com Câncer De Mama Metastático

Eu não tinha nenhum caso [de câncer] na minha família. Eu senti, em novembro de 2014, um caroço no meu peito. Mas eu pensei que não deveria ser nada. Eu já tinha ouvido falar sobre mulheres que tinham acabado de amamentar (na época minha filha estava com 3 anos) e achei que fosse algo da amamentação. Nem dei bola.

Em fevereiro, eu estava fazendo acompanhamento com uma nutróloga para emagrecer. Ela perguntou se estava tudo bem com a minha saúde e eu comentei sobre sentir algo na mama, mas que não deveria ser nada, até porque não tinha nenhum caso na minha família.

Ela resolveu investigar, mas eu achava desnecessário, um saco fazer mamografia, ultrassom…. Ela falou que só uma mamografia e ultrassom eram suficientes. Me passou os pedidos e deu o contato de um novo ginecologista. Eu nem fiz os exames. Mas ela ficou no meu pé, eu falo para ela que ela foi minha anja. Eu estava com a vida corrida, não ia fazer os exames, fazendo mil coisas ao mesmo tempo, passando por uma separação e achando que realmente poderia fazer tudo sozinha.

Eu acabei indo no ginecologista e fazendo os exames. Ele não me espantou, mas achou melhor pedir uma biópsia. Até então ninguém da minha família, nem minha mãe sabia. Ela ouviu eu falando com o meu irmão e então decidiu vir pra São Paulo me acompanhar no médico para entregar o resultado da biópsia.

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É engraçado como nós organizamos as coisas na cabeça. Nós estávamos brincando no consultório sobre como os filhos do médico eram lindos – e todos médicos. Nessa hora ele me chamou, eu e minha mãe entramos no consultório e ele, antes de abrir o exame, até tranquilizou minha mãe falando que provavelmente não era nada grave.

A morte deixa a vida mais especial, mais significativa e faz a gente tomar algumas decisões mais rápido. Mas dá medo também

Ele abriu o exame, leu e um silêncio se instalou na sala. “É, temos um probleminha aqui”. Nessa hora minha mãe já começou a ficar agitada. “Que probleminha”, eu perguntei. “Você vai precisar fazer uma cirurgia”.

Nesse momento eu pedi para ler a biópsia e estava escrito: carcinoma mamário invasivo. Eu perguntei: “carcinoma mamário invasivo é câncer?”. Ele falou que sim, mas me falou para ficar calma, pois não sabíamos o estágio que estava. Os tumores não eram grandes, e estavam numa mama só. Sai do consultório com folhas de solicitação de exames.

Uma amiga minha tem uma grande amiga que trabalha como mastologista do Pérola Byington. Eu lembro que fui à noite no consultório dela, fiquei até umas 22horas falando com ela. Eu sai de lá, entrei no carro com essa minha amiga Mari e falei pra ela: “Mari, eu vou morrer. Tô morta”. Ela falou tudo que poderia acontecer comigo. Tirou o band-aid.

Conforme eu fui fazendo os exames eu descobri que o câncer espalhou. Já estava no fígado. Eu lembrei da conversa com a médica do Pérola Byington falando que metástase há 10 anos era sentença de morte. Hoje não é mais. Mas esse é meu maior problema: o medo de morrer.

A morte deixa a vida mais especial, mais significativa e faz a gente tomar algumas decisões mais rápido. Mas dá medo também. “Meu Deus, com quem a Cecília vai ficar?”.

Quando peguei o diagnóstico eu tinha tido apenas 5 encontros com o meu namorado. Eu disse para ele ficar à vontade para tocar a vida. No fim, ele foi em 15 das 16 sessões de químio, me levou e me buscou umas 500 vezes no hospital, foi a todas as consultas, me carregou pra cima e pra baixo quando eu não conseguia andar e ainda puxava o baldinho ao lado da cama durante o “passa mal”. O engraçado é que a gente foi se conhecendo na cafeteria do hospital, até namorar.

Eu comecei os tratamentos no dia 22 de abril do ano passado. Pelo câncer já estar metastático, meu médico preferiu fazer a quimioterapia antes e a cirurgia de remoção dos nódulos da mama depois. Foram 16 sessões de quimioterapia, 4 da chamada “vermelha” e 12 da “branca” ao longo de 6 meses, cirurgia para a retirada dos tumores e 25 sessões de radioterapia.

Eu ainda não consigo encarar isso como uma dádiva, mas foi sem dúvidas um despertar

Antes do começo do tratamento, o médico avisou sobre os efeitos colaterais e a queda do cabelo. Ele falou que se eu decidisse raspar a cabeça antes – muitas mulheres preferem, porque o cabelo cai na cama, no banheiro, em todos os lugares – era indicado levar minha filha junto, para ela não sentir um choque muito grande.

Eu ia marcar o salão, mas a enfermeira assistente do médico me falou sobre uma touca, um método novo que ‘congela’ os folículos capilares e, por conta da diminuição da circulação sanguínea, ela leva menos químicas pros folículos, então ele não enfraquece e cai.

É uma toca normal e a gente fica 15 minutos antes da infusão da químio, durante a químio inteira, e 2 horas depois do fim da infusão. Ela chega a – 28º e é preciso trocar de meia em meia hora. Dói até o pensamento. Não tem contra indicação nenhuma, mas é bastante desconfortável. Meu cabelo só caiu onde a toca não pegou direito.

O tratamento quase te destrói. Melhor, ele bate forte na gente. Forte mesmo, não estou medindo palavras. É preciso muita coragem e muita força mesmo para encarar um ano assim. Mas olhar a vida em perspectiva deixa tudo mais leve. E aceitar também. Eu até comecei a gostar de hospital, achar um lugar agradável. Talvez porque eu me dei a chance de ser cuidado no tempo que passei lá.

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Algumas coisas me foram tiradas, sem dúvida. Algumas escolhas tiveram de ser feitas. Eu saí em prantos do médico de reprodução humana. Tive de escolher: atraso o tratamento e faço uma arriscada estimulação hormonal para colher e congelar óvulos ou abro mão de ter meu segundo, terceiro, algum outro filho? Não tive dúvida. Mas certamente não estava preparada para escolher não ter mais filhos.

Fiz mais exames e descobri que a causa para um câncer em idade tão prematura ocorreu devido a uma mutação genética chamada de Síndrome de Li-Fraumeni. Quem tem Li-Fraumeni tem uma chance aumentada de desenvolver tumores ao longo da vida. Também descobri que meu câncer “se alimenta” de estrógeno e progesterona. Por esse motivo, faço um tratamento chamado hormonoterapia. Estou em menopausa induzida e já me acostumei com os efeitos colaterais.

Também faço alimentação preventiva, ioga e musculação. Só falta aderir à alimentação crudívora, mas eu ainda chego lá. A frase “informação é poder” nunca fez tanto sentido na minha vida. Eu também ressignifiquei o trabalho, antes eu trabalhava que nem uma louca, agora estou achando um ponto do equilíbrio.

Comecei a entender que me cuidar não é só fazer mamografia. É me cuidar. Cuidar do corpo, mente e espírito. E não ficar esperando alguma coisa ruim acontecer para a gente se cuidar

Eu ainda não consigo encarar isso como uma dádiva, mas foi sem dúvidas um ‘wake up call’. Vamos de fato viver uma vida mais significativa, tipo: “cuida da sua vida, olha para sua filha, cuida dela”. Eu não gosto de olhar para as estatísticas, mas eu estou contanto com pelo menos 57 anos. Quero viver muito ainda!

Ilustração: Camila Belotti

Por Bruna Brüner. Bruna tem 34 anos, mora em São Paulo, trabalha com design gráfico e tem uma filha Cecília, de 4 anos.

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