Arte Como um Trajeto Anticolonial e Coletivo

Qual o papel da arte na construção do eu político, historicamente consciente e socialmente ativo? Claramente, a arte guarda em si o perigo do questionamento e da subversão. Não à toa, é a cultura a primeira enfraquecida ou aniquilada quando o conservadorismo, a ultra-direita e o fascismo emergem. Uma arte declaradamente política, mas que não carece de subjetividade, reside nesse campo onde a arte busca intervir, diretamente, no status quo.

Talvez você perceba isso nas obras e nas palavras da artista visual Laíza Ferreira. Em um texto da Vice, Julia Reis, Marie Declerq e Amanda Cavalcanti descrevem suas colagens como “místicas e resgatam raízes da artista em diferentes formas de manifestação. Não há separação entre nossa carne e elementos da natureza na visão de Ferreira, misturado corpos, rostos e expressões humanas com rios, montanhas pedras preciosas e plantas. A artista já fez cartazes e capa de álbuns, mas é sua série Flores Invisíveis onde é possível ver a fluidez do seu trabalho”. Na entrevista abaixo, você conhece um pouco mais sobre ela.

 

Modefica: Quem é Laíza Ferreira e como você chegou até aqui?

Laíza Ferreira: Nascida e criada em Ananindeua, Pará. Atualmente moro em Natal. Desde criança busco outras formas de estar no mundo. Por ser um corpo racializado, sempre busquei estratégias de sobrevivência. A arte é um dos caminhos que me possibilitou intensificar minhas subjetividades.

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Desde cedo me relaciono com as imagens, seja através do desenho, da pintura ou até nas viagens imagéticas que eu inventava. A colagem surgiu um pouco depois quando comecei a editar fanzines e foi a partir dessa linguagem que comecei a compreender os meus processos errantes na arte. Fui estudar artes visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e dentro do espaço acadêmico tive muitas inquietações. Em natal tive a minha primeira exposição individual e passei a encarar a arte como modo de vida. Desde então esse trajeto tem sido experimental e colaborativo.

Como você define sua arte?

Arte como um trajeto anticolonial e coletivo. Um campo de experimentação para além das linguagens tradicionais. Arte e política caminham juntas nesse processo urgente em expor as nossas feridas, na luta contra essas políticas de extermínio ao povo negro e indígena. Assim como um processo de cura.

Um campo de força ancestral onde vivemos caminhos possíveis e impossíveis. A minha arte é um dispositivo de contrariedade, pois não se espera ver um corpo racializado produzindo arte num país racista. Como escreve a Conceição Evaristo: “a gente combinamos de não morrer”; estas palavras ecoam e me fortalecem na caminhada. Crio mundos contra hegemônicos. Tudo está interligado e nossas subjetividades são constelações. Articulo estas práticas artísticas como ruptura com o silêncio.

O que você busca transmitir com suas colagens?

Construir outras narrativas a partir da memória ancestral, da coletividade; instigar o imaginário através de fragmentos ressignificados; desaprender os conhecimentos coloniais e normativos na busca de compreender a sua própria história.

Gosto quando as pessoas falam que ao conhecer o meu trabalho, elas conseguem viajar. A imaginação nos move, nos eleva e nos possibilita criar outros mundos. Utilizo muitos elementos cósmicos, pois quando penso neles, ultrapasso os limites estéticos. É um voo, uma reconexão com o todo que nos faz perceber cada ligação com a Natureza.

 

Colagens por Laíza Ferreira

Os temas Natureza, povos originários e mulheres são recorrentes na sua arte. O que te inspira nestas escolhas?

As minhas raízes e lutas são parte deste processo. Estes processos se deslocam e se entrelaçam no outro. Penso muito no coletivo e na escuta sensível dos nossos ancestrais e como isso ecoa na arte. Lembro da luta das mulheres de minha vida e de toda dor que sentiram pra poder ter o básico.

O quão relevante é a arte para o Brasil, atualmente?

Atualmente a arte segue a lógica colonial onde marginaliza corpos dissidentes e utiliza das mesmas velhas estratégias de apagamento. O processo da arte brasileira é totalmente elitizante e a maioria dos espaços são excludentes. Ainda luto de forma árdua para conseguir espaço e viver da minha arte. Durante muito tempo sobrevivi de subempregos sofrendo as piores humilhações e nunca imaginei que algum dia alguém teria interesse num trabalho meu. É um caminho lento e angustiante, mas que não me imagino sem, pois é parte de minha existência.

Durante muito tempo fui instigada a desistir, pois minha vida estaria fadada ao fracasso, à morte. Gosto de pensar no processo morte-vida, onde renasço dessas dores e incendeio as expectativas. Sigo na reconstrução de caminhos na arte sobre a perspectiva descolonial como dispositivo.

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Colagem Laíza Ferreir

Escolha uma produção sua que tem um significado especial para você e nos conte a história dela.

Tenho investigado as minhas origens através da conexão com os que antecedem. Durante esses anos ressignifiquei a dor da perda, usado a imagem como instrumento de força. Em 2014 perdi a minha avó, Cassiana. Uma segunda mãe pra mim. A morte foi um ponto inicial de transformação radical em minha vida. Foi através dela que abandonei o que me dilacerava. Criei uma colagem efêmera com uma fotografia dela. Os saberes que ela transmitiu estão entranhados na minha mente y corpo. Sinto a presença dela na Natureza. Cada partícula transborda em minha existência.

Quais artistas te inspiram e por quê?

As artistas que irei citar são as que me conecto, as que estão vivas e próximas, geograficamente e politicamente. Aqui construo uma rede de apoio mútuo onde tecemos as nossas subjetividades negras, não normativas e indígena: Gê Viana, Jane Gomes, Ubiratan, Guilherme, Christalina.

Onde podemos encontrar suas produções?

Eu sou artista autônoma. Então, vendo os meus trabalhos pela internet, via Instagram ou e-mail.

 

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Esse texto foi publicado originalmente na newsletter quinzenal do Modefica. Para acessar outros conteúdos exclusivos e inéditos como esse basta se cadastrar (gratuitamente) por aqui.

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