Carta Da Editora: A Nossa Luta É Política

Nos últimos dias, o cenário político no Brasil tomou a capa dos jornais, nacionais e internacionais, invadiu as ruas e as mídias sociais com manifestações e foi difícil achar uma pessoa sequer que permaneceu completamente neutra no debate.

Aqui no Modefica nós não falamos sobre política. Não discutimos partidos, eleições e cenário local. Quem quiser se informar sobre o assunto não pode recorrer a nós. Não estamos aqui para isso. Entretanto, a nossa luta é política. E nós temos total clareza disso.

Para muitos, não é fácil fazer a conexão, mas a verdade é que quando falamos de novas maneiras de fazer moda, sustentabilidade, igualdade de gênero e direito dos animais nós estamos falando sobre assuntos essencialmente políticos. Sem legislação, sem políticas públicas, sem representantes nas cadeiras do Congresso Nacional para defender essas questões, a nossa luta está fadada a permanecer na esfera pessoal e com poucas chances de deixar de ser excessão à regra.

Não estou dizendo que a única maneira de fazer alguma coisa é se candidatando a um cargo político. Não é. Ter uma empresa responsável por fazer e inspirar um pensamento diferente e positivo sobre sustentabilidade e boas práticas sociais, por exemplo, é necessário. Precisamos de muitas empresas assim, é uma maneira de incentivar mudanças no âmbito pessoal e empresarial, e assim fazer a diferença.

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O mesmo vale para o feminismo, para o direitos dos animais, para a luta de igualdade racial. Os movimentos e ações na Internet e fora dela são importantíssimos para alcançar pessoas, gerar empoderamento social e conduzir a luta. Entretanto, precisamos reconhecer que se não entendermos a política, se não conversarmos com ela e se não tivermos pessoas agindo por meio dela, temos poucas chances de chegar aonde realmente queremos.

Há tempos, feministas vêm reforçando o feminismo como um movimento político não só responsável por levar em conta as relações sociais, mas também a importância do movimento estar atento à política institucional, focando em políticas públicas e leis que precisam entrar em vigor para garantir, de fato, a igualdade de gênero.

Nos últimos dias, com as turbulências do processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef e o desenhar do governo do presidente interino, Michel Temer, o debate sobre feminismo como movimento político se intensificou. Um exemplo é o especial “Mulheres Na Política” do blog Agora É Que São Elas, na Folha De São Paulo. A verdade é que não tem como fugir, ser feminista é entender um pouco sobre política e sistemas econômicos e saber analisar como ambos afetam a vida das mulheres para melhor ou para pior, é saber olhar para as necessidades de outras mulheres, em situações mais complicadas e vulneráveis que a nossa, e entender como elas podem ser impactadas por questões políticas.

O mesmo vale para sustentabilidade. Existe uma extensa bibliografia ligando ambientalismo à política e sistemas econômicos, infelizmente ainda carecendo de tradução para o português, responsável por pontuar como sustentabilidade é impossível dentro de determinados sistemas econômicos e como ambientalistas precisam entender isso. Caso contrário, há uma falta de sentido entre o agir e o pensar.

Talvez o geógrafo David Harvey e a jornalista Naomi Klein sejam os nomes mais emblemáticos, mas há vários outros autores pautando sustentabilidade e política sob o mesmo teto. Kendra Pierre Louis, com seu Green Washed: Why We Can’t Buy Our Way to a Green Planet, e Fred Magdoff e John Bellamy Foster, com o didático What Every Environmentalist Needs to Know About Capitalism são mais dois exemplos disso.

Enquanto não tivermos legislações sérias e fiscalizações intensas, comprar uma moda mais consciente, fazer os próprios cosméticos, reciclar o lixo e fazer compostagem, tudo no âmbito pessoal, é ótimo e essencial, mas terá um impacto ínfimo no nosso vasto Brasil, com pensamentos tão diferentes e população tão plural. O discurso do Leonardo DiCaprio na ONU pontua muito bem como a sustentabilidade precisa atuar na política sem propor soluções irrisórias.

E se mal estamos conseguindo falar sobre igualdade de gênero e raça, e menos ainda sobre sustentabilidade na política, como vamos evoluir para tratar direitos dos seres não-humanos? Se temos que lidar com políticas retrógradas incapazes de reconhecer a importância da diversidade e inclusão social, como vamos avançar o diálogo sobre proteção animal e ambiental?

Sinceramente eu não sei. Mas sei dizer que a informação e o entendimento da complexidade do mundo parecem ser chaves para qualquer transformação real, seja ela pessoal ou política. E, acima de tudo, depende de nós.

Imagem: Reprodução

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