Quem É Você Em Black Mirror?

Um futuro em tons pastel: comentários (com spoilers) sobre Nosedive, primeiro episódio da nova temporada de Black Mirror

Imagine uma integração entre Instagram, Facebook, LinkedIn e uma espécie de TripAdvisor de pessoas, onde todas as vivências podem ser avaliadas com uma nota de 1 a 5. Não apenas fotos, posts, refeições e serviços, mas também gestos, escolhas e interações da “vida real”. A média dessas avaliações geraria uma nota que pautaria a vida social e profissional de cada um. Essa é a premissa de Nosedive, primeiro episódio da nova temporada de Black Mirror, série de ficção científica que estreou na última sexta-feira (21) na Netflix.

Não se trata de um futuro distante ou hipotético. Atualmente, já contabilizamos likes e seguidores e consideramos popularidade na internet como capital social capaz de influenciar diversas esferas de nossas vidas. Nesse sentido, Nosedive (que significa algo como queda brusca) tem eco de outro episódio da série, Fifteen Million Merits, em que méritos são acumulados e utilizados como moeda.

Através do Facebook, hoje é possível avaliar lugares e projetos, assim como filmes, séries, discos, shows. No 99Taxi, podemos atribuir uma nota ao motorista e ao carro que fizeram a corrida. No Goodreads, avaliamos livros com estrelas de 1 a 5. Os aplicativos que usamos para tudo isso, por sua vez, também podem ser avaliados na App Store ou no Google Play. Na época do Orkut, há mais de dez anos, já era possível dar notas para as pessoas — lembram-se do ranking sexy, cool e confiável?

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Portanto, o esquema proposto por Black Mirror pauta as relações pessoais e profissionais há tempos. Estamos tratando seres humanos como produtos, aplicando a eles o mesmo raciocínio do mercado. O artigo How China Wants to Rates Its Citzens, publicado há um ano na New Yorker, prova que a distância entre realidade e ficção é menor do que gostaríamos.

Na introdução do romance A Mão Esquerda da Escuridão, a escritora americana Ursula K. Le Guin lembra que a ficção científica não se resume a um exercício de extrapolação da realidade ou a uma tentativa de antecipação do futuro. É uma nova maneira de olhar para o presente, para que somos hoje. A meu ver, este é o maior mérito da série.

Lacie, a protagonista (em ótima interpretação de Bryce Dallas Howard), é especificamente suscetível a essa dinâmica. Ela é carente e manipulável. Conquistar uma boa nota é seu objetivo simbólico; o que Lacie realmente persegue é a ideia de pertencer a um grupo, de ser reconhecida como igual. O episódio faz um retrato do mundo externo, atravessado pela tecnologia, mas acerta ao levar em conta o mundo interno da personagem, movido por inseguranças.

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Não se trata de uma mera generalização, do estereótipo de alguém superficial que persegue aparências gratuitamente. A protagonista parece estar em profundo conflito, sacrificando suas camadas mais obscuras (que poderiam lhe tornar alguém genuinamente interessante, pois um ser humano) em favor de uma persona mais adequada ao mundo tal como o encontra.

Nosedive me fez pensar que a subjetividade continua sendo determinante para o quanto vamos sucumbir, para o quanto nos deixaremos afetar. O irmão da protagonista, por exemplo, poderia ser pensado como um contraponto a Lacie. Ele faz parte do sistema tanto quanto ela, mas não está completamente intoxicado. Continua a questionar a ordem das coisas em alguma medida, a exercer uma espécie de rebeldia.

O episódio nos lembra de que há um pequeno espaço para a posição subjetiva, para alguma autonomia como indivíduo, ainda que façamos parte de um mundo normatizante.

Lacie não cede ao esquema por futilidade, mas, antes, porque nunca se encaixou nos padrões estabelecidos por uma sociedade orientada pela competição e pelo materialismo. Então essa lhe parece a única chance de fazer parte de algo, de viver sua fantasia de pertencimento. Temos aqui o encontro de um sistema opressor com a vítima perfeita. Desesperada por afeto e aprovação, deixa-se seduzir pelo status quo, alienando-se junto à correnteza.

Já sua amiga Naomi parece sentir um certo prazer sádico em interpretar a rainha do baile, um perfil que encontramos nas revistas de celebridades e colunas sociais desde sempre. Naomi tem uma vida de Barbie, a “bunda rígida como um punho”, imagem que se contrapõe à da gelatina amorfa que Lacie faz de si mesma. A única maneira de se equiparar era ter uma boa nota na rede, quase tão boa quanto a da amiga. No lugar da imprecisão das relações humanas, entram critérios objetivos: sorria, fale baixo, seja gentil, respeite as regras e você terá uma boa avaliação. Tudo que Lacie deseja é entrar em uma forma que lhe determine e encerre, que lhe confine.

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É possível ver no episódio muitas nuances que ultrapassam o sermão que demoniza a tecnologia, pelo que, muitas vezes, Black Mirror é criticada. Quanto a isso, Charles Brooker, criador da série, argumenta: “A bomba atômica é algo terrível e a tecnologia, algo fantástico. (…) não sou contra a tecnologia. Em Black Mirror a tecnologia nunca é a vilã ou o ‘sujeito do mal’. Quanto às redes sociais, a verdade é que são muito importantes, apenas são ruins quando mal utilizadas. Anos atrás, escrevia sobre videogames e tenho muito interesse por pequenos aparelhos e gadgets, estão entre as minhas coisas favoritas. O que acontece é que a tecnologia e as redes sociais estão muito presentes atualmente, oferecendo um bom ângulo para o desenrolar de histórias”.

Se o protagonista de Nosedive fosse o irmão da Lacie, a história poderia ser diferente. Ou se fosse a caminhoneira, que após sofrer uma grande perda, decide viver à margem. Ou, ainda, se o protagonista fosse o homem que trabalha no posto de carregamento de veículos, disposto a dar uma avaliação ruim seguindo seus próprios critérios, ignorando o impacto na vida alheia. Se todos estamos suscetíveis de alguma maneira, alguns foram atingidos mais do que outros. Estamos mais vulneráveis ao outro quando estamos enfraquecidos como sujeitos.

Poderíamos pensar na seguinte enquete: quem é você no primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror? A caminhoneira (fora da lei); o irmão de Lacie (tranquilo e favorável); o homem do posto (rebelde sem causa); a amiga Naomi (mundo de Caras); ou a heroína Lacie (vulcão de repressões)?

Desde a infância, Lacie parece ser a pessoa mais solitária do mundo. Bastou um olhar de Naomi para se afeiçoar e aceitar tudo que viesse dela. Vítima de um transtorno alimentar na adolescência, era Naomi quem segurava seu cabelo enquanto Lacie vomitava, uma imagem no mínimo ambígua de “ajuda” e lealdade. Tudo que conseguiu construir ao longo dos anos foi um alter ego obediente e pasteurizado. Há uma assepsia na fotografia, tudo parece ter vindo das páginas da revista Kinfolk, o que colabora para construir a atmosfera de controle. Cada desordem é sentida como ameaça: é um equilíbrio tênue, sempre a ponto de descambar. Lacie é como uma fera domesticada que não perdeu seus instintos selvagens.

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Na conversa com a caminhoneira, a protagonista diz que enquanto a companheira de estrada não tinha mais nada a perder, ela sequer havia conquistado algo pelo qual valeria lutar. Tudo o que tinha era a sua reputação social, que funcionaria como uma ponte para a vida sonhada, onde compartilharia experiências reais. Paradoxalmente, ao se fixar nesse objetivo (primeiro manter, depois aumentar seu placar), Lacie afasta qualquer possibilidade de troca sincera; até suas risadas são previamente ensaiadas na frente do espelho. Em certo momento, o irmão lhe confronta: “Você costumava ser legal antes disso, a gente costumava conversar”. Lacie foi se tornando obcecada pela fantasia, o que lhe deixou ressentida com a realidade e sua inevitável precariedade.

Dentro do contexto fatalista da série, poderíamos considerar que o episódio teve um final feliz. Quando Lacie se viu em um estado deplorável, suja, presa e humilhada, com uma enorme mancha em sua reputação, talvez tenha experimentado uma relação genuína pela primeira vez. Ao brigar com um rapaz, preso na cela da frente, Lacie parecia mais livre do que antes. Estava descontrolada — pense em como essa palavra pode ter uma acepção positiva. Estar sob controle é percebido, automaticamente, como qualidade. Portanto, foi um alívio vê-la finalmente perder as estribeiras.

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A cena final tem uma simetria invertida em relação à outra cena importante do episódio: quando Lacie vai visitar a casa em que gostaria de viver, em um condomínio que o irmão acusa de se parecer com uma prisão, a corretora lhe mostra uma espécie de holograma, uma imagem na qual uma Lacie imaginária parece muito à vontade enquanto prepara o café da manhã na cozinha. Um homem chega e lhe abraça, eles se beijam por trás do balcão, parecem apaixonados. A estrela dos comerciais “de margarina” passa a ser o próprio sujeito tomado como público alvo.

Lacie fica muito comovida com a visão: é o bastante para decidir que precisa viver ali. Como se aquela casa cara, com custo acima de suas possibilidades, fosse o passaporte para a vida que tanto sonhou. Na última cena, quando encontra o rapaz na prisão, um homem com porte físico parecido com o da fantasia (negro, jovem, alto, magro), o que resta a eles são ofensas mútuas e calorosas, uma fúria honesta. Lacie encontra o que buscava onde menos poderia imaginar: um afeto verdadeiro, finalmente.

Imagens: Reprodução

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