Beta: Conheça a Robô Feminista Unindo Mulheres e Política

Era início de 2017, o Congresso Nacional se articulava para votar sobre emendas constitucionais que mexiam profundamente com a vida das mulheres, em especial, com seus direitos reprodutivos e sexuais. Milhares de mulheres direcionaram sua atenção para Brasília. Com a equipe do Nossas, um laboratório de ativismo dedicado a criar novas formas das pessoas participarem da política, não foi diferente. Em meio a este momento perigoso e delicado, o grupo entendeu que era hora de agir e decidiu juntar a praticidade de uma nova tecnologia recém disponibilizada no Facebook, os chat bots, à voz das mulheres brasileiras. Após diversas reuniões, nasceu a Betânia, ou Beta, a Robô Feminista.

“Nós já tínhamos projetos de mobilização política que surgiram primeiro com ‘Meu Rio’. São projetos de cidades, então temos ‘Meu Rio’, ‘Meu Recife’, ‘Minha Sampa’. Eles monitoram localmente projetos de leis, votação e o que está acontecendo na cidade que pode impactar os direitos dos cidadãos”, explicou Ana Clara Toleto, responsável pela comunicação da Beta e integrante do Nossas, ao Modefica. “Criamos oportunidades de ação sempre através da tecnologia”. 

A articulação do grupo com o movimento feminista acendeu uma discussão sobre a falta de um canal mais prático para chamar e incitar as mulheres a lutar pelos seus direitos. “Percebemos principalmente [a necessidade] das mulheres que não estavam necessariamente envolvidas em uma organização ou coletivo feminista, mas que se identificavam enquanto feministas e queriam ter algum nível de incidência política”, explica.

Apesar do momento ser de ameaças às mulheres, foi também o momento ideal de criar algo que aproximasse as mulheres da política, pois uniu a vontade da equipe de projetos do Nossas com os estudos da equipe de tecnologia sobre o recém-chegado ao mercado chat bot do Facebook. O meio de comunicação foi escolhido como canal da ferramenta por ser um espaço propício ao engajamento – o Messenger do Facebook é o segundo aplicativo de mensagens diretas mais usado no Brasil. Foi assim que a Beta recebeu sua metodologia de mobilização.

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“As mídias sociais têm sido, nos últimos anos, muito importantes para a articulação do movimento feminista e na disseminação de informações sobre os direitos das mulheres. Então, nós queríamos ocupar esse espaço também como um canal de ação política”, explicou Ana Clara.

A Beta age como um radar de pautas políticas e cria alertas para quem alguma vez entrou em contato com ela via Messanger. “Muita gente deve imaginar que tudo é feito com tecnologia, mas nós que fazemos as buscas. Monitoramos o Congresso, as Casas Legislativas, as Ordens do Dia para entender quais projetos estão tramitando e quais são interessantes incidirmos sobre”, explica Ana. Além da busca manual, a equipe também conta com parceiras do movimento feminista; o engajamento diário é um esforço que vem de diversos lados. Quando um projeto se move no Congresso ou nas Assembléias é hora da Beta agir. “Nós avaliamos e, se entendermos que vale uma mobilização, criamos uma campanha em torno dele”, afirma.

As mídias sociais têm sido importantes para a articulação do movimento feminista. Então, nós queríamos ocupar esse espaço também como um canal de ação política.

Radar da Beta

Em junho de 2018, o projeto de lei nº 867/2015, de autoria do Deputado Federal Izalci Lucas (PSDB), conhecido como “Escola Sem Partido”, recebeu o alerta do movimento feminista sobre seu trâmite no Congresso. Considerado um enorme retrocesso na educação, o projeto tira o compromisso de escolas e educadores de discutir e ensinar sobre direitos humanos, proibindo que palavras como “gênero” e “orientação sexual” sejam usadas em sala de aula. Caso este projeto seja aprovado, uma professora que pautar violência contra a mulher pode ser processada.

Quando um assunto de tamanha gravidade como a “Escola Sem Partido” aparece no radar da Beta, a equipe passa a estudá-lo. “Vemos tudo que diz respeito sobre ele, quais os autores envolvidos, quais são as narrativas envolvidas e aí, a partir disso,  criamos uma conversa da Beta com os usuários chamando eles para a ação”, explica Ana Clara.

Com esse projeto, em especial, a pressão foi feita via e-mail. “Via Beta, a usuária manda e-mail para os deputados envolvidos na ação, pedindo para rejeitarem o projeto”, explicou Ana Clara. Neste caso, a intervenção das mulheres foi um sucesso. O projeto segue em tramitação, mas a pressão aconteceu nas três vezes que houve a votação marcada. Em todas elas, a data foi adiada e segue sem previsão de novas votações. “Isso é uma super vitória porque neste adiamento a PL pode ser arquivada”, comemora ela. Ao todo, a Beta mobilizou 30 mil mulheres na campanha contra o projeto. Após 12 horas de lançamento, já haviam 10 mil pressões, o que adiou a votação pela primeira vez.

 

Algumas das pautas que a Beta mobilizou no último ano.

 

A colaboração com a Mandata Coletiva Marielle Franco também surtiu efeitos: em maio, o grupo chamou a Beta para ajudá-los numa mobilização de sete projetos de lei da falecida vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco. Por meio de uma página de mobilização e ativando o chat bot no Facebook, elas conseguiram aprovação de cinco dos sete projetos de Marielle, que agoram precisam ser sancionados pelo governador do Rio, Marcelo Crivella.

Quando a proposta de emenda constitucional 181/15, do deputado federal Jorge Mudalen (DEM – SP), entrou em jogo, a robô feminista também fez barulho. A PEC proíbe totalmente o aborto no Brasil, mesmo nos casos já legalizados por lei incluindo risco de vida à mulher, gravidez decorrente de estupro e anencefalia fetal. Vale lembrar que Mudalen está no seu 7º mandato e pode voltar a concorrer novamente pela vaga (olha aí importância de entender os poderes dos deputados federais, além de como eles são eleitos, antes de votar).  

O projeto chegou a andar no Congresso, indo para votação dentro de uma comissão especial. “A nossa mobilização durou meses, porque eles iam marcando e desmarcando a votação. Ao final, foram 35 mil pessoas mobilizadas pela Beta e a votação foi adiada sete vezes, sem data de retorno. Como a gente está em um ano de intervenção militar no Rio, todas as PECs, que são essa emendas constitucionais, estão suspensas no Congresso. Então, esse ano ela não anda mais”, comemora.  

Para receber atualizações e ficar antenada no radar político de questões feministas, chama a Beta no inbox.

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