Entenda o Que São e Quais os Desafios Para as Carnes Vegetais e de Laboratório

Todo ano o mercado mundial de carne bovina traça uma perspectiva de crescimento positiva na sua produção. Em 2019, a empresa de consultoria AT Kearney avaliou em US$ 1 trilhão/ano (R$ 3,7 trilhão/ano) a rentabilidade da indústria da carne bovina – o valor aproximado da 1ª e 2ª empresa mais valiosas do mundo: Amazon e Microsoft. Esses números também são promissores no Brasil: o país conquistou, em 2018, o primeiro lugar como maior exportador do produto no mundo. Foram 1,64 milhões de toneladas exportadas, 11% acima do volume de 2017, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). O valor da commodity alcançou US$ 6,5 bilhões (R$ 24,8 bilhões). Enquanto esse cenário alegra o seleto grupo de agropecuaristas, a expansão da indústria da carne preocupa cientistas e ambientalistas.

Por estar intimamente ligada ao desmatamento e às questões climáticas, a produção e consumo de carne é conhecido como uma das maiores contribuições para a atual crise climática. A derrubada da vegetação nativa em regiões como Amazônia e Cerrado emite os gases responsáveis pelo aquecimento global em duas etapas: primeiro quando a cobertura vegetal é retirada e o carbono estocado no solo é liberado na atmosfera. Já quando lavouras e pastagens tomam o local, as atividades realizadas ali emitem dióxido de carbono, metano e outros gases. Segundo levantamento do Observatório do Clima, o desmatamento e a agropecuária correspondem, juntos, a 70% dos gases do efeito estufa emitidos pelo Brasil. As atividades no Cerrado emitiram 248 milhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa em 2016. A diminuição da cobertura vegetal nativa segue o crescente sucesso da exportação de carne bovina: de agosto de 2017 a julho de 2018 foram desmatados 7.900km² de cobertura florestal da Amazônia, de acordo com os Ministérios do Meio Ambiente e Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações. É o maior índice registrado nos últimos 10 anos.

O desmatamento e a agropecuária correspondem, juntos, a 70% dos gases do efeito estufa emitidos pelo Brasil.

A questão de espaço/consumo destinado à essa commodity também é preocupante. A divisão de Alimentos e Agricultura da ONU aponta que 46% das plantações do mundo são destinadas a alimentação de gado, aves, suínos, ovinos e caprinos. Já o report de 2010 da UNESCO-IHE, afirma que, por tonelada de produto, os produtos animais geralmente têm uma pegada hídrica [1] maior do que os produtos agrícolas. A carne bovina, por exemplo, gasta vinte vezes mais água por caloria do que culturas como cereais e raízes. Em termos de emissão de gases do efeito estufa, ela é tão ruim quanto a queima de combustíveis fósseis. A produção de carne emite no meio ambiente gases como o óxido nitroso e metano por conta do processo digestivo dos animais e estrume. Há também os gases adicionais que provém de toda a sorte de agrotóxicos utilizados na produção de ração para a pecuária intensiva, e do desmatamento e uso de fertilizantes para pastagens da pecuária extensiva. 

 

Uma Rota de Saída Pela Ciência: Conheça a Carne de Laboratótio

De olho nas mudanças necessárias para a sobrevivência do meio ambiente e da vida animal, empresas como a Memphis Meats e a Mosa Meat têm investido na produção da carne animal em laboratórios. A primeira vez que ouvimos falar dessa alternativa foi em 2013, quando Mark Post e Peter Verstrate apresentaram pela primeira vez um hambúrguer com carne produzida em laboratório. Na época, o espanto da inovação veio pelo valor e tempo investidos: foram necessários US$325 mil (R$ 1,2 milhão), três técnicos de laboratório e três meses para cultivar 20 mil fibras musculares que compunham o hambúrguer. De lá pra cá, muita coisa mudou. Somente em 2018 foram investidos US$ 1 bilhão (R$ 3,7 bilhões) em carnes alternativas e, pode parece estranho, mas o dinheiro provém até mesmo de empresas da indústria da carne. A BBC revelou que a Tyson Foods, uma das maiores processadoras de carne dos Estados Unidos, investiu uma quantia não informada na Memphis Meats.

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Estudos mercadológicos apontam que as pessoas respondem positivamente à carne cultivada em laboratório. Uma pesquisa realizada pelo The Guardian, em 2013, descobriu que 69% das pessoas querem experimentar carne cultivada em laboratório. No mesmo ano, na Holanda, uma pesquisa com 1.300 pessoas mostrou que 63% era a favor do conceito da carne cultivada e 52% estavam dispostos a experimentá-la. A previsão da AT Kearney é que, até 2040, 60% da carne do mundo não seja de animais abatidos, mas sim de laboratórios (35%) e de alternativas vegetarianas (25%).

Essa projeção reflete a mudança de mentalidade da sociedade, que está se mostrando mais conscientes sobre os impactos que a indústria da carne está causando no meio ambiente e bem-estar animal. Ao analisar as motivações de quem tem interesse em consumir esse produto, fica claro que a carne de laboratório não tem como público alvo vegetarianos ou veganos, e sim todos aqueles que não concordam com a crueldade animal e o impacto da agropecuária no planeta. Além disso,a expectativa é que esses produtos possam possibilitar maior estabilidade climática frente ao crescimento populacional, além de abrir portas para mudanças culturais na relação entre seres humanos e não humanos.

Cor Van Der Weele, professora de filosofia humanista na Universidade de Wageningen, Holanda, e a psicóloga Marleen C. Onwezen, explicam em um artigo acadêmico sobre o tema que, para muitas pessoas, a carne cultivada é uma nova oportunidade moral. Previamente rotulados como “indiferentes” às implicações morais de comer carne, elas, na verdade, se importam com a questão, mas decidem, de modo consciente ou não, ignorá-la como estratégia para evitar conflitos morais.

 

Produção em escala

A cultura de cultivar células é uma prática utilizada por biólogos desde o início da década de 90 e é uma prática amplamente difundida na indústria de testes laboratoriais, por exemplo. Apesar disso, a carne criada em laboratório ainda é um grande desafio de produção, custos e tecnologia. Para criá-la, é necessário pegar uma amostra do tecido animal, filtrá-lo e isolá-lo para que suas células se repliquem. Para simular o ambiente natural de um corpo, é fornecido calor, oxigênio, sais, açúcares e proteínas. Apesar da tecnologia conseguir desenvolver gordura muscular e tecido conjuntivo de linhagens iniciais, um dos grandes desafios é construir a carne de laboratório de forma a recriar a aparência da carne de origem animal. Até hoje, ninguém conseguiu cultivar um bife, por exemplo. As diferentes células musculares, bolsos do tecido conjuntivo que agregam lipídios e gordura influenciam muito na textura, gosto e aroma da carne.

Um dos obstáculos que encarecem a produção da carne cultivada em laboratório é o soro utilizado para alimentar as células. Por ser de origem animal, seu preço é bem alto, encarecendo também o produto final. Atualmente, os cientistas estão buscando fontes mais baratas, éticas e de origem vegetal para substituí-lo, pois além de ser uma preocupação pela lente dos Direitos Animais, não haveria soro suficiente no mundo para cultivar as células necessárias para produção em massa. Outro fator que dificulta a produção é o biorreator [2] que é utilizado para cultivar as células. O maior biorreator tem, atualmente, capacidade de 25 mil litros, cerca de um centésimo do tamanho de uma piscina olímpica, que pode produzir carne suficiente para alimentar 10 mil pessoas. 

 

Uma amostra da carne cultivada em laboratório da Mosa Meat. Entre diversas dificuldades, uma delas está alcançar a aparência e escapar dos hambúrgueres e almôndegas // Foto: Divulgação Mosa Meat

 

Outra dificuldade também apontada é a aparência da carne. A questão do formato e comportamento da carne cultivada em laboratório vai além da vaidade de apresentar um produto semelhante à carne de origem animal. Nosso cérebro tem um mecanismo de autoproteção comumente chamado de “Vale da Estranheza”. Quando percebemos que algo recria as características de um objeto que conhecemos, mas apresenta falhas que o impedem de ser uma imitação sofisticada, o cérebro tenta rechaçar a ideia de consumi-lo, utilizá-lo, ou até mesmo se aproximar dele. Ele ativa nosso lado primitivo, que é programado para nos proteger do desconhecido. É a estranheza que sentimos, por exemplo, quando vemos um robô humanoide.

 

Desafios ambientais

Tendo em vista as condições para a fabricação da carne cultivada, sua produção em larga escala – com a possibilidade de substituição da de origem animal – ainda é inviável. E cientistas vão mais fundo: produzidas nesse formato, a longo prazo, elas poderão trazer mais danos ao meio ambiente do que a agropecuária – justamente o que tentam combater. Pesquisadores da Oxford Martin School, na Inglaterra, divulgaram um estudo, financiado pela bolsa Our Planet Our Health, da fundação Wellcome Trust, em fevereiro deste ano, comparando as implicações climáticas futuras da carne bovina e da carne cultivada em laboratório. 

O grupo explicou que o resultado pouco esperado vem de uma mudança de análise comparado a estudos anteriores, no qual eram analisados apenas as emissões do gado, que eram convertidas ao seu equivalente em dióxido de carbono. As emissões da carne cultivada são feitas no laboratório e estão relacionadas à produção de energia que é quase totalmente composta de dióxido de carbono. Mas essa metodologia não apresentava o quadro completo, já que o gás metano e o dióxido de carbono têm impactos diferentes no meio ambiente.

Por tonelada emitida, o metano tem um impacto de aquecimento muito maior que o dióxido de carbono. No entanto, ele permanece na atmosfera por cerca de 12 anos, enquanto o dióxido de carbono persiste por milênios. Assim sendo, em longo prazo, a fabricação de carne de laboratório pode resultar em um dano maior ao meio ambiente. Os impactos climáticos da produção da carne cultivada dependerão da melhoria das tecnologias utilizadas para uma energia mais limpa e melhorar a eficiência dos processos.

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Carnes Vegetais: A Alternativa do Presente

Por hora, uma alternativa mais acessível do que a carne produzida em laboratório são as opções vegetais já encontradas no mercado. Talvez você já tenha ouvido falar do Impossible Whopper, que entrou no cardápio em algumas unidades americanas do Burger King neste ano. O hambúrguer sem carne é uma parceria da fast-food com a start-up californiana Impossible Foods. Formado de proteína vegetal, ele é resultado de nove anos de pesquisa e de um investimento de US$ 250 milhões (R$ 944 milhões). Com a missão de combater a devastação ambiental causada pela pecuária, a Impossible Foods arrecadou US$ 180 milhões (R$ 679,7 milhões) para pesquisas científicas, testes e para o lançamento do hambúrguer, em 2016. 

Diferente da carne de laboratório, que é cultivada a partir do tecido animal num processo complexo, as carnes vegetais são, como o nome indica, uma mistura de vegetais elaborada a partir de estudos laboratoriais.O cheiro de carne e ferro que dá o tom final de semelhança com as carnes animais vem das plantas: o heme é um composto que contém ferro e forma a parte não-proteica da hemoglobina. Ele é encontrado em grãos de soja e, para ser mais ecológico, a sua colheita é feita a partir da levedura fermentada. Suas versões costumam ser mais nutritivas, além de terem menos colesterol quando comparado ao produto animal. Além disso, o impacto ambiental da produção da carne vegetal é comprovadamente menor. Segundo a Impossible Foods o Impossible Burger usa 95% menos terra, 74% menos água e emite 87% menos gases do efeito estufa se comparado com o hambúrguer tradicional.

A Impossible Food é uma das 27 empresas que já trabalham em projetos para desenvolver alimentos alternativos à carne no mundo. Outra famosa na área é a Beyond Meat, que está no mercado com produtos como Beyond Chicken, Beyond Beef, Beyond Sausage e Beyond Burger. Em maio, a empresa abriu seu capital e, em junho, suas ações já haviam dobrado. No Brasil, esses produtos também adentraram o mercado. O Hambúrguer do Futuro, da recém-chegada empresa brasileira Fazenda Futuro, é feito de proteína de soja, ervilha e grão-de-bico e já está em dezenas de supermercados no Brasil. A Beyond Meat também aterrissou em solo nacional e pode ser encontrado em alguns mercados da rede Pão de Açúcar. A brasileira Superbom, com uma história de 90 anos no mercado ovolactovegetariano, também já tem o seu e outras opções seguem pipocando no mercado.

 

Otimismo disruptivo

Ainda é incerto de quando a carne criada em laboratório poderá ser comercializada em grande escala. Alguns dizem daqui há cinco anos, outros a dez. Já as empresas de destaque no segmento, Mosa Meat e Memphis Meats, estimam que até 2020 ela já esteja no mercado. Mark Post, um dos criadores da Mosa Meat, é ainda mais otimista: ele acredita que, em até cinco anos, o valor da carne possa chegar a até US$ 10 (R$ 37) a unidade. Por hora, a previsão é que a carne tome formato de hambúrguer e outros alimentos processados – como falamos anteriormente, pela dificuldade de criar tecidos conjuntivos. Mas talvez não por muito tempo: alguns cientistas americanos já têm recorrido à medicina regenerativa, ramo da ciência biomédica que estuda o crescimento de órgãos e tecidos substitutos para procedimentos como enxertos de pele.

Já as expectativas para a carne vegetal no Brasil, e no mundo, são promissoras: A Seara, do Grupo JBS, e o BRF, a maior exportadora mundial de frango, prometem lançar suas opções ainda este ano e têm expectativa de alcançar 12% do mercado de carne vegetal nos próximos 3 anos. Em entrevista ao Huffington Post, o diretor-executivo de marketing, José Cirilo, disse que a empresa está investindo em pesquisas sobre proteínas de ervilha e de jaca, para substituir futuramente produtos à base de frango e peixe. A Marfrig, empresa brasileira que está entre as maiores do mundo em abates de animais e em produção de carne, anunciou que fechou acordo para produção de carne vegetal. “O hambúrguer vegetal vem para complementar o portfólio de produtos da Marfrig e atender todos os canais de mercado nos quais atuamos”, afirmou Eduardo Miron, CEO da Marfrig em comunicado à imprensa. A Fazenda Futuro recebeu este ano o investimento externo de US$ 8,5 milhões (R$ 32,41 milhões) e firmou parceria com a rede Spoleto. A Superbom também foi outra que fechou contrato com um nome conhecido da indústria do fast-food: em junho, e empresa começou a fornecer bife empanado de proteína de ervilha com sabor de frango a 410 lojas da rede Giraffas. Foram investidos R$ 1 milhão na criação do prato.

 

Para muitas pessoas, a carne cultivada é uma nova oportunidade moral. Previamente rotulados como “indiferentes” às implicações morais de comer carne, elas, na verdade, se importam com a questão, mas decidem ignorá-la como estratégia para evitar conflitos morais.

 

Enquanto, nos Estados Unidos, as empresas de carnes vegetais começaram a sofrer pressão de quem está do outro lado do espectro, com medo de perder mercado – há tentativas de proibir o uso do termo “carne” para falar das alternativas aos produtos de origem animal – a nível global, uma colisão das gigantes da alimentação já está buscando seu espaço nesse novo cenário. Formada em 2016, a Fairr Initiative tem, hoje, 74 investidores, entre eles Unilever, Tesco e Nestlé, e possui o compromisso de diversificar suas fontes de proteínas, proteger a rentabilidade e capacidade de competir em um mundo de recursos finitos. Falamos aqui de empresas que possuem, juntas, um ativo de US$ 5,3 tilhões (R$ 20,35 trilhões) sob gestão, com projeções de crescimento diferente das pequenas startaps: A Nestlé, por exemplo, estima que as vendas de produtos de base vegetal cheguem a US$ 1 bilhão em dez anos, já a Carregour tem a meta de dobrar o número destes produtos em seu mix ainda em 2019.

Se pesquisadores conseguirem, de fato, melhorar processos e as “carnes” alternativas ganharem mercado, podemos supor algumas mudanças positivas: os cientistas da Oxford Martin School apontam que além da diminuição de gases poluentes, haverá também a redução da poluição da água. Alguns críticos afirmam que a falta de naturalidade das carnes vegetais ou de laboratório levaria a um maior distanciamento do ser humano com o meio ambiente. Mas, Cor Van der Weele assegura o contrário: o fim da produção da carne de origem animal fortalecerá o elo entre humanidade e natureza, já que o distanciamento atual se configura pelo “esquecimento” – ou mecanismo de defesa – do ser humano  com a criação intensiva de animais.

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