Marcas de Beleza Estão Na Onda dos Garotos

Se você está atenta ao universo da beleza, provavelmente já notou algumas propagandas de maquiagem com rapazes, talvez alguns deles você até reconheça por acompanhar tutoriais e resenhas de maquiagem no Youtube e no Instagram. Quando a CoverGirl assinou o porta-voz James Charles (seguido pela Maybelline assinando com Manny Gutierrez, Manny MUA), ela sinalizou, em parte, que as marcas de maquiagem mainstream estão dando boas-vindas aos homens  – e sinalizou também versões sem remorsos de alguns de seus produtos.

Com personalidades marcantes para combinar com seus tutoriais e resenhas, estes influenciadores de beleza possuem números de seguidores impressionantes, em grande parte do sexo feminino. Não é de admirar que as empresas de cosméticos estejam ansiosas para se associar a esses homens e divulgar que seus produtos são adequados para todos.

É importante tirar um momento para reconhecer o quanto isso é especial – homens que gostam de maquiagem estão sendo representados de uma maneira importante que seria difícil imaginar até pouco tempo atrás. Porém, este fenômeno tem suas nuances. Embora a participação de influenciadores de beleza em propagandas seja, sem dúvida, um passo na direção certa para a inclusão de expressões não binárias de gênero, é também uma ação compreensivelmente criticada por parecer estar surfando numa tendência para aumentar as vendas – e se manter relevante em um mercado cada vez mais amplo, diversificado e competitivo como o mercado de beleza.

Até que ponto esta tendência na publicidade é uma reflexão honesta dos tempos - e até que ponto é um marketing inteligente?

Enquanto algumas marcas como a Tom Ford Beauty e a Milk Makeup apresentam homens em suas campanhas há algum tempo, são as grandes marcas que estão atraindo mais ceticismo. “É extremamente confuso, da mesma forma que muitas marcas estão fazendo campanha pelo feminismo ou mercantilizando o feminismo para vender um produto”, diz Sable Yong, editora de beleza da Allure. Até que ponto esta tendência na publicidade é uma reflexão honesta dos tempos – e até que ponto é um marketing inteligente?

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Além disso, o atual estilo de maquiagem apresentado nessas campanhas é extremamente elaborado e, muitas vezes, de alto conceito, mostrando apenas um tipo de aparência entre as muitas possibilidades para homens e mulheres. Se as marcas de beleza levam a sério a inclusão, devem encontrar uma maneira autêntica de alcançar homens que desejam usar uma quantidade moderada de maquiagem. Afinal, nem todos os homens que usam maquiagem estão interessados ​​em iluminador ou fazer contorno-Kardashian. Nós ainda temos algum campo para cobrir em se tratando de normalizar o meio-termo que existe entre um pouco de corretivo e cílios falsos maiores do que a vida.

Independentemente de como as marcas de farmácia se prendem à beleza dos homens, é seguro dizer que a beleza fluida de gênero, seja de cuidados com a pele, maquiagem ou cuidados com os cabelos, é mais do que uma tendência passageira. Alguns homens usam – ou desejam usar – maquiagem por mais tempo do que as mulheres roubam lâminas de barbear. Mas é só agora que estamos comemorando esse fato, publicamente e comercialmente.

Seguindo em frente, a ideia é nós olharmos para os homens e mulheres compartilhando sua paixão pela beleza nas plataformas de mídia social e apontando as tendências a serem seguidas pela indústria da beleza  – e não o contrário.

 

Entre homens e mulheres há todo um universo de possibilidades.

No entanto, uma conversa sobre beleza fluida de gênero que aborda apenas homens de maquiagem não é completa. Da maquiagem ao perfume, os produtos de beleza há muito tempo glorificam um ideal feminino bastante estreito, muitas vezes involuntariamente criando uma experiência de compra desconfortável e desmoralizante que efetivamente expulsa mulheres e mulheres que se apresentam como mais “masculinas”.

Muitas mulheres, incluindo mulheres trans, valorizam e querem cuidar de suas aparências – mas nem todas anseiam por cílios falsos em um tubo cor-de-rosa. Em um artigo poderoso para o Yahoo, a fundadora da marca Soapwalla, Rachel Winard, explica como as definições limitantes de beleza feminina moldaram sua vida pessoal e, mais tarde, seus negócios. “Eu sou queer”, diz ela, “e eu não me encaixo no ideial de beleza da sociedade. Eu costumo brincar que pareço um garoto de 12 anos, mas é verdade, e muitas vezes isso significa que as pessoas não acreditam que eu pertenço ao mundo da beleza.

Uma conversa sobre beleza fluida de gênero que aborda apenas homens de maquiagem não é completa.

Winard descreve o ambiente da maioria dos departamentos de beleza como espaços “hipersexualizados e hiper feminizados” que fizeram com que ela se sentisse mal recebida desde a juventude. Quando Winard decidiu criar sua própria linha de produtos naturais para a pele, ela criou sua marca para incluir todas as identificações de gênero, tornando cada produto neutro em termos de gênero. Sobre o óleo de gravidez Soapwalla, ela explica que o produto é rotulado como tal “porque a gravidez é uma condição médica e existem certos óleos que você não pode usar enquanto estiver grávida. Então, nós identificamos que é um produto seguro para quem estiver nessa condição. Mas não falamos sobre quem está nessa condição”.Para Winard, o marketing de produto é mais do que ingredientes naturais – é sobre usar a linguagem mais abrangente possível e permitir que os clientes se imaginem  – e não necessariamente um modelo ou influenciador de beleza – usando o produto.

Embora os últimos anos tenham testemunhado uma abertura maior em relação à apresentação de mulheres não femininas no universo da moda e da beleza, Winard observa que a discriminação continua a desempenhar um papel na indústria e os exemplos existentes de aceitação queer, como grandes campanhas publicitárias de maquiagem com homens ou a popularidade de Queer Eye, são apenas o começo. “Acho que a misoginia também tem um papel”, explica ela. “Se algo vem de um homem, gay ou hetero, isso dá um pouco mais de legitimidade do que se vier de uma mulher”.

Quer estejamos passeando pela farmácia local ou comprando animadamente o lançamento de maquiagem Crayola x ASOS gender-fluid (e vegan!), vamos seguir o exemplo de Winard e considerar a linguagem que usamos quando falamos sobre produtos e tendências com nossos amigos, em relacionamentos sociais e meios de comunicação. Vamos ser abertos e inclusivos. É um momento emocionante para a indústria da beleza e muita coisa está mudando. Mas algumas coisas sempre serão verdadeiras: a beleza vem em muitas formas diferentes – e a beleza é para todos.

 

Por: Mary Hood Luttrell, uma entusiasta de beleza vegana vivendo em Corpus Christi, Texas com seu marido e seu adorável gato. Mary gosta de cozinhar pratos cheios de vegetais e praticar ioga e balé. Ela é editora de beleza do Peaceful Dumpling e escritora na Barbara Michelle Jacobs e Debb Report.

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