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Como Nós Devemos Lembrar De Joan Rivers: Pontuando Os Prós E Os Contras Da Comédia do Choque

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Texto por Gabriela Moss para Bitch Media. Traduzido e republicado com autorização para o Modefica.

Podemos falar?

Joan Rivers se foi há pouco tempo, e a questão de que tipo de legado que ela deixa para trás já está provando ser tão confusa e cheia de narrativas conflitantes como sua vida era. Ela foi um ícone feminista esquecido, que abriu as portas para todas as comediantes que vieram depois dela? Ela era uma vanguardista que perdeu o fio da meada, e acabou indo para comédia apelativa barata em vez de risos reais? Ela era uma defensora poderosa dos direitos dos homossexuais? Ela foi uma espécie de mãe dedicada, e melhor amiga que se ofereceu e contribuiu de maneira livre para a caridade? Ela era uma provocadora inútil, que disse cruéis não-piadas sobre a morte de civis palestinos e se recusou a deixar sua equipe de escritores ganhar um salário mínimo? Ela era uma sobrevivente? Ela era uma vitimizadora frequente? Ela foi mesmo engraçada?

A piada é que, obviamente, a resposta a cada uma dessas questões é: sim.  A personalidade e as crenças de Rivers parecem ser quase impossíveis de serem analisadas através de um exame de suas piadas, álbuns, livros e aparições públicas; até mesmo tentar fazer tal coisa parece ser uma missão de tolos, que resulta em conclusões covardes e reducionistas como, por exemplo, afirmar que ela “disse verdades desconfortáveis​​“. Sério? Chamar Obama de “gay” é uma postura verdadeira e corajosa? Será que diminuir a primeira-dama com um insulto transfóbico realmente é desafiar a sociedade? Será que dizer que Lena Dunham é gorda realmente exige uma capacidade ousada de enfrentar o status quo?

Apressar-se para se referir ao legado de Rivers como “contador de verdades que não estávamos preparados para lidar com” não apenas passa por cima dos momentos altos e, frequentemente, genuinamente baixos de Rivers, como também deixa de lado a oportunidade de examinar o verdadeiro legado duradouro de sua grande paixão: a questão de saber se devemos respeitar o conceito de humor de “choque”.

A ideia de igualdade de ofensas é muito falha desde o início. Apenas por ter o poder e a plataforma para chegar na frente de uma multidão e contar piadas significa que você já tem privilégio e uma vantagem sobre algumas das pessoas que você vai mirar se você quiser participar do que os comediantes se referem como “punching down“- contar piadas às custas de pessoas com menos poder social que você.

“Punching down” é uma prática desaprovada por um um monte de comediantes queridos e aclamados da atualidade, embora ainda mostra-se, na maioria das vezes, como parte da “igualdade de oportunidades de ofensa” em comédias como as do Comedy Central ou Anthony Jeselnik. Rivers fez parte de uma mentalidade old-school que abraçou o ideal impossível da “igualdade de oportunidades de ofensas”, que foi como Rivers escapou das farpas utilizadas para espetar, digamos, tanto Renee Zellwegger e as mulheres que eram mantidas em cativeiro por Ariel Castro.

Isso parece uma droga, e é uma droga. Mas foi esse mesmo entusiasmo impulsivo para o choque que levou Rivers a suas piadas inovadoras sobre dois pesos e duas medidas em relacionamentos e o aborto nos anos 60, ou suas piadas sobre o envelhecimento e a raiva nos últimos anos. É possível honrar o potencial transgressor da comédia do choque sem honrar tudo o que o comediante do choque tem a dizer?

É fácil torcer o nariz diante da ideia de ofensa pelo bem da ofensa – a maior parte do tempo, o humor de choque funciona normalmente à base de pessoas que são já são socialmente desfavorecidas. Mas, às vezes, a prática da ofensa pelo bem da ofensa dá aos artistas o espaço para empurrar ideias pioneiras e transgressoras (como tentar ir na TV na década de 1960 e contar piadas sobre o aborto quando tantos comediantes têm dificuldade em fazer isso até hoje), não porque elas são necessariamente parte de suas agendas políticas, mas simplesmente porque elas chocam outro contingente de ouvintes.

As piadas de Joan Rivers que as pessoas estão afirmando ser avanços feministas não vieram de uma base política, embora eu acredite que elas serviram a um importante propósito político. Pelo contrário, aquelas piadas ousadas vieram de um desejo de dizer qualquer coisa que fosse considerada muito descortês para ser falada em público, o mesmo desejo que fez Rivers fazer piadas sobre seus exames ginecológicos ou o Holocausto.

Parecia que Rivers se mostrava cada vez mais interessada na comédia “punching down”, em parte, isso é porque o mundo em geral tornou-se mais interessado na comédia “punching up” e Rivers sempre parecia se sentir melhor fazendo o oposto do que todo mundo esperava dela. Mas esse impulso para enfrentar o status quo como ela o via, por vezes, nos deu algumas fenomenais piadas que não eram apenas engraçadas, mas expandiam as ideias do mundo sobre o que as mulheres podem dizer e fazer na TV, no palco, no mundo. Ele também nos deu algumas piadas sem graça que tocaram profundamente em estereótipos bem endurecidos.

Nem todo impulso político para mudar o mundo vem de um crítico cultural aguçado trabalhando a partir de uma agenda política específica; às vezes ele vem de pessoas inteligentes e talentosas que estão simplesmente obcecadas em fazer as pessoas sentarem e ouvirem o que elas têm a dizer. Assim como um relógio parado está certo duas vezes por dia, às vezes uma história de comédia chocante como a de Rivers pode, também, estar certa. Mas reconhecer suas ocasionais piadas certeiras não significa que temos de fingir que ela sempre foi boa em contar o tempo, por assim dizer.

Nós não precisamos celebrar tudo o que Rivers já fez a fim de respeitar o seu legado; de fato, fazer isso seria branquear uma carreira que o único objetivo realmente visível era a transgressão. Rivers foi, por vezes, odiosa e por vezes maravilhosa. Um memorial mais verdadeiro seria não pintá-la como um ícone feminista ou como uma guerreira cultural, mas como um lendário botão propulsor. Isso é o que Rivers foi – não alguém cujas crenças pareciam consistentes, mas alguém cuja maior crença era simplesmente dizer o que quer que fosse para fazer a maioria das pessoas se sentirem o mais desconfortáveis possível.

Não vou dizer que todos nós devemos a Rivers amor ou respeito, ou que estar aberto à comédia de choque é parte de ser um bom progressista. Eu acho que a maior homenagem que poderia ser prestada a ela seria não higienizando o seu legado, sendo honesto sobre as vezes que suas piadas nos deram enjoo, sendo honesto sobre as vezes que suas piadas nos fizeram rir, sendo honesto sobre o motivo desses momentos. Vamos ser honestos quando formos discutir sobre qual o papel que aqueles que vivem de forçar os limites têm em nossa comédia, nossa cultura e nossas vidas.

Imagem Joan Rivers por Underbelly Limiited via Creative Commons.

Gabrielle Moss escreve sobre cultura pop e tweeta no @gaby_moss.

A Bitch Media é uma organização sem fins lucrativos mais conhecida por publicar a revista Bitch: Feminist Response to Pop Culture. A missão da Bitch Media é proporcionar e encorajar uma resposta feminista à mídia e à cultura popular de maneira inteligente. 

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