Sua Menstruação Vale Ouro Mas Você Não Está Ficando Mais Rica Por Isso

Você usa algum aplicativo para controlar seu ciclo menstrual? Se usa é bom saber: seus dados podem estar sendo compartilhados de uma maneira que você não gostaria. Esses aplicativos podem ser práticos e úteis, é verdade, mas quando olhamos mais atentamente, essa coleta de informações normalmente serve para ajudar empresas a lucrarem alto.

Isso não deve soar como novidade, várias indústrias vêm faturando muito com o ciclo reprodutivo feminino há décadas. Nada espantoso já que a menstruação acontece todo mês na vida de quem possui útero – ou seja, uma parte imensa da população. E por mais que a menstruação faça parte do ciclo reprodutivo do ser humano, o entendimento sobre ela ainda é cercado de tabus e falsas crenças, o que, principalmente no ocidente, ajuda no controle de corpos e enriquece indústrias tudo ao mesmo tempo.

Para ficar claro, não estamos exagerando ao falarmos que há tabus. No Nepal, uma antiga tradição social hindu conhecida como chhaupadi, faz com que meninas e mulheres em período menstrual sejam isoladas e impedidas de participar da vida social e familiar, pois são tidas como “impuras”. Mas não precisamos ir tão longe.

No Brasil, a apresentadora Bela Gil sofreu ofensas nas redes sociais ao indicar uma calcinha especial com forro absorvente reutilizável – um design atual que remete aos “paninhos” usados pelas nossas avós e bisavós. As ofensas em geral diziam que ela era “nojenta” pela forma como lidava com o próprio sangue e corpo. Por aqui, inclusive, temos uma matéria para desmistificar algumas questões em torno do sangue menstrual.

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Mas, se por um lado ainda há muito tabu em torno da menstruação, há um movimento de mulheres querendo quebrar antigas regras e se aproximar do seu próprio corpo – entendê-lo, observá-lo e escutá-lo – sem grandes intervenções. É por isso também que vemos muitas dessas mulheres negando o uso da pílula e procurando alternativas. Mesmo que ela tenha sido um dos pilares fundamentais da emancipação feminina e revolução sexual, desde sua origem seu uso foi questionado e, em se tratando principalmente de questões de saúde, sabemos que essa ingestão de hormônios tem vários contras.

E se você pensou que nessa ‘nova onda da emancipação’ não tinha espaço para lucro, se enganou. É nesse momento que os aplicativos de controle de ciclo ganham força, junto ao crescente uso das redes sociais e o hábito de recorrer a apps para controlar, facilitar e nos ajudar a fazer praticamente qualquer coisa. A promessa deles é conceder o controle dos ciclos menstruais sem interferência na saúde dos usuários, mas em tempos de big data, até onde isso é realmente verdade? Quando tudo sobre nossa vida, inclusive sobre nossa vida sexual e ciclo reprodutivo, pode ser monetizado, é difícil acreditar no sigilo e na neutralidade das empresas.

As pesquisadoras e coordenadoras Joana Varon e Natasha Felizi, do projeto Chupadados, explicam como funcionam os aplicativos de controle do ciclo menstrual e porque eles têm despertado críticas de mulheres pelo mundo. O projeto Chupados, coordenado por elas, reúne histórias latino-americanas sobre a coleta e processamento massivo de dados por governos, empresas e por nós mesmos para monitorar cidades, casas, bolsos e corpos.

Modefica: A dúvida que não quer calar, menstruar em tempos contemporâneos onde tudo é controlado por aplicativos se tornou lucrativo?

NATASHA FELIZI: Lucrar em cima da menstruação — ou melhor, do controle da menstruação — não é uma novidade desses aplicativos. Ao longo do século XX, tecnologias biomoleculares como pílulas, hormônios, antidepressivos e outros foram sendo introduzidos de maneira massiva na sociedade como um modelo de negócio responsável por movimentar a indústria, as mídias e se introduzir nos nossos corpos.

Nos anos 50, os hormônios sintéticos da pílula anticoncepcional já eram um dos principais produtos da indústria farmacêutica. Controlar os ciclos de fertilidade/menstruação já era um negócio lucrativo, e continua sendo. As informações que geramos com o uso desses aplicativos constituem um capital para as empresas que os criam. Além de serem informações detalhadas sobre todo o ciclo de centenas de milhares de mulheres ao redor do mundo, são também dados sobre a maneira como utilizam seus dispositivos eletrônicos e a internet.

Isso pode ser lucrativo não só para a indústria farmacêutica, como para anunciantes que desejem vender coisas a mulheres de determinado perfil, e para quem intermedia esses processos. Se, por um lado, os aplicativos podem nos ajudar a perceber os eventos do corpo, por outro precisamos ter consciência da lógica da indústria por trás deles. Do mesmo jeito que a pílula e os absorventes internos, que ofereceram conveniências às mulheres, foram questionados por movimentos feministas sobre possíveis danos que causariam à saúde, uma perspectiva feminista sobre os apps de saúde deve questionar quais os possíveis efeitos colaterais dessa tecnologia.

As informações que geramos com o uso desses aplicativos constituem um capital para as empresas que os criam

JOANA VARON: É isso. Menstruar na era dos apps é lucrativo, mas não para quem menstrua, e sim para aqueles que coletam, processam e armazenam dados sobre o corpo das usuárias destes apps. Vivemos um hype da ideia de que quanto mais quantificarmos e monitorarmos nossos hábitos, com auxílio de tecnologias, melhor e mais “inteligente” será nossa vida.

Mas esse discurso leva a uma coleta desproporcional de uma imensidade de dados sensíveis, como os dados de saúde do nosso corpo, o que, por um lado, no caso de falhas de segurança ou vazamentos, pode levar a uma exposição desnecessária das usuárias destas tecnologias e, por outro, serve ao modelo de negócio dos fabricantes destes aplicativos, que usam nossos dados para, por exemplo, repassar a terceiros que se beneficiam com táticas de publicidade direcionada. Afinal, é fácil imaginar o potencial lucrativo para o setor publicitário que consiga alvejar mulheres grávidas, ou ainda para a indústria médica e farmacêutica que consiga direcionar publicidade para mulheres com dificuldade de engravidar.

Esse dinheiro que empresas ganham vendendo informações sobre o ciclo menstrual de alguma forma nos beneficia?

JV: Não fica claro na maioria dos termos de uso de vários desses aplicativos se eles “vendem” informações. O que sabemos é que em todos eles existe um compartilhamento das mesmas com terceiros, seja para fins publicitários, seja para pesquisa médica, e que o modelo de negócios das empresas que desenvolvem esses apps se sustenta na utilização destes dados.

Agora, sobre benefícios para nós, mulheres, a respeito da circulação dessas informações, cada aplicativo tem uma narrativa. O Clue, por exemplo, diz que essas informações serão utilizadas para pesquisa científica. Porém, se olharmos o perfil das mulheres que estão enviando informações, são aquelas que têm celular, conexão à internet, falam inglês e provavelmente estão no Norte Global. Trata-se de um recorte socioeconômico elitista bastante significativo e que, se não forem tomadas as devidas precauções, pode levar a generalizações sobre o comportamento de corpos que não condizem com a variedade étnica-racial, nem com a diversidade sexual e de gênero que temos no mundo. Se essas generalizações forem tomadas por base pela indústria médica e farmacêutica, veremos mais um exemplo de práticas de um colonialismo digital.

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Já o Glow, em uma lógica estilo “la garantia soy yo”, transforma em marketing do aplicativo a ideia de financiar tratamentos de fertilidade caso a mulher que utilize seus serviços assiduamente não engravide. O que no final das contas é uma estratégia para fazer com que cada uma se comprometa a atualizar suas informações na plataforma, o que apenas aumenta a base de dados, e, portanto, a matéria-prima do modelo de negócios em questão.

Enfim, podemos perceber que esses apps não são apenas uma ferramenta para monitorar melhor nosso ciclo – que, por sinal, podem estar te dando informações de padrões normativos que não condizem com seu corpo. Ou seja, colocando na balança, os benefícios vão mesmo para quem desenvolve esses apps. Isso, por si só, não deslegitima por completo esse tipo de iniciativa, mas traz questionamentos sobre como seria um app capaz de abranger toda a diversidade de corpos, gostos e cores e que, ao mesmo tempo, tenha uma modelo de negócios que não explore ou traga riscos de expor informações sensíveis?

Como seria um app capaz de abranger toda a diversidade de corpos, gostos e cores e que, ao mesmo tempo, tenha uma modelo de negócios que não explore ou traga riscos de expor informações sensíveis?

Como funciona o monitoramento menstrual por meio de aplicativos?

NF: Funciona basicamente como uma tabelinha, ou um calendário: você vai anotando os fatos relevantes e, no final, consegue perceber um padrão e fazer algumas previsões sobre quando virá a próxima menstruação ou quando estará fértil. Mas, além disso, eles também podem funcionar como espécies de ‘jogos’ ou ‘redes sociais’. Alguns aplicativos têm fóruns próprios onde as pessoas podem interagir sobre o assunto, outros te mandam dicas de saúde conforme você avança no ciclo, e todos oferecem opções muito detalhadas para monitorar sintomas, que vão desde acontecimentos físicos até comportamentais.

Do ponto de vista mais técnico, os aplicativos podem funcionar como monitores de informação sobre sua navegação na internet, por exemplo, enviando essas informações a outras empresas (terceiras partes) que podem ser as responsáveis por te enviar anúncios em outras plataformas.

Qual o perigo da análise de dados dos ciclos menstruais? Pode citar um exemplo de aplicativo e como as empresas por trás dele funcionam?

NF: De maneira mais direta, a análise de dados em si não é perigosa, se for feita de maneira transparente e criteriosa. Mas vazamento de informações pode oferecer riscos sérios a curto e longo prazo, como o caso do Glow.

JV: É, o Glow teve um episódio de falha de segurança que permitia que quase qualquer pessoa que tivesse o email de alguém cadastrado pudesse acessar os dados e conversas dessa usuária, ou ainda, usando a função “casal” era possível acessar todo o histórico menstrual e sexual da usuária. O fato é que, quanto mais dados sobre nós são coletados, mais vulneráveis estamos, e esses apps coletam informações sobre nossa rotina e nosso corpo de forma antes inimaginável. Mas parece que a maioria das empresas não se preocupa muito com isso, ainda que o Glow tenha corrigido essa falha de segurança, sua política de privacidade diz que mesmo que você pare de usar o serviço, seus dados não serão apagados.

NF: Além das questões de segurança, também precisamos nos perguntar quais os critérios dessa análise de dados e por quem eles foram elaborados, visando quais interesses. Essa lógica de medir tudo por dados/informações objetivas é considerada um conhecimento mais legítimo do que outras práticas de auto-observação, consideradas retrógradas, atrasadas ou pouco informadas.

Existe essa ideia de que tudo que é medido e processado digitalmente é valioso, legítimo e verdadeiro porque usa princípios matemáticos. Então um dos perigos é também a colonização desse saber sobre o corpo por essa mentalidade masculina e branca. Sem querer ser essencialista, existe muito conhecimento e muitas práticas, ou seja, tecnologias, historicamente criadas e praticadas por mulheres não-brancas que sequer são mencionadas nesses aplicativos – mesmo que muitos deles dizem querer ‘promover a informação e o conhecimento’, muitas vezes mirando em comunidades e países da África e Ásia, onde há menos recursos.

Mas, de novo, precisamos ser críticos em relação a isso, porque não deixa de ser um projeto colonialista: você oferece um aplicativo pra avisar quando elas estarão férteis e, em troca disso, coleta dados e informações intimas sobre pessoas que continuarão na mesma situação sócio-econômica e não desfrutarão dos ‘benefícios’ materiais gerados por essa coleta de informação.

Qual interesse desses aplicativos em se unir com aplicativos “fitness” e de “saúde”?

NF: Se você olhar bem, apps de fitness e de saúde são bem parecidos. São embalagens e abordagens diferentes para o mesmo objetivo, que é produzir dados e coletar informações massivamente sobre os corpos e hábitos das pessoas. Eles te dão o app e, em troca, você alimenta as bases de dados deles com essas informações, que podem ser usadas pra criar campanhas de marketing super direcionadas a públicos de perfis bem específicos, traçados a partir da análise dessas informações. Outro interesse que pode ser preocupante é o da indústria farmacêutica/planos de saúde. Pra eles, dados assim são valiosos porque ajudam a determinar ‘grupos’ que podem ser consumidores ideais de tal produto, ou que podem ser suscetíveis a tal tipo de publicidade.

Existe algum aplicativo com política menos invasiva?

JV: Entre todos os apps que analisamos, o Clue é o que tem uma política menos invasiva, principalmente porque permite que você utilize o aplicativo sem compartilhar seus dados com o servidor da empresa, ou seja, você pode optar por manter essa informação apenas no seu celular e não repassar para ninguém. Caso a usuária opte por fazer uma conta, a política de privacidade promete hospedar os dados pessoais da usuária separados dos dados sobre seu ciclo, garantindo alguma forma de separação entre os dados de ciclo e a quem pertence.

O aplicativo também teve mais cuidado em descrever as medidas de segurança para o armazenamento destes dados, o que inclui uso de criptografia. O app também traz algumas dicas de segurança para no celular, como uso de senha para o aplicativo e informações sobre como deletar informações em caso de perda.

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Quais são as principais questões que mulheres devem considerar ao baixar esses aplicativos?

NF: Coisas pra prestar atenção: modelo de negócio, quem fez, termos de uso, configurações de privacidade do app e do celular.

JV: Como ninguém lê termos de uso ou política de privacidade, o artigo Menstruapps que fizemos para Chupadados traz um apanhado que explica os prós e contras de cada um. Mas se quiser baixar um aplicativo que a gente não analisou, a principal coisa é saber quem terá acesso a esses dados que estamos produzindo sobre algo tão íntimo. O ideal é que esses dados fiquem apenas no seu celular, protegidos por senha e criptografados, e, se for necessário compartilhar com uma empresa, que seja uma empresa que garanta que seus dados não serão utilizados para te encher de publicidade, que tenha precauções de segurança e que desassocie suas informações de cotidiano ao seu nome. De qualquer forma, não criaria usuária, nem mesmo da App Store ou Google Play que você já usa, que seja seu nome real, pois não há necessidade deste tipo de associação com os apps que a gente instala.

Como vocês associam esse tipo de aplicativo com o fato da menstruação ainda ser um tabu na sociedade?

NF: É uma daquelas estruturas básicas do patriarcado: Pode falar da menstruação à vontade, desde que seja com o médico, em círculos fechados de mulheres ou outros ambientes controlados. Mas se aparecer com a calcinha manchada na rua ou no Facebook, não vão economizar nas ofensas.

Nossa reivindicação é por mais autonomia em relação a nossas informações, dados e corpos

Esses aplicativos são mais um espaço controlado, onde você registra informações íntimas e pode interagir com outras pessoas sobre o assunto, desde que seja no fórum apropriado. Eles não se politizam, são banheiros cor de rosa e vigiados, cheios de mensagens heteronormativas e propagandas de consumo que reforçam essa construção do gênero mulher. Tanto que, para esses aplicativos, só queremos monitorar nossos ciclos porque queremos engravidar ou evitar gravidez. A ideia de que alguém tenha outra sexualidade ou esteja em tratamento hormonal de transição nem passa perto.

Mas nossa reivindicação também não é meramente por ‘apps melhores’, e sim por mais autonomia em relação a nossas informações, dados e corpos. Interessa mostrar a intersecção entre as políticas das tecnologias de comunicação que usamos e as políticas da desigualdade que buscamos combater ou expor enquanto feministas, por exemplo. Se por um lado os aplicativos ajudam mesmo a criar uma atenção pros ciclos e procuram criar relações entre a menstruação e outros fenômenos do corpo, eles não deixam de ser um espaço controlado pelos outros, pelas empresas que criam, por essa ideologia heteronormativa e seus parceiros que não saberemos quem são, e que se apropriarão e instrumentalizarão essas informações para fins que igualmente desconhecemos.

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Joana Varon é advogada, pesquisadora e diretora da Coding Rights, organização liderada por mulheres dedicada a promover a compreensão sobre o funcionamento de tecnologias digitais e expor as assimetrias de poder que podem ser ampliadas por seu uso. Entre os projetos que coordena atualmente destacam-se o chupadados.com, SaferNudes, antivigilancia.org e a base de dados de processo legislativo para a área digital codingrights.org/pls.

Natasha Felizi é pesquisadora, co-coordenadora do chupadados e co-autora do guia de segurança digital Safer Nudes.

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