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Como a Pandemia Impactou as Trabalhadoras da Base da Rede Produtiva da Moda

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No novo episódio do Backstage recebemos uma convidada que já participou de algumas matérias aqui no Modefica, a presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Vestuário (CNTRV-CUT), Cida Trajano. Cida tem uma atuação na indústria do vestuário com as trabalhadoras de base já de longa data. Ela nos conta um pouco sobre as dificuldades enfrentadas pelo setor antes mesmo do início da pandemia, a piora da qualidade dos empregos por conta da Covid-19 e os desafios e as inovações encontradas pelas micro e pequenas empresas no atual cenário brasileiro.

 

 

A trajetória de Cida começou em 1987 quando, enquanto trabalhadora fabril, passou a constituir uma associação para representar trabalhadores da moda. Naquela época, por conta da Constituição, ainda não era permitido a formação de sindicatos, portanto Cida fez parte da primeira leva de mulheres sindicalizadas no país. Ela chegou a ser presidenta do Sindicato das Costureiras do ABC, depois foi a 1ª Secretária da Mulher Trabalhadora da CUT-SP e chegou, então, à Confederação Nacional do Vestuário, onde está até hoje.

Ela pontua que todos esses cargos foram disputados com homens e que, apesar das mulheres representarem mais de 73% da mão-de-obra do setor da confecção, os cargos de representação ainda são, na sua maioria, compostos por homens. Marina comenta sobre como, muitas vezes, eles seguem no cargo por anos, sem ter a renovação necessária para atender os desafios do presente.

É impossível olhar para a situação das mulheres trabalhadoras sem considerar a Covid-19, então Marina pergunta: “nesses mais de trinta anos, você viu algo parecido com a Covid-19 impactando a vida das mulheres? O que mais se alterou?”. Cida explica que, antes mesmo da pandemia, a classe trabalhadora sofreu duas grandes perdas: as reformas trabalhista e da previdência e o teto dos gastos. Segundo ela, no setor da moda, “foi um massacre. Nós temos uma constatação através de dados de 2,4 milhões de trabalhadores nessa área. São 1.200, 1.300 formais, com carteira registrada”. Os demais, Cida aponta, são informais, chegando até a quinterização.

Para a mulher, responsabilizada por todo trabalho de cuidar da casa e dos filhos, os impactos foram ainda maiores. A sindicalista afirma que elas trabalham perto de casa de forma ilegal, sem registro, para cuidarem dos filhos. “As oficinas foram prejudicadas, os trabalhadores mais ainda, porque não tiveram o seguro desemprego”, completa. Ao avaliar o outro lado, os empregos formais não tiveram tanta vantagem assim: muitas empresas mandaram seus empregados embora, algumas não pagaram, outras dividiram em diversas parcelas.

A confecção, em suma, empobreceu muito. Cida afirma que 45% das mulheres a nível nacional são chefes de família, muitas são mães solo. Logo, elas não têm a quem recorrer. Tiveram perdas significativas e os empregos que conseguiram pós-demissões não são empregos com o mesmo nível de antes. Outro ponto levantado pela sindicalista é a falta de respeito, descriminação e preconceito na hora da tomada de decisão sobre quem deve ser demitido. Demite-se sempre o trabalhador negro, a mulher, etc. Ela salienta que essa precarização contínua começou em 2016, com o golpe à ex-presidenta Dilma, mas que se intensificou nos últimos anos.

Marina adiciona que muitas pessoas acham bobagem a narrativa cultural de intolerância e ódio, mas que ela tem reflexos muito palpáveis no cotidiano. Cida reforça que a humilhação e o assédio têm deixado as pessoas doentes. “É como se essas pessoas tivessem menos direitos, fossem menos gente”, completa.

Luz no fim do túnel?

Marina questiona: existe previsão de melhoras? Qual a expectativa do setor? “Nesse momento as trabalhadoras estão sobrevivendo com aquele trabalho que fazem, que não é suficiente como antes”, explica Cida, “a maioria das empresas do setor da produção são pequenas. A moda é muito lucrativa para o dono da empresa, mas não para as trabalhadoras”. A melhora, segundo ela, vai além da produção e da vontade do setor, passa por questões de câmbio, de ações que desenvolvam a economia.

Marina comenta que as micro e pequenas empresas vivem da entrada cotidiana de dinheiro, que não possuem caixa para sobreviverem por meses. “Os grandes conseguem empréstimo, o pequeno não”, pontua Cida, “ele não tem nem casa própria”. Marina completa sobre essa desigualdade, no qual em um cenário assim, o micro e pequeno produtor, que representa a maior parcela do setor, não é lembrado. “Não é um serviço essencial, tem pouca tecnologia, não precisa de grandes estabelecimentos. (Isso) faz com que as pessoas não valorizem”, explica Cida.

Já caminhando para o fim do episódio, chegamos à última pergunta: “você viu algum bom exemplo? Se mais pessoas fizessem assim, seria menos impactante?”. Algumas empresas apresentaram condutas de respeito ao trabalhador, ressalta a sindicalista, como a contratação para produção de máscaras ou outros produtos, ou criaram sites para vender online com muita rapidez. Algumas empresas chegaram a aumentar seus funcionários e o lucro, mas ela reforça: isso foram casos pontuais, dentro de um cenário onde a maioria enfrentou e enfrenta diversos desafios para sobreviverem.

Por fim, Cida termina pontuando como as costureiras e costureiros amam seu ofício e que, apesar de em grandes desfiles só olharem para a roupa pronta ou o modelista que a projetou, o trabalho real é de quem a fez. “O difícil é materializar o desenho, fazê-lo ficar bom no corpo”, completa.

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