Como Reconhecer E Ajudar Quem Sofre Com Transtornos Alimentares

“De Bem Com A Comida” é uma série cujo principal objetivo é abrir o diálogo sobre a relação da mulher com a comida e sobre transtornos alimentares. Queremos que todo o conteúdo produzido sirva para gerar debate sobre soluções de como lidar de maneira sincera e pró-ativa com o tema.

 
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Ela se olha no espelho e tem uma imagem distorcida de si mesma, e o que vê não parece real. No reflexo, enxerga quilos a mais, seios enormes, e nem mesmo a lingerie parece cair bem. Do outro lado do espelho – e da realidade, uma garota cuja aparência já é o primeiro sintoma de que algo está errado: ossos aparentes, que dão a impressão de que não demoram a rasgar a pele, olhos fundos, e os ponteiros da balança quase não saem do lugar.

Essa mesma menina, que se olha no espelho, pode estar na situação inversa, tão acima do peso e, mesmo assim, não consegue sequer fazer um intervalo entre as refeições tamanha é sua compulsão por comida, até quando está sem fome, em um total descontrole alimentar.

Essas são cenas que estão acontecendo nesse exato momento em vários lugares do mundo, com crianças, adolescentes e adultos que sofrem com distúrbios alimentares, e existem vários deles. E não, isso não é brincadeira, não é frescura e nem uma fase: isso é doença, é assunto sério. E por todos esses motivos, precisamos falar sobre distúrbios alimentares.

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Segundo dados de uma pesquisa da Academia Americana de Pediatria, divulgada em 2015 pelo jornal Zero Hora, a anorexia é a doença psiquiátrica que mais mata no mundo, e os transtornos alimentares afetam cada vez mais jovens ao redor do globo (até 10% dos adolescentes).

A matéria ressalta, ainda, que 20% das pessoas que sofrem de anorexia morrem prematuramente por complicações da doença, como suicídio ou problemas cardíacos, conforme aponta um estudo do Renfrew Center Foundation. Danielle Santos, nutricionista que atende pacientes que sofrem de distúrbios em Ribeirão Preto, conta que a procura por acompanhamento profissional demora bastante, sendo em média 1 ano para anorexia e até 5 anos para bulimia.

“No meu caso, como nutricionista, recebo muitos pacientes objetivando perda de peso que não relatam de imediato o distúrbio alimentar na consulta, porém, através do bom acolhimento, é possível conseguir informações para identificar a presença dessas síndromes e definir a melhor maneira de tratá-las”. (Danielle Santos)

Precisamos falar com quem sofre e com quem pode ajudar quem sofre. É hora de reparar que o comportamento do seu ente querido está estranho, e que aquela garota alegre não gosta mais de sair do quarto, e comer já não é mais um hábito. Ou que sua colega de trabalho está cada dia mais magra e não gosta de tocar nesse assunto. Ou que sua filha, sim, aquela pessoa que você conhece mais do que ninguém, busca modelos de “perfeição” e se satisfaz com apenas uma folha de alface no almoço.

Pacientes diagnosticados com distúrbios alimentares precisam, mais do que acompanhamento psiquiátrico, da compreensão e ajuda dos familiares e amigos

Anorexia, bulimia, compulsão alimentar, ortorexia, vigorexia e drunkorexia são doenças graves e podem matar. Mas ajudar quem está imerso nessa luta pode ser a luz no fim do túnel para trazer a pessoa de volta à vida.

Pacientes diagnosticados com distúrbios alimentares precisam, mais do que acompanhamento psiquiátrico, da compreensão e ajuda dos familiares e amigos. Os transtornos são de cunho emocional, e pequenas mudanças no ambiente familiar podem ser o primeiro passo para a cura, ou pelo menos, para a aceitação da doença como coisa séria, e não uma brincadeira.

Identificando os sintomas e entendendo as doenças

Para Paola Altheia, nutricionista, ativista e autora do blog ‘Não Sou Exposição’, a primeira etapa para auxiliar uma pessoa que sofre com distúrbio alimentar é saber como identificá-lo; o paciente normalmente sinaliza o problema através do seu comportamento, mesmo com as tentativas de ocultar a doença.

Paola exemplifica como identificar alguns distúrbios: na compulsão alimentar, é mais difícil a identificação “porque muitas vezes a pessoa se alimenta normalmente diante das pessoas de seu círculo social e tem episódios compulsivos às escondidas. Embalagens de alimento escondidas no lixo, comida guardada no quarto e um ganho de peso que não tenha justificativa visível podem ser sinais de que a pessoa está sofrendo de compulsão”.

No caso da anorexia, o emagrecimento progressivo é o alerta principal. A pessoa dá desculpas para não comer e tenta disfarçar a magreza com roupas largas, e “algumas pessoas anoréxicas se interessam muito por revistas e programas de TV sobre comida e gastronomia, que representam as coisas que elas desejam porém ‘não podem’ consumir”.

A nutricionista ressalta, ainda, que a pessoa anoréxica dificilmente aceita tratamento por não reconhecer que está doente e precisa de ajuda, sentindo-se no controle da situação como uma pessoa “invencível”. Na bulimia nervosa, é fundamental atentar-se para lesões no corpo causadas pela indução do vômito, como no dorso das mãos, no dedo indicador e a erosão dentária, além do comportamento que pode denunciar o transtorno.

O passo mais difícil é o reconhecimento da anormalidade, e apontar as consequências do ponto de vista físico e psíquico pode ser uma saída para a aceitação

Três outros distúrbios, ainda não oficialmente classificados pela sociedade contemporânea, acendem o alerta: a ortorexia, que de acordo com Paola, é o transtorno que menos se relaciona com a imagem corporal e é mais facilmente identificável por um padrão alimentar extremamente restritivo e obcecado por uma “alimentação limpa e saudável”; por sua vez, a vigorexia, doença na qual o indivíduo é obcecado pelo cultivo de músculos e nunca se vê satisfeito, tendo como prática não incomum o uso de substâncias ilícitas, como esteroides anabolizantes.

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Já a drunkorexia é uma mistura entre a anorexia e o alcoolismo e leva a pessoa à ingestão de uma grande quantidade de álcool antes de comer, para baixar a ansiedade por ter comido muito ou para fugir das refeições, como uma válvula de escape e anestesia para as emoções.

Mistura de sentimentos: amor e ódio pelos alimentos

Muitas das pessoas que sofrem com distúrbios alimentares são, na verdade, apaixonadas por comida, com grande interesse por nutrição e alimentação, além de na grande maioria das vezes gostarem de cozinhar (para os outros).

Segundo a nutricionista Rosane Pilot Pessa, professora associada da Escola de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto e Vice-Coordenadora do GRATA (Grupo de Assistência em Transtornos Alimentares), no caso da anorexia nervosa, não é raro o paciente “reparar no que os outros comem, até dando palpites e sugestões de exemplos de refeições saudáveis (para eles!)”, são introvertidos, isolados socialmente e com dificuldade de novas amizades, estabelecendo consigo mesmo uma relação com a comida de amor e ódio.

Na bulimia nervosa, ao contrário dos pacientes anoréxicos, a pessoa gosta de comer alimentos calóricos e depois fica muito tempo no banheiro para vomitar; emocionalmente são pessoas instáveis, agitadas, eufóricas e falantes, não denunciando claramente no corpo uma importante perda de peso, o que leva ao diagnóstico tardio.

O entendimento dos distúrbios como alterações emocionais e não “como frescura” se mostra fundamental para o tratamento das doenças psiquiátricas

Quando a suspeita se comprova

A partir do momento em que a família e os amigos suspeitam que alguém próximo sofre com transtorno alimentar, a ajuda é fundamental, assim como a compreensão, a empatia e a paciência para apontar comportamentos estranhos, conforme ressalta a Dra. Rosane. O primeiro passo é conversar com o paciente sobre os hábitos não saudáveis, que podem levar a deficiências nutricionais importantes e, consequentemente, perda da saúde, do trabalho, dos estudos, do casamento, etc. “O passo mais difícil é o reconhecimento da anormalidade, e apontar as consequências do ponto de vista físico e psíquico pode ser uma saída para a aceitação. Depois disso, o desafio é ajudá-las a procurar tratamento especializado, mostrando que são doenças que tem melhora quando tratadas adequadamente.”, esclarece ela.

O entendimento dos distúrbios como alterações emocionais e não “como frescura” se mostra fundamental para o tratamento das doenças psiquiátricas, e a família também pode (e deve) procurar grupos educativos para entender e lidar melhor com todo o processo de identificação, pré-diagnóstico até a cura. Paola Altheia chama a atenção para a postura de não julgamento de quem está disposto a ajudar, deixando sempre as qualidades do paciente claras sem mencionar a aparência, e sim seus valores e que a pessoa é amada independente do seu corpo.

Paola explica que há maneiras de fazer uma abordagem adequada e que não vai gerar mais sofrimento. “Explique à pessoa que você notou que ela está em sofrimento. E que esse sofrimento pode ser sanado, se for buscado o tratamento adequado. Porém, não force. A vontade de se tratar precisa partir da pessoa que tem o problema. Ame. Acolha. Deixe claro que você aceita a pessoa como ela é, e que ela não precisa se sacrificar para obter reconhecimento e aprovação. Permaneça ao lado da pessoa. Não diga nada. Ouça. Não julgue e respeite seus sentimentos.”

Culturalmente, temos o hábito de achar que quem está doente fica de cama, prostrado, ou vive enfurnado em hospitais. E nos esquecemos que o próprio alimento pode curar uma pessoa, como acontece no caso dos transtornos alimentares. Uma pessoa que sofre com esses distúrbios pode sim ser bem-sucedida nos estudos e no trabalho, ser feliz nos relacionamentos e ter filhos, mas o grande problema está por trás de tudo isso, e é muito sério. E o posicionamento dos familiares é fundamental para que não seja tarde demais para o tratamento.

Ao se aproximar de uma pessoa com um distúrbio, não confronte, afinal o respeito e o amor estão acima de qualquer doença. Converse quando estiver calmo e ciente do que precisa ser dito, mostre que compreende o que a pessoa está passando e que se importa profundamente com a situação. Pergunte o que pode fazer para ajudar, seja flexível e jamais acuse ou provoque sentimentos de culpa, ou insista que a pessoa coma na mesa, em público.

Tire a comida do foco da conversa: o principal motivo tem que ser sempre a pessoa que sofre do transtorno, que está extremamente sensível a qualquer comentário ligado ao corpo, ao peso ou à aparência. Certifique-se de que sua fala não é preconceituosa, evite lutar com o paciente acerca do poder de comer dizendo que ele é obrigado a se alimentar: ninguém é obrigado a nada se não quiser se tratar.

Se é o seu filho que está com problemas, antes de olhar para ele, observe os seus próprios hábitos alimentares, sua visão corporal e como a comida é tratada dentro do ambiente familiar. Pergunte-se: “eu promovo a autoestima elevada do meu filho ou critico ele e o seu corpo o tempo todo?”; “eu inspiro hábitos saudáveis?” ou “eu compartilho a admiração por corpos perfeitos e padrões sociais de beleza?”.

Se é um amigo que está sofrendo com transtornos, apoie incondicionalmente, não faça ameaças do tipo “se você não parar com isso, não somos mais amigos”, nem ofereça soluções simples como “só basta comer para se curar”. Tenha um plano na manga antes de iniciar a conversa, sabendo que se o amigo negar a doença, uma boa saída seja, por enquanto, encerrar o assunto.

Outro ponto importante é entender que essas doenças são, na verdade, muito mais ligadas aos sentimentos de vergonha, ansiedade e impotência do que com a vaidade com o próprio corpo

Alguns mitos em torno dos distúrbios alimentares tornam-se prejudiciais até mesmo para a ajuda dos amigos e familiares, como, por exemplo, a crença de que quem está doente tem que estar abaixo do peso, ou que apenas adolescentes e jovens são afetadas pelos transtornos. Segundo uma pesquisa realizada pela Secretaria Estadual de Saúde do Estado De São Paulo, que entrevistou 150 jovens entre 10 e 24 anos, 39% estavam acima do peso e 77% delas corriam sério risco de desenvolver distúrbios alimentares.

Mesmo sendo mais comum em mulheres jovens, geralmente antes de completarem 25 anos de idade devido à preocupação excessiva com a aparência, conforme comprova a pesquisa realizada pela Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, os distúrbios podem se manifestar em crianças, homens e mulheres e de qualquer idade e classe social.

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Outro ponto importante é entender que essas doenças são, na verdade, muito mais ligadas aos sentimentos de vergonha, ansiedade e impotência do que com a vaidade com o próprio corpo. Porém, o maior mito, e o mais importante de todos eles, é ainda acreditar que esses transtornos não são perigosos e não precisam ser tratados.

“Transtorno alimentar não é um capricho, uma birra ou uma extravagância de comportamento. É um profundo adoecimento da mente e do corpo. (…) Não é frescura, não é “estilo de vida”, não é brincadeira, não é uma mera manobra para chamar a atenção: é doença. E doença grave.”, finaliza Paola.

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