Uma Jornada Feminista Pessoal Com Aprendizagens Para Ações Coletivas

Nos últimos tempos tenho pensado muito sobre como o feminismo aconteceu para mim e quais foram os impactos dele na minha tragetória e na mulher que, aos poucos e diariamente, vou me tornando. Assim como o veganismo, eu entendo que feminismo é uma jornada, longa e holística, cujo fim é a ausência de qualquer desigualdade e opressão. Os caminhos que escolhemos traçar para chegar lá podem variar: a passividade ou a agressividade, o acolhimento ou o apontamento, o diálogo ou a exclusão; comportamentos e atitudes opostas, mas que se mostram complementares nessa jornada. Com mulheres que adotam posturas diferentes aprendi muito sobre ser feminista – às vezes boa, às vezes má – e aprendi também que, por vezes, a dicotomia faz parte, mesmo quando a vida em si é cheia de nuances.

Nesse 8 de março, divido com vocês um pouco dessa jornada ao falar sobre ações coletivas que hoje entendo como necessárias para chegar nesse final desejado, da equidade. Ações que tornam o 8 de Março redundante porque passamos todos os outros dias fazendo escolhas e posicionamentos capazes de impactar as estatísticas que quantificam e qualificam o entendimento do lugar da mulher na sociedade brasileira. Pode ser uma atitude revolucionária e a longo prazo ao dar bons exemplos às crianças, como sugeriu Anna Haddad. Ou pode ser disruptivo e pra ontem ao quebrar as barreiras e ocupar as cadeiras no câmara e no senado como bem nos lembra a campanha #SejaaLíderqueTeRepresenta.

 

1. Neutralidade beneficia o opressor

Se teve uma coisa que eu passei a enxergar nessa caminhada foi a capacidade de homens adotarem uma postura de neutralidade, por vezes disfarçada de consiliadora, para permanecer na zona de conforto e não refutar opressões que não os afetam. A neutralidade – quando convém – perpetua o status quo, ou seja, beneficia o opressor. Não há disrupção, inovação, quebra de paradigmas e transformações sem adoção de um posicionamento capaz de se opor ao que já está posto de forma ativa. Há algo de poderoso em não ser essa pessoa, refutar quem adota a neutralidade e assumir um posicionamento bastante firme e claro.

 

2. Cutuque, fale sobre isso e se junte ao clã das “chatas”

Não há a menor possibilidade de resolver um problema sem falar sobre ele ou fazer de conta que ele não existe. Desigualdade, violência, abuso, assédio, estupro. Tudo isso precisa ser nomeado, apontado, falado, compartilhado. Nomear o homicídio por motivações de gênero como “feminicídio” foi um passo simbólico e prático para entender como a violência opera na vida das mulheres e como ela pode ser combatida. Entender que “fiu fiu” é assédio, e falar pra todo mundo que não só é assédio como também é crime, lançou luz a um comportamento normatizado que cerceava a liberdade das mulheres de ir e vir. Nada disso teria acontecido se não houvesse mulheres colocando a boca no trombone e tantas outras levando o debate para suas diferentes esferas sociais.

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3. Desconstrua-se

Foram séculos de trabalho para incutir na nossa mente todos os preconceitos machistas, sexistas, misógenos, elitistas, racistas que nos fazem julgar outras mulheres, apedrejá-las socialmente, culpabiliza-las, excluí-las, enxergá-las como rivais ou ainda como inferiores, mesmo enquanto mulheres e compartilhando do mesmo teto de vidro e sujeitas às mesmas opressões. Leva tempo para desconstruir gerações de construção, mas precisamos começar por nós mesmas e por nossa percepção de mundo. No texto da Anna, ela sugere um exercício poderoso: “da próxima vez que você vir uma amiga ou conhecida passando por uma situação difícil — seja pessoal, nas relações amorosas, com a família, no processo de maternidade ou profissionalmente, se faça a seguinte pergunta: eu já estive aí? Isso poderia estar acontecendo comigo? E então, em vez de trazer palavras duras e apontar dedos, tente oferecer apoio. Agora é com ela, mas poderia ser com você.”

 

4. Contrate, compre, indique, apoie, financie e amplifique

É possível igualdade sem autonomia financeira? Não é. Então, caras pessoas que têm poder de tomadas de decisão nas mãos: ao invés de chamar aquele homem branco de sempre e pagar um cachê parrudo para ele, ao invés de financiar, investir ou emprestar na empresa daquele cara, que terá muito mais chances de conseguir um financiamento ou investimento em qualquer outro lugar, remova seus preconceitos de gênero que te dizem que mulheres são incapazes de tocar um negócio e empreste esse dinheiro para ela. Financiar projetos de mulheres significa maior sucesso financeiro porque ambientes diversos e tomadas de decisão orientadas por ética, atitude que mulheres demostraram ter em disparada, geram mais valor para a sociedade.

Nós passamos a vida toda fazendo as coisas acontecerem mesmo recebendo bem menos que eles – imagina o que nós podemos fazer se tivermos o mesmo espaço e as mesmas oportunidades? Coloque uma lente de gênero em suas tomadas de decisão – e você vai ver, na prática, como todo mundo precisa trabalhar junto pela equidade, em cada ação, seja ela grande ou pequena. Como falou a Carol Delgado, “vai ser mais rápido se vocês ajudarem a abrir a porta que vocês trancaram do que a gente sair derrubando”. Se você está em um lugar e só vê homens, há um problema. E você faz parte dele. Assuma a sua parte e haja para a solução.

 

5. Interseccionalidade

Entender a cruacialidade de sair da neutralidade, promover a igualdade financeira, desconstruir-se e falar sobre o problema vale tabém para mulheres brancas, mulheres cis ou mulheres privilegiadas porque o feminismo e a luta pela equidade precisa ser interseccional. Devemos ainda ir além e pensar em interseccionalidade de opressões, onde nenhuma diferença é justificativa para descriminação e violência. Nesse sentido, entender movimentos de promoção da interseccionalidade como o ecofeminismo animalista, o ecofeminismo queer e os múltiplos feminismos necessários para a construção de uma sociedade equnime e justa – para todos.

 

Todas essas ações podem e devem ser tomadas nos nossos círculos pessoais e de convívio, mas não só. É importante agir no nosso trabalho, nos ambientes de aprendizagem e em todos os nossos pontos de contato com a socidade. Dentro das nossas possibilidades, todos nós somos agente transformadores. Há o momento de parar, respirar e nos afastar para nos proteger. Mas há também muitos momentos de ação contínua. E eles não são missão só das mulheres. Equidade é missão de toda a sociedade – não jogue essa cruz apenas nas costas do outro ou delas, porque ela é sua também.

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